Advogada do diabo

Desde que me entendo por gente, tenho um amor assumido pelos “vilões”. Seja em filme, série, livro, novela… e até assistindo Big Brother Brasil, minha predileção vem à tona.

SEMPRE fico na torcida vip, porém pouco requisitada, sonhando com o momento que eles mudarão o rumo das coisas e falarão para os “heróis”: “O jogo virou, não é mesmo?”

Quer me emocionar e me ver realmente tocada com algo? Coloca alguém que foi taxado a vida inteira de vilão maniqueísta, estereotipado como o capeta oficial por aqueles que acreditam ser COMPROVADAMENTE as melhores pessoas do mundo, dando uma reviravolta inesperada na história e obrigando os adeptos do bem e mal absoluto a reverem seus conceitos.  

Não é à toa que minhas séries preferidas de todos os tempos são Lost e Dexter, já que as duas mostram personagens que não se encaixam em rótulos pré-estabelecidos pela sociedade.

Aliás, uma das coisas que mais amava em Lost é o fato de que quando um personagem estava sendo vilãnizado na série, os roteiristas mostravam um outro lado dele, surpreendendo o público que jurava que eles não seriam capazes de cometer boas ações.

E da mesma forma, acontecia o inverso; os até então “mocinhos” de plantão tiravam a máscara da bondade suprema, deixando transparecer uma vertente menos bela de suas personalidades.

Adoro quando explica o que aconteceu na vida daquela pessoa até ela perder o rumo e se desvirtuar no meio do caminho, pois isso é fundamental para o público entender que todos nós estamos sujeitos a sofrer transformações ao longo da vida e que mesmo que a essência de cada um não mude nunca, tendo as devidas circunstâncias, o ser humano pode agir de maneira condenável para si mesmo.

Por isso, que quanto mais julgamos os atos alheios como execráveis e típicos de um vilão, mais corremos o risco de escorregarmos em nossas próprias contradições. Para julgar o ato alheio de forma maniqueísta, é preciso ter plena convicção de que NUNCA agiríamos da mesma forma, independente de qualquer coisa.

Caso contrário, vamos ter que trocar nosso discurso por um mais relativista, se não quisermos cair na hipocrisia.

Só que logicamente, essa minha preferência não foi vista com bons olhos pelas pessoas ao meu redor. Ninguém entendia como eu era capaz de me afeiçoar à criaturas tão vis! Teria eu um desvio de caráter e por isso torcia pelo “mal”? Essa desconfiança pairava na mente dos outros e inclusive na minha.

Na verdade, até hoje, não consigo compreender completamente a raiva misturada com os olhos marejados que, sempre me acompanham quando alguém aponta o dedo para o outro para taxá-lo de vilão, e talvez… nunca consiga decifrar por completo esse enigma que me persegue desde a infância.

A expressão das pessoas era clara, dispensava palavras; “MAS, AFINAL, O QUE SERÁ QUE ESSA GAROTA VIU EM SERES TÃO DESPREZÍVEIS, TÃO PODRES, TÃO INSIGNIFICANTES, TÃO SUJOS, TÃO… INDIGNOS DE SEREM AMADOS? ”

“INDIGNOS DE SEREM AMADOS”!!! Talvez a resposta esteja exatamente aí. Quanto mais ouvia que “vilões” não tem o direito de receber amor, mais os amava e mais fazia da dor deles a minha própria dor. Como se aos meus olhos, eles não fossem monstros. Ou melhor, aos meus olhos, eles nunca sequer foram.

No fundo, sempre os enxerguei como criaturas incompreendidas e por que não, também injustiçadas? Afinal, se você ouvir só a versão da Chapeuzinho, o lobo mau sempre será o vilão da história. Quem disse que o lobo era realmente mau? Ninguém nunca se interessou em ao menos ouvir o lado dele.

E se a chapeuzinho fosse o verdadeiro lobo, só que em pele de cordeiro? Ninguém, nunca, cogita essa possibilidade. Ninguém se importa com o lado “negro” da força.

Contudo, será que era tão negro assim ou será que tinha um cordeiro escondidinho, receoso e meio acuado por trás do lobo, só esperando que alguém lhe desse um mísero voto de confiança?

Da mesma forma que o mal está sempre à espreita só aguardando uma oportunidade para dar as caras, o bem também fica à espreita até conseguir uma chance de dominar o mal.

Só que as pessoas só conhecem as histórias pelo ponto de vista dos vencedores, dos famosos “heróis”. A regra é clara: Quem vence, narra os fatos e quem perde, cala a boca.  A maioria não está interessada em tentar enxergar os mesmos acontecimentos sob o ângulo dos perdedores. E é nesse ponto que mais faz crescer minha empatia por eles.

No fundo, todo “vilão” é um perdedor. E por que não, também, perdido? São sempre os excluídos, os rejeitados, os humilhados, os estranhos, as aberrações, os covardes, aqueles que ninguém leva à sério, são as cartas fora do baralho. Esses são os ingredientes que nunca faltam na receita de um “vilão” de sucesso.

É só lembrar da Rainha de Copas falando pra Alice no filme do Tim Burton, “todo mundo que tem cabeção ou se sente excluído tem um lugar no meu reino, querida!”, enquanto a irmã “boazinha” perguntava para seus súditos “Quem vai ser meu campeão?”

Não sei se é coisa de escorpiana e toda aquela identificação do signo com as sombras. Se é por já ter sido loser também. Se é pela covardia misturada com a vontade de poder. Se é pelo fato de saber como é se sentir perdida. Se é por simpatizar com os rejeitados.

Se é por desconfiar dos heróis e de toda aquela bondade suprema que representam (aí entra meu faro escorpiano mais uma vez).

Se é por sentir um misto de hipocrisia com cinismo por trás do sorriso dos mocinhos e uma certa tristeza e solidão por trás de toda vilania.

Não sei. Só sei que é amor. Um amor incompreendido e até criticado por muitos, mas é amor.

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