CRÍTICA | Midsommar- O Mal Não Espera a Noite: Desconfortável do início ao fim e pode ativar gatilhos emocionais no público (o que não quer dizer que seja ruim!)

TEM SPOILERS!!!

Engana-se quem pensa que pra fazer um filme de terror é necessário escuridão, correria e sustos inesperados (o que hoje em dia já não é mais tão inesperado assim, né). Às vezes as trevas se escondem em plena luz do dia e, da mesma forma que viver na eterna obscuridade é capaz de enlouquecer até os mais corajosos, a claridade constante também tem efeito alucinógeno. 

Em Midsommar- O Mal Não Espera a Noite, escrito e dirigido por Ari Aster, isso fica comprovado ao mostrar o horror em meio a uma paisagem bucólica, pastoral, repleta de elementos que num primeiro momento podem trazer até uma certa sensação de paz e tranquilidade. Mas basta aprofundar um pouco o olhar para perceber o belo se transformar em desgraça bem diante de nossos olhos.  

Apesar da claridade em tela, suas intenções a princípio não são nem um pouco claras. Vão se revelando aos poucos, conforme aquela cultura excêntrica representada no longa vai sendo “compreendida” pelo público. O terror aqui não é tão explícito (apesar da quantidade de carnificina), fica mais nas entrelinhas, subentendido no olhar, expressão e diálogos entre os personagens.

Tem muitas “dicas” do que pode acontecer e significar tudo aquilo contidas nas falas deles.  Complexo, não? Nem tanto. Conforme vamos mergulhando naquele ambiente, as coisas vão se encaixando e fazendo sentido, ainda que inaceitável para a nossa visão de mundo. Afinal, entender nem sempre quer dizer concordar. 

É preciso deixar claro que se trata de uma outra cultura, bem diferente da nossa, com outros pensamentos e ideologias. Não existe cultura superior nem inferior. O que existe são culturas diferentes. Para assistir esse filme é necessário, antes de tudo, uma mente mais aberta a conhecer algo totalmente fora de seus hábitos. Aster não fez um filme para preconceituosos. O que também, é claro, não nos impede de ficar chocado e até mesmo enjoado em muitas cenas. 

Essa reação é normal, pois como um dos personagens diz no filme, da mesma forma que enxergamos o diferente como louco, eles também devem achar que é loucura o nosso costume de colocar os idosos em asilos, por exemplo. Se formos pensar racionalmente, é tudo uma questão de ponto de vista. Cada um age de acordo com o que acredita ou foi levado a acreditar pelo ambiente no qual cresceu. 


Sabe aquele ditado de que ” de boas intenções o inferno está cheio”? É bem por aí que se enquadra o terror em Midsommar. Diferente de muitos filmes do gênero, aqui o medo causado não é intencional e nem consciente. Para os membros daquela comunidade sinistra no meio de uma floresta na Suécia, os Harga, tudo que fazem não é para o mal de ninguém. Muito pelo contrário. Dentro da perspectiva deles é tudo para o bem de todos. Para um bem maior. 

Até o que fazem com as pessoas trazidas de fora é com um objetivo “bom” (dentro daquela cultura, obviamente). No pensamento deles, os sacrifícios são sagrados e belos, merecedores de aplauso. Por mais inadmissível que seja para a nossa cultura. 

É claro que ser levado para um outro país sem saber a verdadeira motivação do convite, chegar lá e ter sua vida tirada antes da hora, contra sua própria vontade, para servir de oferenda à divindades de uma crença que não se tem conhecimento e, ainda por cima, ser transformado em peças de arte ou artefato para decorar o local é um absurdo para nós. 

Só que para os Harga nada daquilo é em vão. Ou seja, nenhuma vida é tirada em vão. Para eles, os sacrificados, na verdade, estão sendo abençoados, estão fazendo algo benéfico para si mesmos ao purificar suas almas  e presentear os deuses através da morte (como a maioria desses rituais de sacrifício humano pregam) e serão recompensados por isso. Tanto é, que os próprios membros da comuna se voluntariam para participar desses rituais. 

Dessa forma, não dá pra dizer que Midsommar é um filme surpreendente. É de conhecimento geral que várias culturas pagãs fazem uso de rituais de sacrifício, procriação, canibalismo (o que será que tinha naquela torta de CARNE, além de pêlo pubiano?), dentre outros. 

Nem precisa saber detalhes. Quem já ouviu falar um pouco, mesmo que superficialmente, dessas tradições, até mesmo folclóricas, já imaginava o que estaria por vir (ou pelo menos desconfiava), no festival de solstício de verão em Midsommar. Por isso, falar que é um enredo inesperado é um pouco exagerado. Embora isso não diminua o choque e desconforto que o filme causa do início ao fim.

Aliás, se tem uma palavra que define Midsommar é justamente essa: Desconforto. Você vai se sentir desconfortável de qualquer jeito. Seja pela relação da protagonista, Dani (Florence Pugh), com seu namorado Christian (Jack Reynor) – principalmente pelo descaso dele em relação a ela – seja pelo festival em si. Antes mesmo de Christian, Dani, Josh (William Jackson Harper) e Mark (Will Poulter) chegarem na comunidade sueca, o desconforto já estava em cena. E só piora. 

Dani e Christian têm um relacionamento totalmente desigual. Enquanto Dani se entrega completamente, Christian nunca demonstra vulnerabilidade. Ele não sabe nem sequer a data do nascimento dela ou há quanto tempo estão juntos e seus amigos, ainda o incentivam o tempo todo a abandoná-la. O que de fato ele quer fazer e só não faz por falta de coragem e pena. Afinal, ela é muita fraca, tadinha. Nunca suportaria. 

Quem disse?

A falta de reciprocidade e a discrepância de sentimentos entre eles incomoda e pode até ativar alguns gatilhos emocionais em quem está assistindo. As cenas iniciais do filme trazem à tona sentimentos bem pesados de desamparo, rejeição, desprezo, perda, dor, solidão, inadequação e principalmente, falta de acolhimento e pertencimento.

Portanto, é importante ressaltar, que Midsommar não é um filme pra qualquer um. É até, de certo modo, um pouco perigoso para o público, pois causa uma sensação ruim desde a primeira cena até a última. Sendo o conflito de Dani até mais aterrorizante, do ponto de vista psicológico, do que o terror em si, porque provoca empatia e um desconforto absurdo desde o começo. 

Se esse era o objetivo do Ari Aster foi conquistado com êxito. Já que o filme realmente tem o poder de mexer com o que cada um guarda dentro de si e ativar sensações dolorosas. Aster teve a ideia de escrever esse roteiro logo após o fim de um relacionamento, o que explica muita coisa. Talvez a intenção dele seja fazer as pessoas saírem do cinema se sentindo mal mesmo (e conseguiu). 

E nem precisa ter passado exatamente pelo mesmo tipo de experiência ou algo similar ao que é retratado no longa. A disparidade entre Dani e Christian pode ser adaptada para a realidade de cada um, causando mal-estar nos diferentes tipos de público. Fator que demonstra a esperteza “sádica” do roteirista e diretor, pois ele soube como fazer todo mundo sentir exatamente o que ele queria. 

O final tem uma mensagem clara e muito forte de empoderamento feminino, mas que também pode ser estendida além de gêneros. Quem sabe Ari Aster não tenha se imaginado na mesma posição de Dani ao final do longa? 

A personagem de Florence Pugh inicia o filme como uma menina frágil, isolada e dependente emocional de seu namorado relapso. Ela mesmo se enxergava como a parte mais fraca e inferior da relação, um fardo para o outro.

Tem uma cena que chega a irritar pelo fato dela jogar a culpa do esquecimento dele em relação ao aniversário dela nela mesma. Como se ela precisasse lembrá-lo da data, sendo que eles estão juntos há mais de quatro anos (e ele também não lembra disso). É uma crítica a como tendemos a amenizar os erros dos outros tentando criar justificativas para tais como se a culpa fosse nossa.

Só que no final os papéis se invertem e ela termina o filme como uma mulher forte, com poder de decisão. Além, de se sentir aceita pela primeira vez (mesmo que de uma maneira bem distorcida). 

Agora, ela não se vê mais como inferior, mas sim, como superior a Christian. Uma verdadeira rainha. Tendo até mesmo o poder de determinar o destino dele pra sempre. Enquanto ele, se torna impotente, em posição de total vulnerabilidade diante dela. O que era algo novo, já que no início Dani diz exatamente isso; sobre nunca ter visto Christian demonstrar qualquer tipo de fraqueza.

É interessante como ela começa o filme completamente na mão do cara (porque ela mesmo se colocou dessa forma) e no final do filme o cara que está na mão dela. 

A primeira parte de Midsommar- O Mal Não Espera a Noite, corre mais acelerada para chegar logo na sua parte principal e a que mais interessa de fato (apesar do início ser crucial para entender o desenvolvimento psicológico de Dani e relacionar com o final da trama) que é o festival na Suécia. Quando os personagens chegam na comunidade dos Harga a narrativa se torna mais lenta e é preciso ter paciência para esperar o desenrolar dos acontecimentos. 

Por isso, tem todo um aspecto de filme cult, um terror mais alternativo e menos comercial. Até mesmo pela fotografia que tem um ar mais conceitual. Não é o tipo de filme que agrada qualquer gosto, pois não é um terror tradicional. Em vários momentos o riso anda de mãos dadas com o medo, sendo tão bizarro que chega a ser cômico. 

Devido à sua fuga do convencional e similaridade entre as protagonistas femininas interpretadas por Florence Pugh e Jennifer Lawrence respectivamente,lembra Mãe (de 2017) e A Vila (de 2004), pela questão do  empoderamento feminino, sororidade e até mesmo pela cena final, remete ao O Sacrifício (de 2006), e por causa de toda a carnificina contida nele traz à memória filmes de terror gore como Jogos Mortais, O Albergue e Centopeia Humana, só que de maneira não tão explícita como esses citados. 

Assistir Midsommar é uma experiência que ultrapassa as duas horas e 30 minutos de duração do longa. Após os créditos finais, você ainda vai ficar pensando por muito tempo nesse filme, querendo ou não. Esse não é o tipo de história que dá pra simplesmente terminar de assistir e ir fazer outra coisa. Ela não é fácil de ser esquecida e a sensação que ela causa tem o poder de ainda permanecer por um bom tempo dentro de nós.

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