CRÍTICA | Gota d´Água Preta: Precisamos enegrecer nossas referências

Local: Teatro Sesc Ginástico
Endereço: Av. Graça Aranha, 187 – Centro.
Telefone: (21) 2279-4027
Sessões: Quarta a sexta às 19h; sábado e domingo às 17h
Período: 16/10 a 27/10
Elenco: Aysha Nascimento, Ícaro Rodrigues, Jé Oliveira, Juçara Marçal, Marina Esteves, Martinha Soares, Mateus Sousa, Rodrigo Mercadante e Salloma Salomão; músicos: DJ Tano, Fernando Alabê, Gabriel Longhitano e Suka Figueiredo
Direção: Jé Oliveira
Texto: Chico Buarque e Paulo Pontes
Classificação: 14 anos
Entrada: R$ 30 (inteira); R$ 15 (meia); R$ 7,50 (associados Sesc)
Funcionamento da bilheteria: Não informado
Gênero: Tragédia /musicada
Duração: 220 minutos (com 10 de intervalo)
Capacidade: 513 lugares
Sinopse: O espetáculo é uma versão contemporânea de “Gota D’Água: Uma Tragédia Brasileira”, escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes em 1975, e conta com um elenco formado predominantemente por artistas negros.  Inspirado na tragédia “Medeia”, de Eurípedes, “Gota D’Água {Preta}” traz como personagem principal Joana, mulher madura, sofrida, moradora de um conjunto habitacional. Jasão, seu ex-marido, é um jovem vigoroso, sambista que desponta para o sucesso com a composição da canção que dá nome à peça. Agora ele é noivo de Alma, filha de Creonte, corruptor por excelência e o detentor do poder econômico e das casas, a Vila do Meio-dia, local onde antes morou com Joana e os filhos. Se em “Medeia” havia reis e feiticeiros, na tragédia brasileira “Gota D’Água {Preta}” há pobres e macumbeiros, além de um coro negro, em alusão ao grego. De modo inédito na história do teatro brasileiro Joana, interpretada pela cantora e atriz Juçara Marçal (Metá Metá), e Jasão, vivido por Jé Oliveira, são negros. A escolha política-estética do diretor traz a força da musicalidade ancestral e a influência das religiões de matriz africana.

CRÍTICA TEATRAL

PRECISAMOS ENEGRECER NOSSAS REFERÊNCIAS

De 1975 para cá, quando a peça Gota D`Água foi escrita, a obra de Paulo Pontes e do eclético artista Chico Buarque, escritor, compositor, músico, teatrólogo, vencedor do Prêmio Camões 2019 (onde foi esnobado pelo então Presidente da República do Brasil por questões ideológicas e por quem na verdade tem aversão a cultura), a obra foi remontada algumas vezes com leituras bem singulares.

O fato é que a genialidade da peça de Chico permite e deve ser revisitada, sobretudo, quando percebemos que na sua escrituração, existem elementos extremamente pertinentes na contemporaneidade para serem contextualizados no momento histórico vigente do país.

Ao deslocarmos Medeia de Eurípedes, datada de 431 a.c para o século XX resignificada de Joana, uma mulher movida pelo ódio e pela vingança que aliado com a  sua religiosidade, advinda de religião de matriz africana,  serve como combustível da ação dramática no desenvolvimento da tragédia.

Agora no século XXI, a peça é remontada com um coletivo de São Paulo que imprime a representatividade da cena nacional preta que com atraso, assumem as produções dos palcos nacionais. Ufa! Começa então aí a contextualização dessa Gota D`água {preta}.

A heroína trágica Joana é negra e sua expertise de “alquimista”, agora vem da Umbanda. Seu habitat e sua comunidade são de pessoas pobres e negras da periferia. 

A encenação de Jé Oliveira percebe de cara que o texto de Chico Buarque e Paulo Pontes não está datado e que ele traz para a cena contemporânea,  a reflexão da consciência e dos conflitos de classes, ainda não superados no Brasil do século XXI, a desigualdade imposta pelo capitalismo e o jogo de quem detém o poder pelo capital.

 Diante desses ingredientes que costuram a trama, o diretor vai então junto aos seus atores, enegrecendo as referências  culturais brasileiras que o texto propõe, e, passa pelo funk, rapper, Hip Hop, samba e sem abandonar a própria obra musical de Chico Buarque, brasileiríssima, para assim conduzir a nós expectadores às referências pretas do que todos nós somos oriundos.

Gota D`água {preta} é ritualístico teatralmente falando, assim como os rituais da Umbanda e do Candomblé. A partitura de movimento do espetáculo dialoga com as danças dos orixás, sublinhando as ancestralidades africanas, sem perder as referências do coro Grego da tragédia original.

O espetáculo se divide em dois núcleos: opressores e oprimidos, e, o resultado dessa sociedade partida é o lugar do qual enxergamos o Brasil, guiados pela perspectiva de leitura que o encenador conduz em sintonia com a primazia do texto.

O núcleo dos oprimidos que é composto pelos moradores do condomínio e que estão prestes a serem despejados da Vila Do Meio Dia.

 Esse universo tem como personagens os amigos de bar, compositores personagens populares de uma comunidade. Tem o casal Egeu e Corina, (compadres de Jasão e Joana) que batizaram os filhos do casal. Jasão viveu uma longa história de amor de 10 anos ao lado de Joana, uma mulher muito mais velha que como a mesma diz, pegou Jasão ainda um menino que não sabia nada da vida, apenas com 20 anos e o fez homem. E agora Jasão finda a relação para casar com a filha do capitalista Creonte, capitalista afortunado que explora os moradores do condomínio com juros aviltantes na medida em que os mesmos já não conseguem pagar mais as prestações de seus respectivos imóveis.

Diante desse quadro, Jasão fica famoso com seu último samba (Gota D´água) com um empurrão do seu futuro sogro. Imediatamente Jasão abandona suas origens e se junta com a classe dominante achando assim que sua ascensão viria a jato.

As fidelíssimas e incansáveis amigas (comadres) de Joana fazem das tripas coração para destituir Joana de sua depressão e fazê-la seguir com a vida. Destaque para Corina mulher de Egeu, ambos gostam imensamente de Joana e até então de Jasão.

Corina vivida por Aysha Nascimento, juntamente com suas outras duas vizinhas interpretadas por Marina Esteves e Martinha Soares fazem o tripé de sustentação da condução dramática da fábula. Elas funcionam um pouco também como o coro, além dos músicos em cena que reproduzem também essa idéia e, ainda a presença de alguns espectadores em cena que assistem ao espetáculo do palco, compondo a referência do coro grego.

Corina é uma espécie de Corifeu, aquele que se desprende do coro e tem o maior destaque, influência no grupo, uma líder. Aysha é de uma energia absurda em cena, sua dramaturgia corporal, suas intenções são claras e precisas, mas um pouco carregada na tinta na sua criação.

A Joana de Juçara Marçal, de voz doce e afinada, não consegue chegar ao ódio e na tessitura e costura de vingança que a personagem imprime na sua trajetória de heroína trágica. E como se Juçara não conseguisse chegar numa Joana grave, Juçara parece ficar somente no agudo. Faltou imprimir a força de Joana alimentada pelo ódio e a vingança. Sua atuação é contida demais, enquanto Aysha Nascimento com sua Corina é histriônica demais. Joana não propaga seu ódio, não o reverbera, nesse sentido, ela não chega ao grave ao dionisíaco. E a tragédia ela se avizinha do grave. O registro é o grave. Juçara imprime uma energia aguda, curta e pequena.

O Jasão de Jé Oliveira poderia cair no clichê do macho, sambista, malandro e viril, mas Jé consegue o aprofundar para além disso, e é possível preencher seu Jasão com elementos e atitudes que desestabilizam o clichê.

Ainda no núcleo dos oprimidos tem a persona de Egeu, líder de convicções políticas sólidas que perpassa pela justiça social e que mantém o embate com o clã de Creonte. O negro Egeu de Ícaro Oliveira, parece interpretar a sabedoria e fala do alto da plenitude dela.

O lado opressor resume no figura de pai e filha. Creonte e Alma.

Rodrigo Mercadante faz um Creonte convincente, repleto de referências da cena política nacional. Seu Creonte, nós poderíamos dizer que se avizinha do Abelardo de Armando Bógus em o Rei da Vela (1967) de Oswald de Andrade quando o assunto é lucrar e explorar, direção de Zé Celso.

Nessa Gota D`Água {preta} que já foi {Seca} em recente montagem musical, elas possuem em comum a capacidade extraordinária de refazer os gregos e colocar nossas referências sem descaracterizar os poetas trágicos.

Camilo Bonfanti (Lighting Design) e Júlio Dojcsar (cenografia) entendem a proposta afro-brasileira da encenação e criam uma dramaturgia cênica e de luz que acentuam o preto da Gota D´Água. Idéia percorrida pela direção incansavelmente.   

Se alguém precisa de uma justificativa para poder assistir a essa Gota D`Água, lá vai: o texto não envelheceu, a contemporaneidade dessa montagem reflete o momento atual brasileiro com críticas a todo o retrocesso que estamos sendo execrados.

Claramente durante o espetáculo, codificamos atitudes e declarações do Presidente do Brasil e tudo que seu governo maximiza, quando se trata de atos racistas, violência de diversos tipos contra pobres, sobretudo, a banalização das mesmas, sem falar das ações antidemocráticas. E por último, não podemos nos esquecer que precisamos enegrecer nossas referências.


CRÍTICA DE AYRES FILHO

Ator, Bacharel em Artes Cênicas com Habilitação em Teoria do Teatro e Preparador Corporal das Artes Cênicas.

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