CRÍTICA | The I-Land bebe de fontes diversas (tendo Lost como sua maior inspiração) para levantar questões de cunho psicológico, social e político

Contém spoilers!

O que você faria se a vida lhe desse uma nova chance para reparar seus erros e recomeçar de uma maneira diferente? Agarraria a oportunidade de se redimir ou provaria ser imune à mudança? 

Um assassino condenado à pena de morte pode encontrar o caminho de volta ou alguns atos são realmente irreversíveis? Existe salvação para quem está apenas a 39 passos da cadeira elétrica?

Esses são os principais questionamentos que The I-Land, minissérie da Netflix dividida em 7 episódios, levanta. 

A princípio, pode parecer uma imitação barata de Lost. Pessoas desconhecidas umas das outras (e nesse caso delas mesmas, pois perderam a memória e não lembram nem dos próprios nomes) acordam numa ilha deserta no meio do nada sem saber porquê estão ali e que lugar é aquele. 

O que soa ainda mais louco do que a série do J.J. Abrams, já que nela os personagens pelo menos sabiam suas origens e o que causou a chegada àquele local; o acidente de avião, Oceanic Airlines 815. Já em I-Land, absolutamente tudo é um mistério tanto pro público quanto para os próprios personagens. 

Só que como é uma minissérie curta, não tem o tempo como aliado para enrolar muito. O objetivo de tudo aquilo e o que está por trás fica claro logo no terceiro episódio, o que torna a explicação disso algo que nem pode ser considerado spoilers. 

Afinal, o propósito maior da série não é desvendar os segredos da ilha e nem descobrir o que aquelas pessoas escondem. É, na verdade, ver como elas reagem àquele experimento e saber se o que foi dito sobre aquilo tudo é de fato a realidade ou apenas mais uma mentira para encobrir a verdadeira motivação do projeto. 


A protagonista, Chase (Natalie Martinez), até questiona porque o governo investiria tanto dinheiro em algo só para reabilitar presidiários. Por que se importariam tanto? Qual lucro de fato teriam com isso? Diminuir a população carcerária e com isso, os gastos com ela? Mas só isso serviria de motivação para todo o trabalho envolvido para manter o experimento? O que mais tem por trás disso tudo? 

São muitas dúvidas que ficaram no ar e que se a Netflix não cancelar, vão ser respondidas na segunda temporada. Pela forma que o último episódio acaba, fica claro a necessidade de uma continuação. 

É interessante a justificativa que os acadêmicos dão para a pergunta de Chase. Eles se limitam a dizer que são só acadêmicos e, portanto, se preocupam somente em comprovar suas ideias. Não estão interessados no lucro, pois isso é de interesse dos empresários apenas. Mas será que realmente não se importam com a parte financeira do projeto? O discurso deles é totalmente confiável? Ou também estão mentindo de algum modo? 

Enquanto isso temos a figura do “bolsominion”, o típico tio do churrasco em versão texana, personificado através do diretor do presídio,Warden Wells (Bruce McGill). Por ser completamente contra o experimento por achar que os gastos com ele poderiam ser aplicados para colocar mais policiais na rua, prender mais pessoas e, protegê-los de ataques de criminosos, Wells faz de tudo para sabotar o projeto. Desde armar os participantes, colocar um canibal na ilha e tubarões no mar, até contratar agentes infiltrados para criar mais obstáculos e incentivar que todos se matem.

Quando mais rápido morrerem, melhor para o objetivo dele de pôr fim àquilo tudo e provar que presos condenados não têm salvação. Pra ele, bandido bom é bandido morto e fim de papo. 

Essa história de que todo mundo merece uma segunda chance e de que  mudando as circunstâncias pode encontrar a redenção, segundo ele, é discurso de um bando de nerd que não entende nada da parte prática da vida e acha que seres humanos são personagens de livros. 

Diretor do presídio e grande vilão da série, Warden Wells (Bruce McGill)


Apesar da ideia da série ser instigante, peca na escolha do elenco e no desenvolvimento dos personagens (com a exceção de K.C representada por Kate Bosworth e Chase representada por Natalie Martinez). Fica a dúvida se os atores que são fracos e sem carisma mesmo ou se os personagens que não tiveram o aprofundamento devido. 

Os flashbacks soam muito superficiais, não conseguindo criar um sentimento de empatia com os dramas de cada um como Lost fazia com tanta facilidade e genialidade. Talvez falte um pouco mais de inteligência emocional de todos os envolvidos na produção da série. Mas, ainda assim, não dá pra dizer que The I- Land seja ruim. Muito pelo contrário. 

Dizer que a série é arrogante ao ter a pretensão de ser um novo Lost é um pouco exagerado. Acredito que apesar da óbvia inspiração (e qual o problema nisso?), esse não era o objetivo de seus criadores. Até porque, Lost foi uma série com 6 temporadas e já na primeira temporada teve 25 episódios. Então, não tem nem como comparar com uma minissérie de apenas 7 episódios, né? 

Lost conseguiu aprofundar melhor tanto os personagens quanto os mistérios da ilha (e mesmo assim sem entregar tudo) porque teve tempo de sobra pra isso. Não precisou correr com as informações, pois podia desenvolvê-las cautelosamente, com muito mais tranquilidade, escolhendo o momento certo de revelar cada segredo. Só que em The I- Land essa opção, por motivos óbvios e já ditos aqui, não existe. 

Em contrapartida, a história de K.C (Kate Bosworth) é bem interessante ao trazer uma espécie de “Medeia” atual. Ou quem sabe de Joana da Gota d´água de Chico Buarque. A ruiva é uma mulher que cansada das agressões do marido, acaba traindo-o e pedindo o divórcio. Só que o marido não aceita e ameaça tirar a guarda dos filhos dela. 

Com isso, já dá pra imaginar o desfecho, que culmina em sua prisão e consequentemente, na sua participação no experimento da ilha. Ela e Chase dominam a série. Assistir as duas contracenando juntas consegue até mesmo compensar a falta de brilho do resto do elenco. O que é um dos pontos altos da série. 

Chase, por sua vez, é a única inocente dentre os participantes e a mais prejudicada por aquilo tudo. Perdeu 25 anos de sua vida por um crime que não cometeu e nada nem ninguém poderá compensá-la. Sem contar no fato de que todos já estão no corredor da morte e, portanto, ela iria para cadeira elétrica sem ter culpa de nada. Será que é uma crítica à pena de morte como um todo e especificamente, à quantidade de gente que é condenada inocentemente? 

K.C (Kate Bosworth) e Chase (Natalie Martinez)


The I-land pode não ser uma grande inovação. Afinal, mistura elementos de Lost, Persons Unknowns, Black Mirror e várias outras séries por aí. Porém, não parece que tenha tido a originalidade como um de seus princípios básicos. Talvez o objetivo seja mesmo beber de fontes diversas e no final criar uma “mistureba” que funcione. E realmente funciona. 

Só de ter a capacidade de prender o público, deixá-lo ansioso para o próximo episódio e, ainda despertar a reflexão sobre questões psicológicas, sociológicas, filosóficas, políticas, econômicas, dentre outras, mesmo que superficialmente (é importante repetir: são só sete episódios! Nada além disso.), já é motivo mais que suficiente para dar uma chance à The I-Land.


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