CRÍTICA | Godless

Scott Frank, criador de Godless, que em 2017 nos trouxe uma história de super-heróis como o Logan, gosta do estilo Western. O roteirista há muito queria essa história, mas não conseguiu encontrar o lugar para fazê-la até que Steven Soderbergh, como produtor, o recomendasse para converter sua ideia de um filme em uma minissérie. E assim terminou no Netflix.

Godless são sete episódios centrados no território do Novo México, na década de 1880. Seu cenário são as pequenas cidades no meio do nada, através das quais a ferrovia recém-inaugurada não passa. Povos em que os fazendeiros têm que cavar fundo para obter água em seus poços, onde vento e poeira se esgueiram em todos os lugares e sempre há homens sem escrúpulos que levarão o que quiserem. Protege a lei do revólver mais rapidamente.

Apesar da série mostrar um povoado com sua população de 97% de mulheres, o roteirista afirmou que sua intenção com Godless não era levantar a bandeira do feminismo como foi tentado publicitar:

“Eu não estava interessado em fazer um grande argumento feminista. Não sei se tenho o direito. O que eu queria fazer era focar em personagens cujas histórias nunca são ditas, e as mulheres são as principais. Minha matéria favorita é identidade e pessoas presas em vidas que nunca planejaram. A maioria dos personagens desta história se encaixa lá.”

Sua história gira em torno da rivalidade entre o lendário e sedento de sangue Frank Griffin (um ameaçador Jeff Daniels) e o atirador Roy Goode (Jack O’Connell), que o atrapalha. Os espectadores sabem que Godless terminará o confronto final entre eles, e que, no meio, os habitantes de La Belle acabarão arrastados, uma cidade mineira que perdeu todos os seus homens em um acidente.

Jeff Daniels empresta seu talento para dar vida a Frank Griffin, que como todo bom vilão, ou melhor, como todo bom antagonista, é um personagem intenso e parece ter um passado interessante, mesmo que não venha a ser trabalhado.

Sua autoridade sobre seus seguidores parece absoluta, e ele trata cada integrante de seu bando como família, adotando alguns deles desde pequenos, como é o caso de Roy Goode, que ao abandonar o bando faz com que Griffin se sinta terrivelmente traído e sai em uma perseguição sangrenta atrás de vingança.

Mas apesar dele ser apresentado como uma pessoa sanguinária, e ele realmente é, também nos é apresentado um lado humano desse vilão. O lado de adotar, cuidar e proteger, de ser capaz de ajudar pessoas ao redor, nos traz certa empatia e deixa o expectador na dúvida se ele deve morrer ou não no final.

Jack O’Connell é Roy Goode. Diferente do que se espera de um fora-da-lei, ele aparenta ser uma boa pessoa e em nenhum momento se torna agressivo com aqueles que o abrigaram, mesmo sem saber de sua identidade. Em certo momento, ele até mesmo pensa o que é melhor para eles, mesmo que para isso ele tenha que ir embora. Erra quem assiste aos primeiros episódios e tenta adivinhar o seu final. É justamente essas reviravoltas que fazem de Godless uma série diferente.

Scoot McNairy é quem interpreta o xerife Bill McNue de La Belle. O ineficaz comissário que se compromete com a luta numa compreensão frenética por um senso de propósito. Viúvo, que lentamente está perdendo sua visão, Bill é pouco mais do que uma piada para as mulheres, que o chamam de covarde. Mas McNairy impõe Bill com uma vulnerabilidade pungente, uma alternativa rara para o típico insurgente do western.  

Uma das melhores cenas da série retrata Bill e Griffin, que simplesmente continua em seu caminho, sabendo que Bill não representa uma ameaça e se recusa a conceder a ele a dignidade de se tornar um mártir. O final do personagem é longe de ser previsível.

Michelle Dockery (Downton Abbey e Anna Karenina), é Alice Fletcher e se destaca como a viúva que se reinventa, (e que assume um papel às vezes muito na linha do pistoleiro que pensa mais do que fala, estilo Clint Eastwood) a fazendeira que perde dois maridos e que vive separada do resto da cidade, tentando domar uma terra muito mais teimosa e selvagem do que os cavalos que vende. A história mais interessante de Godless está lá, no que poderia ser uma versão feminina de Deadwood.

Merritt Wever é Mary Agnes, a viúva que, após as mortes de quase todos os homens na cidade velha de La Belle, passa a usar calças, carregando uma arma, transforma-se em uma força arrogante e sensível da natureza, e que, no entanto, revela uma certa doçura e até timidez, sob seu exterior áspero. O elenco secundário é sólido, mas ninguém é mais eletrizante do que essa extraordinária personagem.

Essas mulheres tomam as rédeas de sua história, e quando os homens começam a aparecer dizendo praticamente que vão salvá-las, alguns cheiram a pecado. São as resolutivas da cidade, cujo xerife está perdendo a vista e representam os personagens que Scott Frank queria tanto retratar.

As viúvas, os homens da lei que ninguém leva a sério, os poucos afro-americanos que vivem no lugar. Eles são os protagonistas de Godless, e o antagonista que constrói a figura de Frank Griffin é bastante brutal (parece tirado da narrativa de Wyatt em Westworld)

Godless presta homenagem a alguns dos mais clássicos do gênero (a emboscada no desfiladeiro, os cavalos fugitivos, o estranho que chega na cidade e ganha a confiança de uma família) e, ao mesmo tempo, tenta oferecer outras tramas focando em histórias.

O que eu acho especialmente absorvente de Godless é como deixa espaço para todos os seus personagens, suas histórias e seus arcos emocionais, misturando o melhor do gênero com histórias incomuns sobre gênero, raça e fé, pois em um povoado basicamente só de mulheres, era de se esperar que os laços afetivos se estendessem para um romance onde o próprio gênero não se tornou uma barreira.

Onde só uma etnia reina e os negros são excluídos, porém não miseráveis e que constituem um povoado a parte de La Belle, sendo os únicos a quem Frank realmente vê como uma ameaça.

Godless torna seu mundo tão expansivo como as vastas planícies, lindamente filmadas em Santa Fe, embalado com belas paisagens infinitas e uma grande quantidade de personagens fascinantes. Com interpretações sólidas suas tramas diferentes criam um final que é não convencional, o que o torna satisfatório e faz a viagem valer a pena.

Eu amei a trilha sonora, Carlos Rafael Rivera, o produtor musical, foi muito feliz e teve a sensibilidade para pôr em canções os sentimentos não falados pelos personagens. É um show à parte.

Em pleno século XXI, podemos dizer que o Western não morreu!

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