CRÍTICA | How to Get Away with Murder: Após essa crítica você será capaz de decidir se vale a pena assistir ou não

A série nos traz um nome muito apreciado por alguns: Shonda Rhimes, criadora, produtora e roteirista de dois outros sucessos da rede ABC, “Grey’s Anatomy” e “Scandal”. Apesar de todo o prestígio que ela tem, por seus dramas humanos e humor sarcástico com personagens femininas bem desenhadas, especialmente na conquista de um espaço de grande destaque e projeção para mulheres negras, como vem sendo observado em Scandal e em HTGAWM, Grey’s Anatomy é um dramalhão demais para mim e não gosto de Rhymes, justamente por criar esses dramas sem necessidade. Mas respeito o público que gosta.

Personagens

Annalise Keating (Viola Davis) –  O grande trunfo da série fica por conta dessa personagem principal, a complexa professora que todo estudante de direito criminal quer ter, pois além de brilhante, ela também é perigosa, sexy e imprevisível. Destemida nos tribunais da mesma maneira que é nas salas de aula, Annalise gosta de desafios e de defender pessoas com o caráter duvidoso (como assassinos e corruptos), mas também esconde uma série de esqueletos no guarda roupa. Capaz de levar o público a um relacionamento de amor e ódio, de vibrar com cada conquista, preocupar-se a cada novo obstáculo e compadecer-se nos momentos de fraqueza. Com tudo isso ela consegue desconstruir alguns preconceitos que ainda impregnam a sociedade.

Em 2008, Viola conseguiu sua primeira indicação ao Oscar pelo filme “Dúvida”, no qual interpreta a mãe de um menino que pode ou não estar sendo vítima de abuso sexual por um padre e que prefere não saber para não colocar em risco a possibilidade de ascensão social, talvez a única que ele terá em toda a vida. Os poucos minutos em que aparece no longa foram o suficiente para que ela fosse indicada a mais de dez prêmios na categoria Melhor Atriz Coadjuvante, perdendo a maioria deles para Penélope Cruz e sua surtada Maria Elena do filme “Vicky Cristina Barcelona”. O feito se repetiu em 2011, pelo filme “The Help”, mas agora indicada à categoria de Melhor Atriz.

Viola Davis consegue alternar entre todas as sutilezas do roteiro e ir da mulher traída fragilizada à advogada que manipula com apenas um olhar, e para mim merece o Emmys tão somente pela cena em que ela, na primeira vez que tirou a peruca se mostra forte e vulnerável ao mesmo tempo com todo o poder de atuação dela.

Bonnie Winterbottom (Liza Weil) –  Desempenhando uma função semelhante à de uma secretária para Annalise, ela pode ter uma beleza angelical ou simpatia de Miss, mas ela não só reprime um amor não correspondido pelo seu colega de trabalho, Frank, como também possui uma ambição pronta para devorar quem estiver à sua frente. Ela é mais forte do que aparenta e sua lealdade é equivalente à de Frank.

Frank Delfino (Charlie Weber) – Mesmo vindo do interior e ainda carregando uma forte ligação com seu passado, que será revelado na quarta temporada, Frank é sempre leal à sua chefe Annalise, e além da lealdade, Delfino está sempre pronto para descobrir os podres deixados para trás dos clientes e também não tem problema de sujar às mãos mesmo que seja de sangue quando é necessário. É o leão-de-chácara da equipe e pela Annalise ele é capaz de se tornar um mero peão pronto a se sacrificar pela rainha.   Ele se envolve com Laurel, e o que parecia ser só sexo casual acaba se tornando algo mais.

Laurel Castillo (Karla Souza) – Laurel é daquelas jovens idealistas que entrou na faculdade de direito com o intuito de defender aqueles que não possuem condições de pagar uma boa defesa. Quieta e quase sempre passando despercebida, ela usa desse artifício para destacar-se quando menos se esperam dela. No entanto, possuindo muito talento, ela pode ser bastante obscura até mesmo para uma mestra em derrubar uma máscara como Annalise. Sua grande função na trama é fazer cara de boazinha sofredora em eterno conflito moral. Mas a personagem cresce ao longo das 3 temporadas e se torna parte importante da trama.

Michaela Pratt (Aja Naomi King) – Chamada de Prom Queen, Michaela é definitivamente a estudante que mais deseja impressionar Annalise Keating, ou melhor, que mais aspira se tornar a futura Annalise. Com isso podemos dizer que é extremamente ambiciosa, é sempre a primeira a levantar a mão para responder uma pergunta e está sempre pronta para resolver algum problema que vai impressionar todos ao seu redor. Melhor aluna da classe. Mas ela também tem um papel primordial de manter a equipe unida nos eventos turbulentos que impermeiam a série.

Asher Millstone (Matt McGorry) –  Parece a princípio que ele só está na equipe por “ser filho de alguém” e por sua ambição. O fato de Annalise saber de coisas sobre ele e seu passado que não só surpreenderão a todos, como também podem fazer de Asher uma importante aquisição, muda esse status.  Sua grande função na trama pode parecer que é ser o idiota que se acha importante, mas não se enganem, ele é muito, mas do que isso.

Connor Walsh (Jack Falahee) – Connor é definitivamente uma das pessoas mais inteligentes e ambiciosas tanto na sala de aula, quanto na equipe. Usando e abusando do seu sex appeal, Connor faz tudo o que pode para conseguir o que quer e também chegar na frente de Michaela, visto que ambos estão sempre em competição. Não importa o que for, ele sempre fará o que for necessário para conquistar a admiração de Annelise.  Sua grande função na trama é fazer cara de sexy e levar pessoas para o quarto, quer seja para conseguir prazer, quer seja para conseguir provas para algum processo. Ele é gay e faz par romântico com Oliver.

Wes Gibbins (Alfred Enoch) – Começa na Universidade de Middleton como um mero outsider, no entanto ele vai, aos poucos, conquistando não só a confiança de Annelise como também sua admiração. É idealista, mas já aprendeu os segredos sórdidos que rodeiam o sistema de justiça criminal e ele já possui certos conhecimentos sobre os segredos de Annelise, e por alguma razão misteriosa se torna o protegido da professora e, acaba fazendo valer a confiança dela. Talvez ele seja o personagem mais profundo entre os estagiários e tem a chance de desenvolver a personalidade. Eu sempre fiquei na dúvida se ele é uma pessoa articuladora em formação ou se está sendo manipulado por alguém.

Sam Keating (Tom Verica) – Marido de Annelise, Sam sempre foi o bom marido e que até o momento vinha tentando ter um filho com a sua esposa. O problema é que a brincadeira de casinha acaba quando Annelise descobre que Sam não era o homem que ela pensou que ele era. Porem, quem estiver sem pecado que atire a primeira pedra.

Nate Lahey (Billy Brown) – é um forte (lindo, gostoso, sexy,) e respeitado detetive da Filadélfia que trabalha incansavelmente para defender a lei.  Assertivo e afiado, Nate não permite que as pessoas joguem jogos com ele, a única exceção é Annalise. Como resultado, Nate é uma das únicas pessoas em que Annalize pode realmente ser ela mesma. Mas isso não significa que eles são inteiramente honestos um com o outro, longe disso, a cada trama a gente fica na dúvida se eles são um casal, se são parceiros ou se são inimigos.

Oliver Hampton (Conrad Ricamora) –  Oliver é um personagem recorrente durante as primeiras temporadas, e protagonista da quarta temporada. Sua capacidade de hacker faz com que Connor se aproxime dele para tirar vantagens em troca de sexo.  Uma pessoa sensível com um quê de ingenuidade e muito prestativo, acaba se envolvendo emocionalmente com o Connor e sua relação é um ponto fofo da série.

Crítica

Fazer uma boa crítica de 3 temporadas e não dar spoiler e uma missão quase que impossível, então eu vou trazer a crítica sobre outros ângulos. Falar sobre os assuntos abordados e que estão diretamente ligados a série, sem, contudo, ser sobre a trama em si, mas que para mim, foi e é o fator predominante para que essa séria seja uma das melhores séries que eu assisti do gênero.

Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a falta de debate dentro da série sobre temas que até hoje ainda causam estranhezas em algumas pessoas e que são tão abordados e recorrentes em cada episódio, como um tambor africano com seu batuque ritmado anunciando um novo dia! Então eu irei tratar desses temas aqui:

Precisamos falar sobre os negros que compõem essa serie (ou não)

Além da protagonista ser negra e de ter uma posição social elevada e respeitada, nós podemos ver em toda as 3 temporadas as inúmeras representatividades que mesclam os atores da trama. Eles são atendentes, policiais, promotores, alunos, chatos, bonitos, feios, sexy, gordos, magros, héteros, bissexuais, bons e ruins. Não há estereótipos, não há regras que os definam, e raras são as vezes em que na trama eles sejam menosprezados ou qualificados por sua cor.

Isso deveria ser a nossa realidade! Assim que a sociedade deveria ser. Não deveria causar estranheza a nenhuma pessoa a realidade de que os negros sejam pessoas tão inteligentes e capazes quanto qualquer um, e que acima de tudo eles podem e devem ocupar e participar de tudo o que quiserem.

Ainda temos na trama um casal formado por Michaela e Asher, ela negra, ele branco, e em momento nenhum o fator da cor da pele foi algo de ponto discriminatório. Se alguém esbanjou alguém foi ela em relação a ele.

A série é futurista por tratar esse assunto de uma forma tão natural, porque é algo natural e nenhum conceito preconceituoso pode determinar que não o seja.

Viola Davis foi a primeira mulher negra a vencer o principal prêmio feminino do Emmy Awards, o de melhor atriz em série dramática. Uma conquista histórica e que demonstra finalmente o início de uma mudança na maneira como as mulheres – especialmente as mulheres negras – são vistas pela indústria do cinema e o reconhecimento ao talento destas profissionais.

 Em seu discurso Viola Davis citou a ativista abolicionista Harriet Tubman, dizendo :

Na minha mente, eu vejo uma linha. E sobre essa linha eu vejo campos verdes e flores lindas e belas mulheres brancas com seus braços esticados para fora sobre essa linha. Mas eu não consigo chegar lá, não sei porque. Eu não consigo superar essa linha. Isso era Harriet Tubman em 1800”.  

A única coisa que separa as mulheres de cor de qualquer outra pessoa é oportunidade. Você não pode ganhar um Emmy por papéis que simplesmente não existem” e agradeceu às “pessoas que redefiniram o que significa ser bonito, ser sexy, ser uma mulher protagonista, ser negra”.

Que isso seja uma regra e não uma exceção, que possamos assistir series em que o debate racial seja apenas uma questão de história e não uma realidade atual.

Estamos em uma constante luta pelos direitos humanos, pelas classes minoritárias, pela igualdade entre as pessoas e pela valorização da vida, pelos direitos de gêneros, pela aceitação dos imigrantes, no entanto, nós podemos ao mesmo tempo perceber a incoerência de haver violência em excesso e pouco respeito pelas pessoas.

Precisamos falar de relacionamentos homoafetivos (ou não)

O tema também tão presente no enredo é tratado da mesma maneira que o tema racial, com a normalidade que lhe é devido.

A série, mostra que é possível viver e conviver em num mundo onde as relações homoafetivas podem ser vistas com os mesmos olhos com que qualquer relação heterossexual seja vista.

O personagem de Connor Walsh, interpretado por Jack Falahee, que é apresentado como um personagem marcante e divertido, junto com Oliver Hampton interpretado por Conrad Ricamora, tem sua homossexualidade tratada de forma natural. As cenas de sexo como as mostradas na série não são nada impressionantes. Mas, sem elas, faltaria um pouco de realidade, afinal o exercício da sexualidade é um elemento comum na vida adulta. A direção faz toda a diferença e consegue extrair erotismo mesmo sem nudez explícita.

 Não há ameaças de perda de emprego, de ter que esconder sentimentos, de ter que viver uma relação escondida e marginalizada.  O que me faz questionar o porquê que isso não acontece no mundo real. O que nos falta?

Precisamos falar de depressão (ou não)

Outro tema dessa série é a depressão e seus efeitos avassaladores na vida de personagens protagonistas ou não.

Refletindo exatamente um dos grandes problemas enfrentados pela humanidade. E a depressão acontece de forma tão drástica no mundo atual que percebemos tratar-se de algo inevitável, consequência de todo o egoísmo vivido pelas pessoas, com suas preocupações fúteis e rotineiras, deixando de prestar atenção nas pessoas próximas e relegando-as às suas próprias frustrações. É o caso do personagem Wes Gibbins, vivido por Alfred Enoch, que vive momentos terríveis.

Vemos também em Annalise os traços depressivos que a empurram para uma autodestruição através do alcoolismo. Sim, ela é alcoólatra e é a forma que ela lida com a depressão.  A depressão existe e não podemos fechar nossos olhos para isso, porém, diferente dos outros temas, a depressão precisa ser falada e debatida, as pessoas à sua volta precisam de apoio e de uma mão estendida.

Conclusão

Como podem ver How to Get Away with Murder é muito mais do que uma serie sobre advogados e seus termos jurídicos.  Se o público não prestar atenção com certeza se sentirá perdido nas infindas tramas que cercam cada um dos pupilos da brilhante advogada, e para quem se limita a somente assistir as séries mais “simples” quando pega uma série com um raciocínio um pouco mais lógico e difícil fica realmente duro de acompanhar. Na classificação deveria vir ‘para quem tem QI de mediano pra alto’, então arrisque-se se for capaz.

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