CRÍTICA TEATRAL | Os Impostores

INFORMAÇÕES

Local: Teatro SESC Ginástico. Av. Graça Aranha, 187, Centro, Rio de Janeiro.
( próximo à estação Carioca do metrô)
Estreia Nacional: 31 de outubro de 2019.
Temporada: de 31 de outubro a 1º de dezembro. Quintas, sextas e sábados, às 19h, e domingos, às 18h. 
Ingresso: R$ 7,50 (habilitados SESC), R$ 15,00 (estudantes e idosos) e R$ 30,00 (inteira).
Funcionamento da Bilheteria: terça a domingo, das 13h às 20h.
Telefone da Bilheteria: (21) 2279-4027
Capacidade de Público: 513 lugares
Classificação Etária: 16 anos

O Bunker Nosso De Cada Um

Quanto a gente carrega de cova oca e vazia dentro e fora de nós? Talvez essa seja a pergunta que norteia a reflexão do espetáculo Os Impostores que está em cartaz no Teatro SESC Ginástico até dia 01 de dezembro. O espetáculo tem como norte uma dramaturgia de criação coletiva e com o texto final de Gustavo Pinheiro e Rodrigo Portella que também assina a encenação do espetáculo.

Os Impostores têm um DNA de um texto clássico famoso de um escritor francês chamado Molière, intitulado Tartufo. Digamos que a espinha dorsal do espetáculo em questão seja a mesma apontada desse clássico francês do século XVII (1664) quando a falsa fé e a exploração dela são elementos desencadeadores de distorções no tecido social.

 O texto sobreviveu e não envelheceu, portanto hoje, essas pseudo pessoas que se intitulam “homens de bem” merecem todo nosso cuidado, porque eles levam a provocação de crimes de diversas naturezas, sobretudo, quando um indivíduo se coloca como aproveitador, desonesto e aliciador de mentiras e assim ganham a cena.

A peça parte de uma situação ficcional hipotética, quando seis personagens de uma família passam a viver num refúgio no Rio de janeiro. Não se pode precisar exatamente há quanto tempo aquelas pessoas encontram-se lá debaixo da terra, numa espécie de bunker, na perspectiva de sobreviverem a uma hecatombe supostamente ocorrida e que inundara todo o Brasil e o mundo, de maneira que se desfiguraram e se reconfiguraram a distribuição geográfica do país, tamanha tragédia.

Nesse contexto, uma família rica à custa da exploração da classe trabalhadora desse país, vivia ou sobreviviam numa mega estrutura arquitetônica que os garantiam oxigênio, alimento e suprimento por tempo indeterminado, uma vez que se acreditava não haver sobreviventes na superfície.

Até que chega ao bunker, um sobrevivente, um hóspede, um falso cristão que em nome de Deus, comete verdadeiras abominações. Ele vem vestido com roupa de mergulho – ou seja, outra vida conseguiu adentrar aquele lugar depois da catástrofe que se abateu – e, trazendo com ele, informações do mundo lá de fora, talvez fakes news, que iriam piorar e muito as relações humanas naquele confinamento, haja vista que chega o maior dos impostores em relação aos outros membros da família, que de alguma forma carregavam uma “máscara” que não condizia com a verdadeira personalidade de cada um, colocando-os assim também como impostores.

Mas o estrangeiro que chega era um algoz, um aproveitador dos buracos da alma e do vazio do coração das pessoas. Um estrategista e elaborador de um plano diabólico que costura todo o desenvolvimento dramático da peça na persona de um falso cristão.

O jovem diretor Rodrigo Portella que nos últimos anos vem de dois grandes sucessos teatrais, tanto de crítica quanto de público, com prêmios inclusive por Tom na Fazenda e mais recentemente viajando pelo Brasil, As Crianças, ao que tudo indica, até o final de 2019, o diretor colecionará mais um trabalho bem sucedido já que a direção de Os Impostores é uma maestria.

Com um elenco formado por Carolina Pismel, Guilherme Piva. Murilo Sampaio, Pri Helena, Suzana Nascimento e Tairone Vale, todos muito afinados, mandam muito bem enquanto grupo a serviço de uma harmonia interpretativa, coesa e dentro da construção do drama que cada personagem carrega. Destaque para Guilherme Piva que faz o hóspede e que chega ao bunker e para a personagem da babá, que conhece bem os podres de toda a família.

Com um texto inteligente, ácido e coloquial, as coisas ditas sempre possuem uma leitura, uma interpretação além do que está sendo dito, abrindo espaço para reflexões bem filosóficas.

A luz de Os Impostores de Ana Luzia de Simoni tem um “Q” de sinistro como toda a situação dada na peça. Ela também parece esconder para depois evidenciar. A luz meio que se aproveita para ludibriar.

O figurino de Tiago Ribeiro parece que os colocam prontos para partir para algum lugar, pode ser para uma festa, pode ser para sair dali, pode ser para a morte, pode ser para um jantar, para uma tragédia rave que todos vivem, sem a presença da verdadeira luz e também da luz do sol.

O espetáculo não deixa o espectador parar de pensar em nenhum minuto: uma vez que vivemos uma Hecatombe, haverá uma saída? Haverá uma saída para tudo isso que estamos vivendo hoje?

Para os autores parece que sim, já que no final, a filha moça tenta se aventurar partindo do bunker ironicamente pela porta dos fundos do palco assumidamente escrito: EXIT / SAÍDA. Isso após cometer um massacre, quando no auge do suportável, num ataque de fúria, a personagem dá vazão ao seu lado “Coringa”.

A jovem que só fazia estudar naquele lugar, vislumbrava uma forma de sair e salvar a humanidade numa ação parecida com a de Noé da Arca bíblica, e defendia: se alguém chegou até aqui é porque, então, tem uma saída. Oremos, pois há uma saída!


CRÍTICA DE AYRES FILHO

Ator, Bacharel em Artes Cênicas com Habilitação em Teoria do Teatro e Preparador Corporal das Artes Cênicas.

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