O Sertão de volta à cena (Parte 1)

Esta será a primeira parte da série, que contará com 3 capítulos, sobre o sertão nordestino.

O enredo que gira em torno do sertão nunca esteve tão em alta como nos últimos meses. O motivo: Bacurau. O filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles traz questões ambientadas numa vila sertaneja ficcional e conta com a famosa dinâmica de faroeste. Aqui, importamos este conceito e o transformamos no ‘’nordestern’’, o famoso bang-bang brasileiro. Bacurau conta, também, com algumas referências ao próprio cinema nacional, em especial o Cinema Novo. 

Contudo, Bacurau não é exatamente a razão que me faz escrever este texto, mas, sim, a dita primeira ‘’trindade’’ da produção cinemanovista, composta por Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963), Os Fuzis (Ruy Guerra, 1963) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964), onde a imagem realista do Nordeste brasileiro está no eixo do certame.

Embora o movimento tenha surgido na década de 50, as produções cinematográficas nacionais apresentaram mudanças significativas a partir dos anos 60, advinda de um exercício de autocrítica dos cineastas. A inclinação político-ideológica foi alçada ao cerne do debate e os diretores buscaram descortinar conflitos sociais de maneira mais pujante. 

Dito isso, daremos o ponta pé inicial com a obra cinematográfica homônima ao livro de Graciliano Ramos. 

Vidas Secas é uma adaptação dirigida por Nelson Pereira dos Santos, que nos mostra Fabiano (Átila Iório), Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), seus filhos e baleia, a cachorrinha, em uma batalha permanente contra a seca e a hostilidade imposta a eles, fosse direta ou indiretamente através das oligarquias locais e do Estado.

Podemos inferir a alegoria em torno das personagens, pois nos revela a desigualdade que o povo está submetido e marginalizado pela miséria. Ao longo do filme, a família busca um trabalho que dê a mínima condição necessária para que possam ter onde comer e morar. 

O filme possui diálogos bem escassos e rápidos, trilha sonora inquietante, pois praticamente não há. Nelson buscou o som do sertão, além dos longos planos. A escassez pode ser entendida pela animalização do ser humano, pois Fabiano, em dado momento, se considera um bicho. 

‘’Você é um bicho, Fabiano!’’

É o retrato do sertão sendo fielmente sequenciado para gerar incômodo ao público. 

Os longos planos podem ser entendidos como um recorte temporal, de como o tempo passa mais devagar na árida região em que tentam (sobre)viver. Para isso, Fabiano consegue arranjar um trabalho como vaqueiro, todavia é explorado pelo patrão, Dono das terras. O fazendeiro resolve à sua maneira como remunerá-lo. Como supracitado, não só a oligarquia o oprime, o Estado também. Fabiano foi impedido de vender sua carne, pois não pagou o imposto necessário para o fiscal. 

A situação de inferioridade de Fabiano também é evidenciada quando há o confronto com o personagem Soldado Amarelo. O Soldado Amarelo é o símbolo do autoritarismo e repressão. Tal definição fica explícita no momento em que ele pisa no pé de Fabiano, propositalmente, que lhe dá um empurrão bradando ‘’fio duma égua!’’. Tão logo o oficial dá um silvo para chamar seus outros comparsas, que momentos depois o levam para prisão e o agridem. Posteriormente, Fabiano se depara com o soldado, no meio do mato. Munido de um facão, Fabiano hesita, e o soldado com medo, sozinho, nada faz desta vez.

A obra também nos apresenta Sinhá Vitória, que é quem toma as decisões, na maioria dos casos. Sinhá sonha em ter uma cama de couro. A personagem externa isso repetidas vezes no decorrer do filme. Em uma das cenas, seu filho mais velho, que tem certa obsessão em saber o que é o inferno, faz a pergunta à ela, após ter feito para seu pai e o mesmo ter ficado quieto. Sinhá responde que é o lugar para onde vão os condenados, cheio de fogueira e espeto quente.

O filho torna a perguntar: “cê já foi lá?”. Sinhá, completamente descontente com a pergunta de seu filho, dá-lhe um tapa na cabeça esbravejando ‘’capeta insolente! Ora já se viu?’’. Neste recorte fica claro o senso comum em que Sinhá está inserida, onde reproduz um discurso dogmático religioso, onde o inferno representa algo ruim, e que apenas pessoas de caráter pútrido estão lá.

Retomando a ideia de que há uma animalização do personagem Fabiano, na contramão disso há um juízo de que a cachorrinha, Baleia, é plasmada em um conceito de antropomorfização. Baleia é, de fato, o quinto membro da família. É tratada como o terceiro filho de Sinhá.

Nos créditos de apresentação do filme, o nome da personagem aparece logo após o nome dos atores que representaram Fabiano e Sinhá Vitória. Além de outras passagens que deixa explícita tal afirmação. Infelizmente, Baleia sucumbe à seca e Sinhá Vitória e Fabiano decidem matá-la, pois está muito fraca e não aguentaria rumar para o desconhecido, mais uma vez. Diferentemente da morte do papagaio, que a família matou para que servisse de alimento.

Penso que Nelson Pereira dos Santos retratou bem a luta dos personagens retirantes e a crueldade em que estão submetidos, nos mostrando o conflito entre os interesses da classe mais oprimida e da burguesia. O Cinema Novo promoveu a ruptura com certos padrões cinematográficos estadunidenses, sendo importante na compreensão do cenário vivido naquela década e no engendramento e fomento de uma cinematografia nacional.

Curiosidades

  • Vidas Secas ganhou o Prêmio de Melhor Filme de Arte e Ensaio no Festival de Cannes, em 1964.
  • O lugar escolhido para realizar as gravações do filme foi o povoado de Minador do Negrão, distrito de Palmeira dos Índios, localizado no interior de Alagoas. 
  • Nelson utilizou-se, basicamente, de atores ‘’não profissionais’’ para a formação do elenco. O orçamento era baixo. 
  • A cena em que Baleia é morta por Fabiano, gerou confusão após a exibição em Cannes. Muitas pessoas pensaram que a cachorrinha foi morta em cena. Dado o rebuliço, Baleia foi enviada à França para que o alvoroço cessasse, porém não acreditaram muito.

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