Capas de discos de rock desenhadas por quadrinistas

Não é novidade que diferentes formas de arte se comunicam desde os tempos mais primitivos. Mesmo quando da época anterior ao surgimento dos sapiens, já se desenvolvia a pintura rupestre, que servia como registro da vida em comunidade das sociedades pré-históricas. Esse tipo de pintura ilustrava outra forma de arte, na concepção mais arcaica da palavra, cujo significado é “técnica” (do latim ars): tratava-se da arte (técnica) de fazer o fogo, da arte de criar ferramentas úteis ao cotidiano, entre outros elementos.

No que se refere a períodos mais recentes, é possível notar esse intercâmbio artístico em uma série de outras manifestações: música e poesia se fundem na elaboração de um bom álbum, cinema e fotografia caminham lado a lado na produção de um filme inesquecível, etc. Assim, seguindo tal tendência, nesta postagem vou listar quatro álbuns de rock cujas capas foram desenhadas e planejadas por artistas consagrados de histórias em quadrinhos. Acha que quadrinhos e música não têm nada a ver? Têm tudo a ver e mais um pouco. Confira.

1. Surfing with the alien, Joe Satriani

Um dos discos mais celebrados do guitarrista Joe Satriani, Surfing with the alien traz na capa um dos personagens mais interessantes do universo Marvel dos quadrinhos: o Surfista Prateado, com um traço bastante semelhante ao desenvolvido por Jack Kirby. 

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Criação do mestre Stan Lee e do próprio Kirby, o Surfista é um ser intrigante, e as histórias em que ele aparece como protagonista são recheadas de questionamentos filosóficos e sociais a respeito da humanidade. Exemplo de história em que se pode notar tais camadas é Parábola, de 1988, escrita por Stan Lee e desenhada por Moebius, um gênio da ficção científica francesa. No enredo, Galactus, uma entidade poderosíssima que precisa sugar a energia vital de planetas para continuar vivo, quer “se alimentar” da Terra, mas é impedido pelo Surfista Prateado.

Em entrevista, Joe Satriani comenta que nem sequer conhecia o personagem da Marvel Comics e que a ideia de colocá-lo na capa foi de profissionais ligados à produção do álbum. Recentemente, como o custo de licenciamento da imagem do Surfista Prateado aumentou bastante, foi lançada uma edição de luxo do disco que, em vez do personagem, traz na capa parte de uma guitarra elétrica. 

2. Brasil, Ratos de Porão

Os quadrinhos underground se desenvolveram no Brasil por intermédio de dois expoentes principais, embora haja outros: Angeli e Marcatti. O primeiro se notabilizou pela criação da revista Chiclete com Banana, em 1985, na qual apareceram pela primeira vez os notáveis Bob Cuspe e Rê Bordosa, talvez os personagens mais queridos do cartunista. Já Marcatti, cujo desenho tem influências perceptíveis de Robert Crumb, o maior quadrinista underground dos EUA,  tem como um de seus personagens mais marcantes o Frauzio, protagonista de histórias carregadas de humor ácido, incômodo e despudorado. Além disso, Marcatti foi o responsável pela criação da capa do disco Brasil, do Ratos de Porão, lançado em 1989.

No desenho da capa (que traz uma crítica bastante contemporânea, apesar da data de lançamento), vê-se um sujeito babando, quase estupidificado,  dentro de um campo de futebol, enquanto do lado de fora percebem-se cenas de truculência policial, roubalheira de políticos, entre outras mazelas sociais.ratos-de-porao-brasil-digipack-cdO jogo de cores é bastante ímpar e tem uma simbologia interessante: a imagem do rapaz no campo de futebol, em primeiro plano, está bem colorida, o que atrai de imediato a atenção do espectador. Já os problemas sociais ocorridos do lado de fora dos gramados foram retratados em cores mais amenas, como preto, cinza e tons de azul. Numa análise livre, isso pode indicar que a diversão (futebol) fica bem visível a todos, enquanto fazem de tudo para esconder os reais problemas do povo brasileiro.

3. Cheap thrills, Big Brother & Holding Company

Com capa desenhada por Robert Crumb, artista citado anteriormente, Cheap thrills é um dos álbuns mais marcantes da história do rock, visto que tem como vocalista nada menos que Janis Joplin, que era amiga pessoal de Crumb. 

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A capa do álbum é um mosaico de vários quadrinhos, todos muito bem coloridos, dos quais alguns trazem os integrantes da banda. O lettering “Cheap thrills” emula muito bem os títulos de histórias em quadrinhos, e no topo, à esquerda, é possível notar o selo da Columbia imitando o selo do Comics Code Authority, uma regulamentação que começou a valer para as HQs em meados dos anos 1950, a partir do lançamento da obra A sedução dos inocentes, do psiquiatra Fredric Wertham. 

No livro, que é uma verdadeira declaração de ódio aos comics, são listados diversos males que os quadrinhos causavam na juventude da época; assim, para serem legalmente publicadas, as histórias da Marvel e da DC Comics deveriam ter estampado em suas capas o selo do código, o que indicava que não havia nada que pudesse “corromper a juventude” nos enredos.

4. Jardim elétrico, Os Mutantes

Uma das bandas brasileiras mais viscerais e inventivas surgidas nos anos 1960, Os Mutantes são um grupo que se inspirou bastante no rock and roll britânico da mesma época e no rock progressivo que nasceu quase uma década depois. Jardim elétrico, de 1971, foi um dos últimos álbuns a contar com Rita Lee na formação, o que permitiu à banda um direcionamento musical mais diferenciado a partir de então. A capa, repleta da psicodelia e das cores do período, foi feita pelo ilustrador francês Alain Voss, que também foi responsável pela arte de Mutantes e seus cometas no país do baurets, lançado em 1972.

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Voss foi um artista bastante prolífico, tendo em vista que trabalhou com personagens bastante conhecidos dos pulps, a exemplo do detetive Spirit. Toda a sua arte é repleta de cores, personagens bastante oníricos e psicodelia. Também se uniu, no Brasil, a artistas como Angeli e Laerte; ademais, foi vencedor do troféu HQ Mix, uma premiação importante para profissionais ligados aos quadrinhos no Brasil, no ano de 1989. O curioso é que ele venceu esse prêmio na categoria de melhor desenhista nacional, embora fosse francês.

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