2019: os quadrinhos no banco dos réus

Falta pouco para o encerramento de 2019, um ano certamente estranho se considerarmos aspectos políticos, sociais e ideológicos. Ano passado já era possível prever em partes o que nos aguardava no apagar das luzes de 2018: com a eleição de Jair Bolsonaro, tomou vulto um conservadorismo tosco, bobo e injustificado, que mais parece atravancar o progresso do que permitir melhorias ao país.

A cultura pop, de modo geral, esteve na mira de parcela da população conservadora brasileira; de episódios polêmicos envolvendo a personagem Capitã Marvel nos cinemas a acontecimentos de censura no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, não foram poucas as ocasiões em que a arte cumpriu seu papel contestador e incômodo – e pagou seu preço por isso. Neste post, quero abordar especialmente a relação dos quadrinhos com a política e de que maneira o mencionado conservadorismo afetou essa mídia ao longo de 2019.

Eu participo de dois grandes grupos de colecionadores e leitores de quadrinhos no Facebook: o 2quadrinhos, que na verdade é uma extensão do canal no YouTube de mesmo nome, e o Colecionadores de HQs. No primeiro, há muito mais discussões políticas e sociais advindas de determinadas histórias que alguém está lendo no momento, enquanto no segundo os aspectos do colecionismo e da louvação de grandes autores são bastante celebrados. Em ambos, ao longo do ano, foi possível constatar falas como estas: “Não mete política nos meus quadrinhos!“; “Essas histórias começaram a desandar quando começaram a ‘lacrar'”; “Forçação desnecessária de lacração”; “Nas histórias oficiais dos Eternos não tem surdo, agora querem enfiar um surdo no filme dos Eternos só pra lacrar”; entre outras.

Ora, estão querendo destituir os quadrinhos de um elemento que sempre esteve presente nas histórias desde sua gênese: a política. Adoro uma frase de Art Spiegelman em que ele diz o seguinte: “Eu também tive que aprender, mais uma vez, que tudo é política. Assim como o Capitão América socando Hitler no queixo”.

images (3)Capa de Captain America #1, na qual Steve Rogers nocauteia Adolf Hitler; uma amostra da relação entre política e histórias em quadrinhos

Spiegelman é uma das maiores autoridades no universo dos quadrinhos, tendo em vista que sua obra máxima, Maus (1986), conquistou um Pulitzer, em 1991, e continua influenciando gerações de leitores até hoje. Maus é o maior relato já feito sobre o Holocausto, tratando-se de relatos de Vladek Spiegelman, pai do autor que foi mandado para Auschwitz. Em cada quadro, lemos e vemos muitos horrores a que os judeus eram submetidos durante a Segunda Guerra. Na história, portanto, quadrinhos e política não poderiam andar desarticulados.

Art Spiegelman, inclusive, foi censurado recentemente, pois teceu duras críticas ao presidente Donald Trump, em um texto que seria a introdução de uma publicação especial da Marvel (Marvel: the golden age 1939-1949); Spiegelman associou Trump ao principal inimigo do Capitão América, o Caveira Vermelha, alcunhando o presidente norte-americano de “Caveira Laranja que assombra a América”. Foi pedido a Spiegelman que suprimisse tal associação, o que foi imediatamente recusado pelo autor.

Assim, a Marvel vetou o texto introdutório de Spiegelman, ficando a tarefa a cargo de Roy Thomas, um dos mais importantes editores da Marvel Comics. Depois disso, o autor descobriu que o atual presidente da Marvel Entertainment, Isaac Perlmutter, é amigo pessoal e apoiador do presidente Trump, para quem teria doado aproximadamente US$ 360 mil a fim de auxiliar a campanha presidencial de reeleição em 2020.

Um panorama básico da relação quadrinhos-política no Brasil

Não é necessário continuar indo tão longe para nos darmos conta de que a associação entre quadrinhos e política sempre se fez presente. Durante o Segundo Reinado no Brasil, Angelo Agostini, artista italiano radicado no país, foi um dos principais críticos do Império, e o meio pelo qual ele expressava suas opiniões e sátiras era a Revista Illustrada, publicação que sempre registrava notícias e cartuns cômicos a respeito de algum tópico da política nacional.

images (1) (1)Capa de uma das edições da Revista Illustrada, criada por Angelo Agostini

Algumas das questões mais sensíveis para Agostini eram a abolição da escravatura, a crítica a situações envolvendo moléstias, a exemplo da febre amarela, e o jogo de interesses entre lideranças políticas e grandes elites, enquanto o povo menos abastado padecia em virtude da “cegueira seletiva” desses líderes.

Pouco mais de um século depois do Segundo Reinado, a crítica por meio de quadrinhos e charges ainda era um dos melhores caminhos para atingir a massa da população brasileira. Em 1985, já quase no fim da ditadura militar, surgiu em São Paulo a revista Chiclete com banana, capitaneada pelo cartunista paulista Angeli, mas que recebia colaboração de outros artistas, como Glauco e Laerte Coutinho.

Nas publicações da Chiclete com banana, se consolidaram os personagens mais importantes da carreira de Angeli, entre eles Bob Cuspe, Rê Bordosa, Wood & Stock e Os skrotinhos. Se a função de todos eles é questionar e confrontar certos valores tradicionais e até mesmo morais do povo brasileiro, especialmente no que tange à política, à religião e ao sexo, bem… tal objetivo foi logrado com muito êxito.

IMG_20191225_131938498Uma antologia da Chiclete com banana; box reúne as dez primeiras edições da revista, em ordem cronológica de publicação

Embora pareça, a princípio, que o cartunista quer apenas chocar o leitor, trazendo imagens de mulheres nuas, sexo explícito e de órgãos genitais masculinos que ocupam quase metade de uma página, há um delineamento político-social muito forte nos cartuns, principalmente nas publicações em que Bob Cuspe é protagonista. Cuspe é um punk revoltado com o sistema, que sempre surge dos encanamentos de esgoto na casa de pessoas comuns, para alertá-las de que a sociedade precisa, de alguma forma, acordar e perceber as grandes merdas que os poderosos estão fazendo no controle do país. Angeli é fortemente influenciado pelos quadrinhos underground norte-americanos, dos quais o maior pilar é o cartunista Robert Crumb.

images (2)“Chiclete é civismo”, uma das charges de Angeli para a Chiclete com banana, que está publicada na coletânea Seis mãos bobas, da editora Devir

Nem só de política brasileira vive o cartunista. Angeli publicou, em 2013, a coletânea O lixo da história, que na verdade é um agrupamento de uma série de charges publicadas pelo autor na Folha de S.Paulo. Na obra, há duras críticas ao governo Bush e aos seus mandos e desmandos, como o Patriot Act e os combates (muitos deles supostamente forjados) aos terroristas no Iraque e em outros países islâmicos, o que acabou vitimando centenas e milhares de inocentes. Fez-se, em O lixo da história, um recorte temporal bastante abrangente, que vai do início dos anos 2000, passando pela queda das Torres Gêmeas, até a chegada de Barack Obama à presidência, em 2010. Criticam-se, ainda, o american way of life e o imperialismo norte-americano em territórios do Oriente Médio.

images (4)Capa de O lixo da história, publicado em 2013 pelo selo de quadrinhos da Companhia das Letras

Vamos viajar novamente no tempo e desembarcar em 2019, que já está arrumando as malas e se preparando para dar adeus. Em setembro deste ano, haveria, no Rio Grande do Sul, uma exposição de cartuns de nome “O riso é risco” cujos autores são cartunistas de diferentes partes do país, boa parte gaúcha. A principal temática das obras expostas são críticas ao governo de Jair Bolsonaro em seu primeiro ano de mandato, que tem sido absolutamente insatisfatório na visão de alguns artistas. Contudo, a exposição foi censurada a partir de uma ordem da presidente da Câmara dos Vereadores, Mônica Leal, do antigo partido ao qual era filiado Bolsonaro (Partido Progressista). Tal ordem se justificaria porque, segundo Mônica, “são charges ofensivas com o presidente Bolsonaro“.

15676258985d7012aad7ee3_1567625898_3x2_md Charge censurada do cartunista Latuff que ilustra a subserviência de Jair Bolsonaro aos pensamentos e a ideologias deturpadas propagadas por Donald Trump

Felizmente, após a determinação de Mônica Leal, a exposição “O riso é risco” pôde funcionar normalmente, já que a liminar que impedia o evento de ocorrer foi derrubada pela 3ª Vara da Fazenda Pública. Além de Latuff, outros autores que expuseram seus cartuns foram Alexandre Beck, criador do personagem Armandinho, bastante recorrente nas redes sociais, e Celso Schröder.

O Facebook como meio de divulgação

Nas redes sociais ocorreu situação semelhante. A página Cartunfólio, que sempre publica críticas sociais ao governo Bolsonaro, em algum momento deste ano foi denunciada por usuários adeptos dos pensamentos bolsonaristas. Assim, passou a não ser mais possível o compartilhamento de charges nem que se comentasse em postagens antigas, já que tal conteúdo vai de encontro às políticas da rede. Zandré, o autor dos cartuns da página, precisou criar um novo perfil para que seus seguidores pudessem continuar acompanhando e compartilhando as publicações semanais.

CartunfólioCharge envolvendo Jair Bolsonaro e Donald Trump, por Zandré

Voltando para os comics, já foi comentado aqui no Cultura eZAUtada que a Maurício de Sousa Produções tem um selo já bastante longevo de graphic novels, cujo objetivo é resgatar os adultos de hoje que liam Turma da Mônica na infância, nas palavras de Sidney Gusman (editor da MSP). Uma das obras mais importantes já lançadas por esse selo é Jeremias: pele, com roteiro de Rafael Calça e desenhos de Jefferson Costa.

Jeremias peleCapa de Jeremias: pele, por Jefferson Costa

No quadrinho, o leitor acompanha a primeira vez em que o garoto Jeremias, o protagonista, sofre racismo em sua vida, além de notar como o personagem faz para se reerguer de situações desrespeitosas e constrangedoras em razão da cor de sua pele. Como se não bastasse a importância temática da obra, Jeremias: pele foi vencedor do Prêmio Jabuti, na categoria de melhor história em quadrinhos nacional, em 2019. Sucesso de público e crítica, Jeremias: pele é quadrinho obrigatório na prateleira de todo bom leitor.

Quadrinhos sem política: é possível?

Bem; possível é, mas nunca será um paradigma. Falamos do Capitão América anteriormente; nem mesmo ele, que sempre foi visto como um escoteirinho que representa os valores e ideais da América, se isentou de questões políticas e sociais em suas histórias. Durante algum tempo, inclusive, o personagem abandonou o manto de Capitão América para se tornar o Nômade, pois ele já não compartilhava dos ideais propagados pelas principais lideranças norte-americanas.

Tentei mostrar, neste texto, que a nona arte nunca se isentou de tomar partido. Assim, é no mínimo espantoso que leitores de longa data, que muitas vezes acompanharam as transformações sociais mencionadas, clamem por tal apolitismo. Infelizmente existem muitos que optam pela ignorância, em vez de buscarem aprender e conhecer a forma como os quadrinhos se posicionaram em variados períodos da História. Dizer que tudo não passa de “lacração” é uma ofensa aos artistas e às pessoas que, de alguma maneira, se sentem representadas nessas histórias, em que cada vez mais são vistas minorias em posição de destaque.

Por fim, é sempre válido dizer o seguinte: todos têm opção de comprar ou não aquilo que lhe agrada; ninguém é forçado a adquirir certos itens. Por isso, ações como a proposta por Marcelo Crivella na Bienal do Livro do Rio, em que se buscou retirar de venda a história da Marvel A cruzada das crianças (em que havia um beijo entre dois rapazes), são inadmissíveis. Também inadmissível é o argumento segundo o qual “queremos apenas proteger nossas crianças”; como qualquer produto da cultura, há quadrinhos para todas as faixas etárias; ninguém daria algo do Milo Manara para uma criança de 12 anos ler. Assim, a censura não é cabível sob nenhum aspecto. O leitor pode até não gostar da abordagem política de algumas HQs, mas ela sempre estará lá, goste ele ou não.

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