Crítica | O Caso Richard Jewell: Duas visões sobre o mesmo filme

Clint Eastwood nos apresenta um novo herói

Richard Jewell é um rapaz simples que almeja se tornar oficial de Justiça. Ao conseguir um emprego como guarda, durante as olimpíadas, Richard descobre que uma bomba foi plantada no evento e, graças ao seu alerta, acaba por salvar a vida de diversas pessoas, assim, se tornando herói nacional. E é essa a história que Clint Eastwood dirige em “O Caso Richard Jewell“, que estreou recentemente nos cinemas brasileiros.

Por mais que a história seja clichê, Clint consegue deixar sua marca na direção e torna o filme sofisticado e com cara de premiações. A narrativa do policial sem jeito que ninguém leva a sério já está batida, porém, nesse caso, vemos pontos interessantes sendo abordados, fazendo com que o público fique preso até o fim do filme.

A corrupção dentro da corporação que deveria defender o povo, a perseguição da mídia e seu poder de destruição são tratados de forma cautelosa e coesa, não tirando o holofote de seu foco principal.

O sucesso técnico dele pode ser atribuido ao seu elenco e produção de peso, que contam com Jonah Hill, Leonardo DiCaprio, Olivia Wilde, Jon Hamm e com o brilhante Sam Rockwell, que se destaca do início ao fim.

Sam Rockwell tem nos entregado, ano após ano, papéis brilhantes e a crítica já criou um certo apreço pelo ator. Indicado ao oscar por dois anos consecutivos e saindo vencedor em 2018, por Três Anúncios Para Um Crime, Sam rouba nossa atenção, torna o filme fluido e tira o ar mainstream do longa.

Precisamos reconhecer que o O Caso Richard Jewell tem suas qualidades, e são muitas, e merece ser lembrando como uma boa obra e não como um telefilme clichê.

POR CLARICE SOUSA

O caso Richard Jewell: o servilismo, as autoridades e as relações de poder

 No final da década de 80, Richard Jewell (Paul Walter Hauser) é um homem pacato, que aos 33 anos vive com a mãe e profissionalmente ainda não se realizou. Como boy do almoxarifado numa grande empresa ele é o proativo que conhece as necessidades do chefe e advogado Watson Bryant (Sam Rockwell) e se apresenta como o empregado humilde e gentil sob o véu do servilismo. É por personificação o típico conservador com cara de loser que acredita na filosofia do certo x errado. 

Num primeiro encontro Jewell confidencia ao chefe o seu desejo em servir o país como policial e o advogado o aconselha a nunca se tornar um grande idiota porque “o poder modifica as pessoas”. Ocorre ali um conceito de reflexão identitária entre personas, de modo que Watson observa a grandeza da própria arrogância a partir da submissão gratuita do seu funcionário.

E de fato o tema do filme é sobre poder, principalmenfe, aquele exercido pela mídia e pelas autoridades. Mas a contextualização é a grande mola da engrenagem do filme, por ser necessária, ela traz um carácter modular de composição de sentidos, a fim de finalmente falar do atentado e de como Richard Jewell se torna a roldana e a engrenagem de um sistema maior. 

O ápice da narrativa, o atentado ao Parque Olímpico Centenário (Centennial Park) ocorrido nos Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta, Geórgia, transforma Jewell na figura do herói da pátria. Entretanto, o mesmo evento que o ascende como herói, também é usado para destruir a imagem do bom moço. A explosão mata duas pessoas e ela seria maior se Jewell não tivesse insistido na sua suspeita e agido no momento certo, ainda que ninguém acreditasse nele.

Nas décadas em que a narrativa transcorre (80 e 90) os tempos são de desconfiança em que até o herói passa a ser o inimigo e as autoridades valendo-se de mecanismos democráticos para serem autoritárias, é que definem quem é quem. São tempos de democracia frágil, em que países democráticos ainda respiram ares ditatoriais ou que propositalmente os ares democráticos são usados em favor de ações corruptas.

Jewell sai do locus de mito para o de inimigo graças às investidas do FBI, que na falta de um suspeito real e para justificar a própria falha estabelece Jewell como único e principal suspeito; em paralelo, uma jornalista disposta a conseguir seu furo de reportagem, Kathy Scruggs (Olívia Wilde), publica a investigação do FBI confirmando Jewell como alvo de suspeita.

A mídia torna como verdadeiro o que antes era verossímel ou até improvável. Ao longo da trama, a jornalista vai publicando matérias que vão moldando a formação imaginária da população sobre a persona de Jewell. E é pelo discurso usado na mídia que o segurança antes visto como o salvador vai sendo identificado como “terrorista solitário”, “homem branco, frustrado”, “herói terrorista”, “gordo criado pela mãe”.

Concepções e perspectivas sociais são sempre delineadas primeiramente através do discurso usado por autoridades e a Mídia exerce esse papel alinhando a sua atuação à perseguição do FBI sobre Jewell e sua família.

O próprio filme aponta como os verdadeiros culpados a mídia e o governo dos Estados Unidos, por meio do advogado de Jewell, que adota como uma das estratégias de defesa a realização de um discurso em coletiva.

Quando o advogado afirma ser a mídia e o governo os grandes responsáveis pela reviravolta do caso, tanto por formalizarem de modo corrupto, como para criarem o suspeito, ele representa o próprio personagem, bem como, estabelece um gatilho de comunicação entre o autor e o público, identificando os culpados.

É nesse discurso que se altera a perspectiva do enredo da história, porque é a partir dele que Jewell e o público vislumbram a possibilidade de que ele saia ileso das acusações.

POR YASMING PEREIRA

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