Star Wars: o requentar da força

Não se preocupe; você não leu errado e não há erro vocabular no título deste texto. Tampouco a postagem versará unicamente a respeito de O despertar da força, tendo em vista que o trocadilho se baseia no título do sétimo filme da franquia Star Wars. Também não haverá uma crítica/resenha de A ascensão Skywalker, embora haja alguns spoilers da trama. Mas então do que trata este bendito post!?

Eu sei que Star Wars é a saga favorita de muitos fãs e nerds, ainda que quem tenha acompanhado os primeiros filmes lá pelos idos de 1977 torça o nariz para a nova abordagem que marca a trilogia mais recente, assim como as histórias paralelas (Rogue One Han Solo). Contudo, melhor que uma boa estória per si é que ela tenha um bom começo, um bom meio e um final digno, que satisfaça a quem a está assistindo.

O fato de a Disney ter assumido Star Wars e uma série de outras franquias, a exemplo dos Vingadores, abre margem a uma pegada bem mais comercial e vendável, cujo intuito, muitas vezes, parece ser apenas usar os filmes como trampolim ou isca para a compra de variados produtos licenciados, como action figures, pôsteres, camisetas, edições de luxo em blu-ray e DVD, entre outros itens, o que deixa a receita da produtora ainda mais gorda.

star-wars-galactic-outpost-1440x640O interior da Star Wars Galatic Outpost, a loja oficial de Star Wars em Orlando (EUA)

Quando o fator “lucro puro e simples” assume as rédeas da produção de determinada obra, não importa, necessariamente, como o enredo vai se construir, desde que isso gere bastante receita no fim das contas.

A troca de diretores na última trilogia de Star Wars ilustra bem isso; em O despertar da força (2015), o diretor J. J. Abrams assumiu uma direção para a franquia; já no filme seguinte (Os últimos Jedi, de 2019), Rian Johnson adotou uma nova abordagem, que não combinava com o enredo do longa anterior nem com o restante da saga, que já tem mais de 40 anos. Isso acabou gerando muitas críticas por parte do público; talvez ninguém nunca tenha pensado em Luke Skywalker tratando um sabre de luz com desprezo, a não ser Johnson. Em A ascensão Skywalker, contudo, dirigido novamente por Abrams, há uma cena em que Ray basicamente faria a mesma coisa, jogando seu sabre no fogo, mas surge o fantasma do “herege” Luke e o pega antes que a arma jedi entre em contato com as chamas. Seria uma forma de reparar o erro inserido no filme anterior, mas outro erro ainda permanece: o de continuidade da trama, que será exposto mais adiante.

Quem lucra com a saga, além da Disney?

Apesar desses problemas, a nova trilogia de Star Wars rendeu bastante lucro especialmente para lojas nerds e de brinquedos, com vendas dos personagens BB-8, Finn, Ray, do capacete e do sabre de luz do Kylo Ren, entre outros. No caso do BB-8, há uma versão do brinquedo que pode ser manipulada por controle remoto, emulando movimentos bastante semelhantes aos do filme, o que agrada tanto as crianças quanto os adultos que colecionam itens de seus filmes prediletos. Isso tudo sem contar os preços absurdos cobrados por redes de cinema em todo o país, em produtos como baldes de pipoca e copos personalizados com a temática dos filmes.

Um dado interessante: na CCXP 2019, havia um stand de uma grande rede de cinemas vendendo basicamente todos os produtos personalizados referentes a blockbusters lançados ano passado, todos com mais de 50% de desconto sobre o preço de bombonière; certamente há quem compre a fim de viver ao máximo a experiência do cinema, mas esse dado mostra que nem todo mundo está disposto a pagar caro por um monte de plástico.

bb8BB-8, o droide mais fofo e efetivo da nova trilogia Star Wars

Além disso, parece ter faltado um showrunner para alinhar com todos os envolvidos na franquia os caminhos que deveriam ser percorridos a fim de que a história não apresentasse contradições ou mesmo furos; os filmes da Marvel conseguiram se sustentar porque Kevin Feige, o presidente do Marvel Studios, sempre alinhou com toda a equipe criativa dos filmes de que maneira o arco principal deveria se desenvolver. Obviamente nem todos os longas do MCU são impecáveis, mas todos apontam para uma mesma direção, que culminou em Vingadores: Ultimato, embora o último filme da Fase 3 seja Homem-Aranha: longe de casa.

Os reais problemas da nova trilogia

Toda essa questão envolvendo Star Wars fica pior quando notamos certos recursos pouco originais e que jogam no seguro quanto aos filmes. Em A ascensão Skywalker, há uma cena ao final que é exatamente um repeteco das frases ditas pelo Thanos e pelo Homem de Ferro ao fim de Ultimato, ainda que sejam adaptadas à realidade de Star Wars. Trata-se do momento em que Thanos se prepara para estalar os dedos na manopla, dizendo “Eu sou inevitável“, ao que é respondido por Stark, que diz “E eu sou o Homem de Ferro“, retomando a fala que termina o primeiro filme do herói; após dizer a frase e já de posse das jóias do infinito, Stark estala os dedos e faz com que Thanos e seu exército virem poeira.

No confronto final de A ascensão Skywalker, o Imperador Palpatine (que se sabe lá como e por que voltou) diz para Ray que é todos os Sith, e Ray responde que é todos os Jedi. Assim, a cena (piegas à beça) se encerra basicamente da mesma forma em relação a Ultimato, com a vitória dos Rebeldes contra o Império; nenhuma novidade.

memeMeme que satiriza o confronto final entre Palpatine e Ray em A ascensão Skywalker

fan service enquanto solução

Outro dos recursos pouco originais que marcaram a nova trilogia Star Wars é a atuação dos personagens da saga clássica (filmes IV, V e VI), muitas vezes como elemento que serve apenas com fan service para “dar um gás” num enredo que não prende tanto. Entenda, o fan service em si não é problemático; muito pelo contrário, trata-se de um elemento bacana dentro da narrativa, que evoca boas memórias dos espectadores no que diz respeito a personagens antigos e mesmo no que tange à própria história de outros filmes.

A ascensão Skywalker, a meu ver, foi o longa da nova trilogia que mais usou o fan service como meio para sustentar um filme que está longe de ser espetacular. Há a cena em que Lando aparece para salvar os heróis, que estão em busca de Exegol. Já ao fim, Lando surge novamente para salvar o dia, com uma frota gigantesca de Rebeldes que dão suporte contra os destróieres do Império, numa cena absolutamente previsível na qual Poe Dameron se lamenta em razão da desvantagem bélica de suas tropas, dizendo não saber mais o que fazer e basicamente deixando seus companheiros desamparados ante a poderosa frota imperial. Novamente digo: previsível; mesmo quem não entende muito da franquia saberia que, em se tratando de um filme de encerramento, o mal não poderia vencer.

O próprio fato de Palpatine ser o vilão do último filme é um fan service, mas que saiu meio pela culatra. Não foram poucos os espectadores que saíram das sessões com pontos de interrogação enormes na cabeça, tentando decifrar como e quando o personagem voltou da morte. Muitos enxergaram essa “ressurreição” (vamos considerar que Palpatine estava morto, certo?) como um furo de roteiro, não necessariamente do filme (aliás, é bom que se diga, A ascensão Skywalker tem roteiro bem amarrado, a despeito de ser apressado em alguns momentos), mas da saga. Entende agora a importância do showrunner?

O futuro

O grande questionamento após o fim da nova trilogia é este: o que será de Star Wars? É possível que inventem outra trilogia que dê continuidade à saga? Bem, possível é, mas não creio que a Disney deva explorar isso tão cedo nos cinemas. É sempre importante lembrar, entretanto, que o universo expandido de Star Wars é, se não o maior, um dos maiores da cultura pop; são dezenas de livros, séries animadas, games e histórias em quadrinhos que são cânone em relação aos filmes da franquia. Esta publicação do Omelete ajuda bastante quem quer entender todo o universo expandido e dá dicas a partir das quais se pode entendê-lo de modo aprofundado.

livros starAlguns títulos que integram o gigantesco universo expandido de Star Wars

Além disso, foi lançada, no fim de 2019, a série The Mandalorian, que está integrada ao universo da franquia. Sucesso de público e crítica, justamente por não ter a responsabilidade de angariar milhões em bilheteria – o que possibilita o desenvolvimento de um enredo mais original –, The Mandalorian é uma das primeiras grandes apostas do Disney+, serviço de streaming da Disney que veio para bater de frente com outras duas gigantes do mercado, a Netflix e a Amazon Prime.

Assim, é evidente que não faltam materiais que sirvam de inspiração à Disney para o desenvolvimento de novos filmes. Minha questão é: isso é realmente necessário?

No meu ponto de vista, falta às produtoras e às equipes criativas a sensibilidade para entender que certas franquias e obras precisam descansar. Veja, por exemplo, De volta para o futuro; a trilogia, dirigida por Robert Zemeckis, nunca foi revirada de seu baú e continua sendo uma das favoritas de quem adora ficção científica. Quase todos se lembram dos filmes como muito divertidos e marcantes em seu tempo, havendo pouquíssimas pessoas que o criticam com veemência. Parece que alguém teve a sabedoria e o entendimento de que uma boa obra, com início, meio e fim, não precisa ser remexida, readaptada ou readequada aos novos tempos.

Pouca originalidade

É incômodo dizer que as coisas boas dessa nova abordagem de Star Wars são, na verdade, respingos do que já se encontrava nos clássicos de George Lucas, e é aqui que o título deste post se justifica. Quando eu falo em “requentar”, me refiro ao uso da mesma trilha sonora de John Williams, dos efeitos visuais que se remetem àqueles empregados na trilogia clássica, quando os recursos tecnológicos eram bem limitados se comparados aos de hoje, e, novamente, ao uso de personagens desta trilogia nos filmes mais recentes. As batalhas intergaláticas de A ascensão Skywalker são basicamente uma versão revisitada de Uma nova esperança (Episódio IV); o efeito hologramático por meio do qual Luke visita Ray é bastante semelhante ao que ocorre no já mencionado Episódio V, em que Obi-Wan Kenobi aparece a Luke para lhe dar dicas.

Conclusão

Em suma, parece que Star Wars está, hoje, preocupado em atender a uma demanda que não diz respeito necessariamente aos filmes da franquia, mas aos produtos licenciados relacionados que inflam as receitas da Disney. Os filmes da trilogia clássica e os prequels (episódios I, II e III) são bem mais sérios, com roteiro muito bem pensado e sem compromisso de ser um blockbuster que atingisse a toda a massa de espectadores. Seria bom dar um descanso, descontinuando uma sequência que quase se perdeu no meio do caminho. Os fãs não ficarão órfãos; há, como foi dito antes, todos os filmes anteriores e todo o universo expandido da franquia, que é absolutamente canônico. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s