Crítica | Considerações sobre a segunda temporada de You: Estamos diante de um novo Dexter?

Desde a primeira temporada de You os fãs de Dexter já podiam notar semelhanças entre o analista forense Dexter Morgan (Michael Hall) e Joe Goldberg (Penn Badgley). Ambos são capazes de matar, escondem “troféus” de suas vítimas (Dexter guardava amostras de sangue delas atrás do ar condicionado na parede e Joe coleciona objetos pessoais das mulheres com quem se relaciona), são educados e simpáticos – apesar de um ar de estranheza que apenas os mais perceptíveis conseguem notar – fazendo com que passem despercebidos perante a sociedade, além das duas séries usarem recursos iguais, como, por exemplo, colocá-los como narradores, mostrar seus pensamentos (o que é interessante, pois mostra o contraste entre o que eles estão falando, pensando e sentindo, nos fazendo entender melhor suas mentes e emoções) e trazer personagens que já morreram para assombrá-los (Dexter imaginava o pai e o irmão lhe dando orientações, tecendo críticas e conselhos, e Joe revê Becky na segunda temporada).

A diferença é que enquanto Dexter se enxergava como um monstro e se punia o tempo todo, Joe não tinha essa consciência, se vendo até como um herói apaixonado, pronto para salvar as mulheres por quem ficava obcecado (pelo menos até o final da segunda temporada. O que indica que ele está se aproximando cada vez mais do personagem do Michael Hall).

Além disso, Dexter seguia o código de Harry, uma espécie de adestramento de assassinos, matando só criminosos. Ao contrário de Joe que mata inocentes caso estejam atrapalhando seus objetivos. Contudo, na segunda temporada, Joe faz o que Dexter fazia ao matar Henderson (Chris d`Elia), um pervertido sexual, para vingar Delilah (Carmela Zumbado) e proteger Ellie (Jenna Ortega). Assim, o aproximando também da figura do justiceiro e podendo levantar futuramente o mesmo questionamento que Dexter incitava tão bem. O protagonista é um monstro ou um justiceiro? Ou seriam ambos?

Aí entra outro ponto, ou melhor, outra semelhança com Dexter. A mesma estratégia de humanização utilizada em Dexter também é vista em You, tanto na primeira temporada quanto na segunda; o instinto paternal e proteção do protagonista anti-herói por crianças e adolescentes. Dexter nutria esse sentimento por seus enteados, filhos de Rita (Julia Benz). E Joe é assim na primeira temporada com Paco (Luca Padovan), um menino que apanhava do padrasto da mesma forma que ele também era agredido por seu pai quando criança, criando uma identificação entre os dois. E na segunda temporada com Ellie, a irmã adolescente e esperta de Delilah. 

Dexter (Michael Hall) e Joe (Penn Badgley)

Nessa temporada, Joe sai de Nova York para fugir de Candace, sua ex namorada que planeja vingança, indo para Los Angeles. Ao chegar lá, promete para si mesmo que vai fugir do amor e acaba se interessando justamente por uma mulher chamada Love (ironias da vida). Logo, ela vira seu novo alvo de obsessão.

Love (Victoria Pedretti) e Joe (Penn Badgley) na segunda temporada da série

Assim como Joe, Love (Victoria Pedretti) também é uma pessoa que carrega segredos do passado nas costas. Viúva, ainda está tentando se curar da dor da perda, quando conhece Joe, que assume a identidade de Will. Herdeira de uma família rica e poderosa, onde todos são problemáticos, ela se coloca no papel de mãe de seu irmão gêmeo Forty (James Scully); um garoto mimado, infantil, irresponsável e viciado em drogas. Ao contrário de Love que precisa se manter forte o tempo todo para protegê-lo, Forty é a fragilidade em pessoa. 

Diferente de Beck (Elisabeth Lail), uma menina desprovida de recursos, desprotegida, influenciável e insegura, que justamente por isso precisava andar com a elite a fim de se apoiar nela com o objetivo de conquistar status social e se sentir poderosa (apesar de não ter nada a ver com essas pessoas), Love não necessita de nada disso. Afinal, ela já nasceu com o poder nas mãos, sendo capaz de usar o dinheiro da família para perseguir, manipular e até esconder segredos tanto dela quanto de quem deseja proteger. 

Beck (Elisabeth Lail) e Joe (Penn Badgley) na primeira temporada da série

Por isso, podemos fazer a óbvia comparação entre o círculo de amigos de Beck e o de Love. Enquanto Beck, como já foi dito, se cerca de pessoas fúteis, superficiais, riquinhas, esnobes, “vazias”, preconceituosas e enrustidas como forma de ascensão social; Love anda com as ditas minorias, tem amigos homossexuais, negros, gordo, etc… Numa analogia bem atual diríamos que Beck anda com o grupo da direita e Love com o grupo da esquerda, mais ou menos isso. E é claro que nem precisa ser dito que Joe se identifica e se sente muito mais aceito pelos amigos de Love do que se sentia pelos de Beck. Além dessa questão social, a tribo de Love é mais eclética, alternativa, profunda (bem mais) e intelectual. São cultos e “excluídos sociais” assim como Joe. 

Outro aspecto interessante de notar sobre o diferencial das duas e o quanto isso afeta a postura de Joe em relação à elas é o fato de que enquanto Beck ainda é uma GAROTA insegura, imatura, vulnerável, indecisa, meio volúvel sentimentalmente, “bobinha” em alguns aspectos, Love já é uma MULHER que tem certeza do que quer, segura de si e de suas escolhas e até controladora de certa maneira. Beck quer alguém que a proteja e Love é aquela que protege. 

Só que Joe gosta exatamente do perfil de mulheres à la Beck, pois assim ele consegue dominar e se sentir no poder com mais facilidade. Até porque, como podemos ver na primeira temporada e nesta segunda ainda mais, Joe é um cara que sempre foi abusado. Desde a infância até a vida adulta sempre tinha alguém controlando ele (a mãe, o pai, o dono da livraria, e por aí vai) e por causa disso, ele deseja tanto ter o controle sobre os outros (não só sobre as mulheres com quem se envolve, mas também sobre as pessoas próximas à elas). Quando alguém é muito rebaixado, na maioria das vezes, acaba ficando obcecado por inverter esse papel se transformando naquele com poder de comando. 

E é aí que entra a questão da idealização romântica, muito forte nesse personagem. Love estava ali o tempo. A verdadeira Love. Bem diante de seus olhos e ele não notava. Becky até podia ser aquilo mesmo que ele enxergava, mas Love não. Ela nunca foi aquela pessoa ingênua, que perdeu o marido recentemente e precisava de alguém para consolá-la. Era sensível sim. Inteligente e carente de atenção também. Porém, não era a princesinha que precisa ser salva pelo príncipe Joe. Muito pelo contrário. Era ela que queria salvá-lo o tempo todo. Love não é daquelas que pode ser controlada, pois quem controla é ela.  Love nunca foi e jamais será Beck (apesar de também ter suas fragilidades) e justamente nesse ponto que Joe se enganou. 

Sua mãe dizia que sua filha é a única da família que suporta o peso da verdade. Mas será que Joe suporta a verdade dela? Ou descobrir que dessa vez está de volta à posição do dominado vai assustá-lo? Ao cair a máscara de ambos, o amor dele por ela resistirá provando ser verdadeiro ou ficará claro que nunca foi amor, mas sim uma obsessão e um desejo doentio de ter um alvo em seu controle? Joe gostava de Love de fato ou apenas da imagem que criou dela? Ao perceber que agora ele que é o perseguido seus sentimentos permanecerão os mesmos

Será essa a verdadeira vingança que Candance ( Ambyr Childers)desejava pra ele? Torná-lo tão vítima quanto ela para que ele possa sentir na pele o que suas vítimas sentem? No fundo, ela só queria colocá-lo no lugar dela?

Candance Stone (Ambyr Childers), ex namorada de Joe

Essa temporada acertou em cheio ao trazer personagens que sofreram algum tipo de abuso (seja físico ou emocional), levantando reflexões sobre esse assunto e suas causas. Joe e Love foram violentados fisicamente, Delilah moralmente e Forty sexualmente. Existe um elo entre esses personagens criando um sentimento de empatia e identificação sutil entre eles, ainda que eles próprios não percebam. Isso foi feito de forma bem discreta e esperta pela série. O roteiro e direção soube trabalhar essa questão de forma bem sensível. Parabéns para Greg Berlanti e Sera Gamble! 

A série mantém o ritmo acelerado da primeira, sempre trazendo novos conflitos e colocando Joe em situações de risco constantes causando tensão no público a todo momento como se o personagem estivesse sempre à beira de ser pego e só não é por mera sorte do destino.

Apesar de ser uma série dramática, tem muito humor nela, principalmente pelas enrascadas que Joe se mete e por suas narrações (nesse ponto lembra muito Dexter também). O humor de You é aquele ácido, sarcástico, irônico, debochado, tragicômico. A gente ri das desgraças alheias e Joe ri de si mesmo junto com a gente.

É uma série que independente das críticas sobre ela (a respeito do perigo do público criar empatia e se solidarizar com um personagem como Joe, torcendo por ele e vendo-o como alguém carismático), consegue prender qualquer um do início ao fim. Os episódios terminam de forma que te instigam a não parar de ver e como só tem 10 episódios em cada temporada, dá para maratonar rapidinho. 

A qualidade da série não caiu (na verdade, só aumentou) com o lançamento da segunda temporada, diferente de muitas séries que não conseguem manter o padrão da primeira, piorando a cada estreia. Mais peças do quebra-cabeça do passado de Joe nos é revelado, mostrando que You tem realmente potencial para ser um novo Dexter.


Obs: É importante deixar claro que essa crítica não tem como objetivo amenizar o caráter criminoso do protagonista, porém não é o foco dessa análise. Estamos tratando de uma série de ficção e a arte é livre para criar da forma que lhe convém. Sabemos que Joe é uma pessoa com uma série de transtornos psicológicos; alguém abusivo, stalker, capaz de matar e principalmente, alguém perigoso não só para os outros como também para si mesmo. Só que o propósito dessa crítica é ir além disso. 

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