Crítica | Sex Education – 2ª temporada: a série da Netflix continua bem-sucedida com sua proposta de desenvolver temas complexos de forma engraçada, autêntica e sensível

Nesta nova temporada, Sex Education nos surpreende com uma Moordale em um aparente surto de clamídia, ao passo em que os dois amigos principais – Otis e Eric – têm de lidar com o retorno de Maeve e de Adam, respectivamente, em meio aos seus recentes relacionamentos. O que mais se destaca nos novos episódios é a jornada de autodescoberta pela qual passa a maioria dos personagens, dentre os quais alguns merecem destaque por terem sido melhor aprofundados quando comparados à temporada anterior. São eles: Adam Groff, Maureen Groff e Jackson Marchetti.

Com Adam, podemos notar os efeitos menos explícitos da masculinidade tóxica, como dificuldade de se expressar e de desenvolver relacionamentos sinceros. A expressão – ou a falta dela – que a todo momento vemos no rosto do ator transparece o quão solitária e sem propósito é a vida do personagem, que, além de não conseguir se comunicar com seus pais e com seu interesse amoroso, não consegue se dedicar inteiramente a coisa alguma, e acaba decepcionando os outros, e, especialmente, a si mesmo. A amizade e o relacionamento com Eric o encorajam a aceitar a sua sexualidade e a exteriorizar o que sente, por mais que a relação romântica dos dois se mostre, de certa forma, problemática – assunto a ser comentado mais adiante.

No que diz respeito a Maureen, a jornada em busca do autoconhecimento e da liberdade pela qual passa a mãe de Adam é belíssima de se acompanhar. Aqui, a série dá um passo arriscado ao atribuir um arco grande e importante para uma personagem que, até então, era secundária; contudo, desde as primeiras cenas dela na temporada, nas conversas com Jean – e, principalmente, com a metáfora do batom -, somos sensibilizados com a sua situação. Nasce, então, uma inesperada afinidade entre a terapeuta – a qual também recebe um espaço maior – e Maureen, que, além de cenas cômicas das duas na boate, nos fornece uma importante lição sobre a sexualidade na terceira idade.

Nesta temporada, também podemos compreender melhor a dinâmica familiar de Jackson, as expectativas que as mães colocam no garoto e os efeitos disso na sua saúde mental. Novamente, a produção da Netflix aborda de maneira delicada questões sobre ansiedade e automutilação, à medida em que revela o novo rumo tomado por Jackson, o qual, aos poucos,   demonstra-se mais confiante e destemido. Nesse processo, é essencial a participação de Viv, nova personagem cuja inteligência, generosidade e falta de habilidade no amor a unirão a Jackson, criando uma amizade que servirá como pilar para a autoestima de ambos. 

Outros temas também desenvolvidos de forma magistral são o assédio sexual sofrido por Aimee, que causa traumas na estudante, – nisto, destaca-se o quão crucial foi Maeve ter convencido a amiga a denunciar, a sororidade das outras meninas e o papel de Steve, namorado de Aimee, ao respeitar os limites da parceira frente à situação – e o vício em drogas da mãe de Maeve, Erin, que coloca a garota em uma difícil posição. No entanto, dois pontos parecem mal expostos.

O primeiro é referente à perda da virgindade de Otis. Filho de uma terapeuta sexual, que, a princípio, não consegue se masturbar e demonstra ansiedade quando o assunto é transar com a namorada, Otis cria uma conjuntura, no mínimo, inusitada e que coloca expectativas no público acerca de sua primeira vez; todavia, somos surpreendidos com somente uma cena de dele e de Ruby acordando pela manhã, além dele próprio não se lembrar de absolutamente nenhum detalhe do que aconteceu na noite devido à embriaguez. Talvez, a série tenha pretendido discutir a imprevisibilidade da primeira transa, porém, em razão do contexto, pode resultar na frustração da audiência. 

O segundo ponto é concernente à relação entre Adam e Eric, conforme mencionado. O problema da temporada passada permanece na segunda, uma vez que Eric parece disposto a ignorar os comentários de Otis sobre Adam o ter agredido fisicamente e psicologicamente por anos. Tendo em vista o efeito de Eric em Adam e o desejo deste último de mudar, uma opção melhor teria sido os dois terem permanecido apenas amigos, de modo que Adam, aos poucos, conseguiria desconstruir comportamentos tóxicos e Eric não teria que se envolver romanticamente com seu agressor, o que pode submetê-lo a um relacionamento abusivo. 

Por fim, a segunda temporada de Sex Education consegue superar a qualidade da primeira, à proporção que explora de forma mais profunda uma quantidade significativa de núcleos num tempo relativamente pequeno. As personagens, interpretadas excepcionalmente, mantém-se carismáticas, permitindo que todo tipo de público se identifique com suas indagações e espere ansiosamente pela próxima temporada.

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