Análise de “Galho seco”, de Guilherme Petreca

Olá! É, sei que fiquei umas duas semanas ausente aqui do blog, mas estou de volta para indicar uma HQ maravilhosa e bastante sensível. Eu falo de Galho seco, do ilustrador brasileiro Guilherme Petreca.

A despeito de sua idade (29 anos), Petreca já tem uma vasta e diversificada obra; de histórias em quadrinhos a criação de imagens para livros, o autor já ganhou dois prêmios importantes do ramo de quadrinhos: o Troféu HQ Mix por seu Ye, lançado em 2017, e o japonês Manga Award pela mesma obra, em meados de janeiro deste ano.

Galho seco, lançado em 2013, é o primeiro quadrinho de Guilherme Petreca, lançado de modo independente. No formato de fanzine, embora com um acabamento muito bacana em papel couché, a HQ traz um contraste muito marcante entre cor e sombra, branco e preto. Os detalhes ficam por conta das expressões dos personagens, tão marcantes no decorrer da obra.

01Capa de Galho seco

Toda a história começa ambientada em uma rua simples e bastante movimentada, em que as pessoas caminham, cada uma em sua direção, sem que esbarrem umas nas outras. Como um jogo de câmera, tão frequente no universo do cinema, Petreca tira o foco do macro para evidenciar o rosto do personagem principal, que olha para o chão, especificamente para um pedaço de galho, ignorado pelos transeuntes retratados. O mesmo recurso é usado no terceiro quadro, desta vez para imergir o leitor no olhar do personagem; flagram-se os pés dele e o galho no chão. Em seguida, o protagonista se apossa do galho, olha-o com atenção e o toma por um violino (conforme featured image deste post).

A partir disso, o que vem é uma viagem ao onírico, à imaginação. Nosso protagonista fecha seus olhos por alguns instantes para, depois disso, abri-los já transformado em outra pessoa, uma mulher, para ser mais específico. Petreca, novamente, nos presenteia com um cenário magnífico, semelhante a um circo ornado com lindas flores, repleto de personagens marcantes e felizes que ouvem, com evidente prazer, o pequeno concerto da artista.

06Uma incursão ao imaginário na obra de Petreca

A violinista, com trajes bem diferentes, toca o instrumento acompanhada de outros músicos, que se divertem e levam alegria aos demais, o que indica o caráter lúdico do quadrinho. Seguem-se algumas páginas deste pequeno microcosmo imaginário, nas quais o autor procura captar todo o ambiente ao redor dos personagens. Destaque-se, em tais trechos, o uso perfeito dos tons de preto, branco e cinza; ao olhar a imagem acima, muitos poderiam pensar que ela seria muito mais bonita se estivesse colorida, mas eu não concordo. Aliás, este é um charme do trabalho de Petreca: em outras obras suas, é possível notar o domínio do artista no que diz respeito aos contrastes e aos efeitos de luz e sombra.

Na preview de Ogiva, HQ com roteiro de Bruno Zago e desenhos de Petreca que será lançada no meio deste ano, já podemos ver um aprimoramento espetacular em relação aos primeiros trabalhos do artista, mas os efeitos de luz e sombra e o predomínio dos tons de preto, branco e cinza ainda se fazem presentes, uma característica que lhe é peculiar.

OgivaCapa de Ogiva, HQ que será lançada este ano pela editora Pipoca & Nanquim

Um fato interessante de Galho seco é que a parte imaginativa do protagonista é a que mais predomina na história; o momento inicial da rua e dos transeuntes se repete apenas ao final, em um recurso narrativo bastante interessante e que já nos havia sido apresentado no início do quadrinho: a violinista fecha os olhos e, quando os abre, vemos novamente o rapaz que pegou o galho no chão, segurando-o ainda como se fosse um violino. Além disso, na última página, alguns dos passantes parecem olhar para o protagonista com expressão de estranheza (afinal, não deve ser muito comum alguém fingir tocar violino no meio da rua com um galho seco, não é verdade?), detalhes que podem ser visualizados em razão da destreza de Petreca ao retratar expressões faciais.

Ainda falando do último quadro, nota-se um trabalho interessantíssimo de perspectiva; retratam-se com igual qualidade as expressões dos personagens e o cenário ao fundo, algo que já havia aparecido no início da história.

No fim das contas, do que trata o quadrinho?

Está aí uma pergunta para a qual não há resposta única. Em todas as minhas leituras, me identifiquei bastante com a história, pelo fato de que, em muitos casos, ajo exatamente como o protagonista; um controle remoto, muitas vezes, acaba virando um braço de guitarra enquanto ouço uma música; o mesmo pode acontecer com uma vassoura ou mesmo nas barras de ferros de transportes públicos, como ônibus e metrô. Acredito que cada pessoa, dentro de si, imagina coisas diferentes em momentos variados da vida, de modo que se desliga da realidade por alguns momentos, até se dar conta de que os pensamentos estavam bem distantes.

Esse é, inclusive, um dos fatores que mais me agradaram em Galho seco; é sempre muito interessante se identificar com alguma obra, seja literatura, cinema ou quadrinhos, e percebermos que não estamos sozinhos em nossa “loucura” (loucura mesmo é não imaginar nada.) Na minha leitura, Galho seco responde à seguinte pergunta: o que pode acontecer num instante?

Destaca-se, além disso, o trabalho primoroso de narrativa gráfica/visual, tendo em vista que não há balões de fala na história. Mesmo assim, é possível compreender com clareza o que acontece a cada quadro, a cadência sendo ditada pelos enquadramentos abertos e fechados. O silêncio enquanto elemento da narrativa também é bem interessante; antes do processo imaginativo, vemos uma rua movimentada em que ninguém se comunica; já nos trechos imaginários, o silêncio dá vez e voz à música, que capta todos os que se agrupam em volta da violinista da história.

Na homepage oficial de Guilherme Petreca, é possível assistir a um vídeo bem curtinho do processo criativo de Galho seco, bem como se pode ver algumas imagens da HQ em alta resolução.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s