CRÍTICA| Aves de Rapina discute dependência emocional e levanta a bandeira do empoderamento feminino

Quem disse que uma vilã (ou seria anti-heroína?) não pode sofrer por amor e ficar tão vulnerável a ponto de criar dependência emocional? Arlequina (Margot Robbie), personagem do universo da DC, está aí pra provar que em se tratando de sentimentos, ninguém está imune de ficar numa posição de fragilidade. Afinal, não existe quem seja totalmente forte e incapaz de sentir dor. Até mesmo se esse alguém for a rebelde e autêntica ex-namorada do Coringa.

arlquina e coringa

Após romper com o palhaço do crime, Arlequina decide seguir sua vida de forma independente. Passa a sair todos os dias, ir pra festas, beber, e fazer qualquer outra coisa que uma pessoa que acabou de terminar um relacionamento (principalmente um relacionamento abusivo) poderia fazer. Só queria aproveitar essa fase de liberdade, embora venha intercalada com momentos de tristeza, solidão e carência. O que também é compreensível, já que faz parte do processo de superação que ela estava lidando.

Sem a proteção do Coringa ela não estava mais segura em Gotham. Todos que ela sacaneou de alguma forma queriam retratação e isso fez ela voltar a duvidar da sua capacidade de se virar sozinha sem um macho alfo para cuidar dela.

arlquina

Aves de Rapina – Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa não é apenas sobre a emancipação da Arlequina, mas sim, de todas as mulheres do filme. Independente de suas diferenças, todas tinham algo em comum: a necessidade de se libertar da prisão na qual se encontravam e serem donas de si.

Arlequina, como já foi dito, precisava aprender a ser feliz sem depender de um namorado manipulador pra isso. Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell) era escrava de um chefe psicopata que a tratava como um animal de estimação, mas que ela era obrigada a engolir por dependência financeira. A policial (Rosie Perez) estava submetida a um ambiente machista de trabalho que não valorizava seu talento, onde os homens se beneficiavam das conquistas dela. A caçadora (Mary Elizabeth Winstead) era vítima de seu próprio desejo de vingança e vivia aprisionada por seus traumas de infância. Cassandra Cain ( Ella Jay Basco) é uma menina órfã, que cresceu em abrigos até ser adotada por um casal que não a tratava como membro da família. Roubava pra sobreviver, pois estava sujeita àquela vida.

aves de rapina 2

O filme tem como mensagem mostrar que todas as mulheres podem e merecem ser independentes. Mulher não foi feita pra pertencer a ninguém e muito menos pra ser mero enfeite pra homem ostentar. Aqui o protagonismo é delas. Começando pela direção do filme ser comandada por uma mulher (Cathy Yan), assim como a produção (feita por Margot Robbie, intérprete de Arlequina), roteiro (Christina Hodson) e obviamente, o elenco ser em grande parte feminino.

E o mais legal nisso tudo é que essa busca pela independência não foi feita de forma idealizada como geralmente é retratada pela cultura pop. Não é um processo simples e nem fácil. Pode ser doloroso em vários momentos (ou até em todos).

Vai dar vontade de regredir o tempo todo. E ninguém é fraco por abandonar o barco, pois às vezes o vazio que acompanha a solidão é tão forte, que simplesmente acaba superando o gostinho de liberdade. E tá tudo bem desistir (por um tempo). Tá tudo bem ser humano e se sentir vulnerável. Tudo bem. Só não pode é desistir pra sempre. Isso que nunca pode acontecer.

Se tem algo que a Harley Quinn e as Aves de Rapina podem nos ensinar é isso. Ser uma pessoa verdadeiramente independente não significa ficar tentando provar que é autossuficiente por aí. A independência não precisa vir carregada de ego. Isso é bobagem.

A verdadeira independência vem da segurança de admitir que se sente desprotegido e precisa de ajuda, mas que apesar de não ser uma muralha invencível (e alguém é?), ainda consegue encontrar forças dentro de si para expor ao mundo o incrível potencial que talvez esteja escondido. E isso o longa conseguiu mostrar com maestria, o que não é de se espantar sabendo que Aves de Rapina é fruto de um trabalho feminino.

Como diria Florence Pugh (ela disse isso em relação a Viúva Negra que estreia em abril deste ano, mas vale pro caso de Aves de Rapina também), “pra um filme de ação esse tem muito coração”. Ou seja, apesar da maioria das cenas serem de fuga, luta e perseguição, o que é normal dentro do gênero, as personagens não são rasas (apesar de não ter muito tempo para aprofundá-las).

Tem vários momentos que podem fazer o público chorar e se identificar, principalmente nas cenas da Arlequina, com destaque para a cena que ela escuta um grupo de pessoas comentar escondido que ela não vai conseguir se manter sozinha por muito tempo sem uma figura masculina para se apoiar. É interessante ver a fragilidade da Arlequina através da forma como ela sente e reage a esse tipo de opinião sobre ela.

Diferente da maioria de filmes de super heróis e adaptações de quadrinhos, que tendem a conquistar mais o público masculino por geralmente buscar enaltecer a figura do homem e seus feitos, colocando eles como protagonistas ou personagens de destaque e relegando os papéis femininos a objeto sexual, a mulher ou paixão de alguém ou então, a um personagem secundário sem uma participação muito importante, Aves de Rapina, além de colocar mulheres brilhando e se ajudando (ponto alto para a cena da luta em que uma passa um prendedor de cabelo pra outra), tem muita inteligência emocional e empatia contida na condução do longa do início ao fim (o que faz total sentido levando em conta que tem mulher na direção).

Um aspecto que deixa a desejar e não pode deixar de ser citado, apesar de ter muitos pontos altos, é o fato do filme se chamar Aves de Rapina e a protagonista ser a Arlequina como se as outras mulheres fossem coadjuvantes num filme solo dela. E também, o subtítulo ser Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa, sendo que não é só ela que se emancipa de algo. Faltou dar mais espaço para as outras personagens femininas, até porque as Aves de Rapina (pelo menos no filme) é formada pelo trio; a policial, a Canário Negro e a Caçadora. A Arlequina não faz parte das Aves de Rapina, ela apenas se junta com elas antes do grupo existir e elas se autodenominarem assim.

aves de rapina 3

O filme, na verdade, é sobre o processo de emancipação da Arlequina e a origem das Aves de Rapina acaba sendo incluída no meio disso. Tanto é que ela quem narra a história, a gente sabe o que aconteceu através do olhar dela. Além do fato da narrativa começar com ela contando a própria história desde a infância através de uma animação. O ideal, talvez, fosse a trama ter sido dividida em dois longas. Um focado nas Aves de Rapina mesmo e outro, só sobre a história da Arlequina e seu desenvolvimento, como foi feito com o novo Coringa.

policial

Dois outros aspectos que me incomodaram um pouco foi a falta de carisma da policial, que acaba por ser ofuscada pelas outras. O que pode ser explicado pelo fato de que ela era a personagem mais realista ali e por isso, acaba destoando no meio das outras que são mais “fantasiosas”. Como se ela fosse o ponto de realidade no meio de personagens com cara de que foram retiradas de histórias em quadrinho de fato.

E a atuação fake de Ewan McGregor, soando extremamente exagerada em todas as cenas. Roman Sionis é um vilão maniqueísta, sem muita complexidade. É mau, porque é mau e ponto final. Pelo menos foi o que ficou parecendo no filme. O que pode justificar a atuação do ator levando em consideração que ele está interpretando um psicopata sem uma motivação plausível além da gana por poder e dinheiro e satisfação doentia. Não tem como criar empatia por ele em nenhum momento, mas talvez o propósito tenha sido exatamente esse. O resultado ficou superficial, mas ok. Não era pra ele ser um novo Coringa do Joaquim Phoenix e tudo bem. Aí entra a questão de gosto pessoal mesmo.

roman sionis

Por fim, vale destacar a trilha sonora (procurem a trilha sonora desse filme. Tá maravilhosa!) e a relação de irmandade, quase maternal, entre Arlequina e Cassandra. Foi divertido e bonitinho de ver Arlequina exercendo a função de “irmã mais velha” da garota e o apoio que uma dá pra outra. E o engraçado nisso tudo é que a personagem começa o filme tentando lidar com a falta de alguém para protegê-la e termina justamente sendo “responsável” por outra pessoa. Ao invés de procurar proteção, agora ela quem protege.

aves de rapina 5

Embora tenha alguns pontos falhos, como foi mencionado aqui, um projeto como Aves de Rapina é importante para a nossa sociedade, que mesmo com mudanças positivas ao longo do tempo, ainda mantém muitos traços machistas. É um aplauso à sororidade e ao empoderamento feminino num universo costumeiramente dominado por homens, como o das HQs.

cartaz aves de rapina

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