Análise de “MMXX”, o segundo disco do Sons of Apollo

Em 17 de janeiro deste ano, o Sons of Apollo lançou seu segundo disco, MMXX, “2020” em algarismos romanos. O grupo, formado por Jeff Scott Soto (vocais), Ron “Bumblefoot” (guitarra, vocais), Billy Sheehan (baixo, vocais), Derek Sherinian (teclados e sintetizadores) e Mike Portnoy (bateria, vocais), é um dos principais expoentes atuais do metal progressivo, uma vertente do rock que mescla aspectos do rock and roll e do rock progressivo, gênero que se desenvolveu especialmente na Inglaterra em fins dos anos 1960 e em boa parte da década de 1970.

MMXX é uma progressão bem natural em relação ao debut da banda, Psychotic symphony, de 2017. No segundo álbum, os integrantes do Sons of Apollo parecem estar mais entrosados, e alguns pequenos problemas do primeiro disco foram sanados; falarei disso um pouco mais adiante.

MMXXCapa de MMXX

Vamos entrar efetivamente na análise do disco. É muito bacana ainda haver grupos que se preocupam com a excelência e que fogem do padrão fonográfico imposto pela indústria da música, cujas principais características são a elaboração de canções pré-fabricadas, com pouco mais de três minutos e harmonias e melodias grudentas, que se fixam facilmente na memória do público.

rock progressivo sempre foi um gênero transgressor, por forçar o ouvinte a não só escutar as canções, mas especialmente a apreciá-las em todos os seus desdobramentos e complexidades. Por se apropriar de características da música erudita, do jazz e do próprio rock and roll, o progressivo sempre requer de quem o ouve uma atenção redobrada, para que certos detalhes das músicas não passem despercebidos nas audições de determinado álbum. É possível entender de modo bem preliminar do que trata esse subgênero do rock neste post, em que são listados cinco álbuns de rock progressivo para que se possa começar a entendê-lo.

MMXX não foge à regra; o disco é repleto de complexidade nas harmonias e melodias de todas as faixas, e mesmo a mais simples/comercial reserva surpresas instrumentais muito bem elaboradas; é o caso de “Desolate july”, a quarta música do álbum, composta em homenagem ao falecido baixista David Z, que morreu em um acidente de ônibus no meio de uma turnê em 2017, com sua então banda Adrenaline Mob. David foi músico de apoio de Soto em sua carreira solo e companheiro de banda de Mike Portnoy, na primeira formação do Adrenaline Mob. A música se inicia com uma harmonia bastante simples e previsível, mas que se desenvolve em uma sonoridade bastante complexa, com um solo bem marcante de guitarra feito por Bumblefoot já quase ao fim da canção.

Entretanto, o que se destaca de fato em MMXX são as faixas progressivas; o disco já começa com um petardo, “Goodbye divinity”, que segue o acompanhamento dos sintetizadores de Sherinian. É uma música tocada em camadas; assim, na introdução, a cada dois compassos os músicos vão surgindo um de cada vez, numa produção que valoriza o melhor de cada instrumento. Desta vez, é possível ouvir o baixo de Billy Sheehan com total nitidez, um avanço com relação ao primeiro disco do Sons of Apollo; em Psychotic symphony, é necessário fazer bastante esforço para ouvir o som do baixo, o que julgo uma falha na produção. E uma falha grave; Sheehan é um dos melhores baixistas dessa geração, e não ouvir suas contribuições ao álbum é uma perda inestimável para os ouvintes.

Ainda em “Goodbye divinity” há o primeiro grande solo de Derek Sherinian nos sintetizadores, que emulam os timbres de instrumentos como o Moog e o Mellotron, bastante usados por Keith Emerson, do Emerson, Lake & Palmer, e por Rick Wakeman, ex-Yes, dois grandes precursores do rock progressivo britânico. Contudo, algo que deveria ser uma grande virtude do disco é, na verdade, o que considero um defeito: Derek Sherinian basicamente se limita a um número muito pequeno de timbres, o que torna as contribuições do músico monótonas e repetitivas no álbum. Não estamos, aqui, julgando a técnica de Derek, afinal trata-se de um músico excelente e que tem uma carreira longeva; o fato é que, em um álbum que preza pelo experimentalismo, limitar-se a três ou quatro timbres é uma falha.

DerekO tecladista Derek Sherinian em estúdio; muitos teclados e pouca variedade de timbres em MMXX

Veja, por exemplo, o Jordan Rudess, tecladista do Dream Theater, o principal grupo representante do metal progressivo; o último disco da banda, Distance over time (2019),  é um espetáculo de sonoridade e timbres de teclado, pois há uma grande variedade de sons empregados em todo o álbum, e isso confere às músicas bastante versatilidade e imprevisibilidade.

Por outro lado, Derek tem seus momentos de destaque; em “King of delusion”, há uma espécie de peça para piano, bastante inspirada em composições eruditas feitas para o instrumento, cujos dois dos principais artistas são Chopin e Franz Liszt. Além disso, um pouco depois da metade da canção, há um solo de órgão bem contundente, que faz recordar os solos de Hammond feitos por Jon Lord no Deep Purple, em faixas como “Highway star”.

Outro fator que identifica MMXX são compassos pouco convencionais; na mesma “King of delusion”, pouco antes do citado solo de Derek, Portnoy carrega o ritmo da música na bateria quebrando o paradigma do hard rock, que é geralmente tocado no compasso 4/4, e permitindo a toda a banda a elaboração de trechos bastante complexos e de difícil execução. Isso também pode ser verificado em “Fall to ascend”, em uma passagem repleta de ghost notes (notas que parecem ser tocadas fora do tempo do compasso, mas que fazem total sentido na composição) que sucede os solos de teclado e guitarra, adaptando melodias de música latina.

Gostei muito do fato de que Billy Sheehan teve um pouco mais de liberdade para atuar no disco; há dois solos espetaculares de baixo, um em “Ressurection day” e outro em “New world today”, a faixa mais longa do álbum, com 15 minutos e 50 segundos de duração. Era algo já bastante esperado, visto que Sheehan teve pouca oportunidade de se fazer ouvir no primeiro álbum da banda, conforme dito anteriormente. O baixista emprega técnicas de harmônicos e distorção no baixo, recursos normalmente usados por guitarristas e que também já foram utilizados nos dois discos do grupo de hard rock The Winery Dogs, em que toca ao lado do guitarrista e vocalista Richie Kotzen e de seu atual colega de banda Mike Portnoy, que assume as baquetas e os vocais de apoio.

Já foi falado da qualidade de Ron “Bumblefoot” anteriormente, mas a faixa em que ele expõe sua técnica de modo ainda mais visível e audível é “New world today”, cujo início é bem sóbrio. A música começa com um solo de guitarra repleto de feeling, sem as conhecidas “fritações”, e que marca o ouvinte já nas primeiras notas. Bumblefoot é acompanhado pelos pads de Derek Sherinian, que articula uma base harmônica simples, mas muito precisa, dando liberdade para que Bumblefoot possa desenvolver uma melodia bastante diversificada e nada previsível. O bacana é que Ron usa uma guitarra de dois braços, cujo braço inferior é um fretless (sem trastes), o que permite experimentações ainda mais criativas e originais. Essa faixa é o progressivo em seu estado bruto, porque há espaço para todos os músicos do Sons of Apollo executarem solos incríveis e absolutamente técnicos, relembrando bandas como o Transatlantic, capitaneada pelo tecladista e vocalista Neal Morse e que, pasme, contava com Mike Portinoy na formação.

Jeff Scott Soto também não deixa por menos nos vocais; seu tom de voz de barítono sempre foi marcante em toda a carreira, e as músicas são cantadas de modo bastante preciso e sóbrio, sem muitos gritos, guturais e notas agudas. Soto acerta em tudo, tem ótima presença de palco e um carisma fora do comum; é o sonho da maioria das bandas de rock and roll.

MMXX é um disco muito plural, por exibir influências de outros estilos para além do progressivo. A já citada “King of delusion” tem uma cadência que é bastante comum no groove metal; “Asphyxiation” poderia ser faixa de qualquer bom disco de power metal; e “New world today” surpreende por incluir passagens típicas de thrash metal, um gênero mais quadrado e que, muitas vezes, se contrapõe ao progressivo.

Se eu tivesse que atribuir uma nota a MMXX, seria 9,5; descontaria meio ponto em razão da mencionada limitação de Derek Sherinian quanto aos timbres que ele utiliza no álbum. De resto, o disco é impecável, e não duvido que apareça, daqui a 10 ou 15 anos, em uma lista de melhores discos da década.

Faixas:

1. Goodbye divinity

2. Wither to black

3. Asphyxiation

4. Desolate july

5. King of delusion

6. Fall to ascend

7. Ressurection day

8. New world today

 

 

 

 

 

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