Crítica | O Preço da Verdade: a verdade obscura da ganância

 

Nada é mais poderoso do que a verdade. Quando estamos apossados dela, nos sentimos heróis imbatíveis, mesmo que tudo se mostre desfavorável ou até mesmo impossível. Essa é a força que impulsiona Rob Billot (Mark Ruffalo), personagem principal da obra cinematográfica baseada em fatos reais “O Preço da Verdade”, tradução do título original “Dark waters” – cujo título lembra muito a teoria do iceberg de Hemingway. Ao longo da trama, Rob nada contra a maré em busca desta verdade prevalecer no final, custe o que custar. Quanto mais vai à procura dela, porém, mais se dá conta de que o valor é alto e penoso demais.

Em tons neutros de azul, cinza e amarelo, a fotografia ajuda o espectador na imersão da crueza do mundo corporativo, na urgência da questão ambiental, e nos poucos momentos de aconchego familiar, que acaba sendo um refúgio para Rob Billot, conhecido por toda vida como advogado empresarial, a serviço de poderosas indústrias químicas. Durante a ação, é procurado pelo fazendeiro Tennant (Bill Camp) para averiguar uma série de mortes e comportamentos estranhos de seu gado ligados ao aterro da gigante DuPont, localizada no interior do estado americano de Virgínia. Ao questionar, descobre que o fazendeiro o contatou por intermédio de sua avó, ambos moradores do mesmo local. 

A partir disso, ocorre a principal ruptura da história, pois Rob vai até sua vó, que o acerta no âmago. Por meio de fotos da infância e de uma lembrança de sua avó, o advogado se confronta com outro tipo de verdade subtendida do filme: a dele mesmo. A verdade contida nas memórias de sua existência traz à tona a responsabilidade que escolheu carregar para o resto de sua vida adulta, a de sempre lutar em favor da lei, da justiça e da verdade, acima de tudo. Ou seja, foi preciso uma volta ao passado para que Rob re-encarasse verdades há muito esquecidas ou até mesmo ignoradas, pois passou de defensor de grandes indústrias para militante ambiental em luta judicial contra DuPont, basicamente o inverso do que exercia. 

Desse ponto em diante, numa busca implacável por provas e sucessivos processos judiciais que duram anos, Rob comprova que lutar em prol do bem comum implica estar disposto a arriscar tudo, até mesmo sua vida pessoal, profissional e saúde mental. O filme é decisivo em mostrar que o preço que se paga a fim de que a verdade prevaleça é caro, caro demais, sobretudo quando o outro lado é uma poderosa corporação que só visa lucros e poder, mas, ao mesmo tempo, também demonstra que a resistência pode ser sim compensada graças à coragem, à certeza de estar em posse da verdade, e, principalmente, ao sentimento de lealdade para com seus princípios e deveres no mundo.

 

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