Crítica | Sete Minutos Depois da Meia-Noite: drama fantasioso sobre amadurecimento conquista o público com metáforas comoventes e atuações impecáveis

Lançado no Brasil em 2017 e disponível atualmente na Netflix, o longa de drama e fantasia é baseado no livro ‘A Monsters Calls‘, de Patrick Ness, que também é responsável pelo roteiro, e dirigido pelo espanhol Juan Antonio Bayona, cujos trabalhos anteriores incluem O Impossível (2012) e O Orfanato (2008).

Sete Minutos Depois da Meia-Noite nos apresenta a Connor O’Malley (Lewis MacDougall), um menino por volta dos 13 anos, que mora no Reino-Unido e está sendo consumido por um turbilhão de problemas: a fase terminal de câncer na qual está a sua mãe (Felicity Jones); a ausência do pai (Toby Kebbell), que mora na América e possui outra família; a falta de intimidade com a avó materna (Sigourney Weaver); e o bullying que sofre dos colegas de escola. 

Connor, então, passa a receber a visita de uma gigantesca árvore (voz de Liam Neeson), a qual afirma que contará três histórias ao menino, mas que a última deverá ser contada por ele – e deverá ser verdadeira. O monstro aparece sempre à mesma hora, à 00:07. 

A objetividade do roteiro está presente desde a primeira cena, na qual somos expostos ao pesadelo que frequentemente permeia o sono do protagonista – em meio a uma ventania, ele tenta evitar que uma mão feminina caia de um penhasco. A questão é que, apesar de termos certeza de quem se trata essa figura com o passar da história, somente vemos o seu rosto no final. É aqui que o objetivo da árvore é alcançado.      

Os contos, repletos de ambiguidades, refletem situações complexas do nosso dia a dia, mas uma em específico é enfatizada: a nossa necessidade de criar mentiras confortáveis para evitar a dor da verdade. Ao passo em que Connor quer manter a mãe do seu lado, sabe que fazê-lo parece cada vez mais impossível. Por isso, o garoto lida com o conflito entre mascarar um otimismo desesperado e a busca por sua liberdade.

Desse modo, o filme discute, também, a evolução da independência do menino, que, num primeiro momento, ocorre em função das necessidades pelas quais passa a sua mãe. Daí, Connor, apesar da pouca idade, acorda cedo, prepara seu café, lava a sua roupa e vai sozinho para a escola. Somente ao fim é que essa autonomia ultrapassa o aspecto físico, quando ele admite pra si mesmo a verdade que tanto temia dizer.

Ainda sobre o monstro, é possível que seja uma manifestação da personalidade do falecido avô no subconsciente de Connor, uma vez que é mostrada uma foto de Liam Neeson com a mãe do menino ainda pequena no colo. Apesar da narrativa não explicitar a relação que o avô mantinha com o neto ou os detalhes de sua morte, acredito que, assim como o monstro, o personagem de Neeson tratava Connor com a devida maturidade, sem didatismos excessivos – e esse pode ser exatamente o fato pelo qual o avô ficou marcado nas lembranças do menino. 

Outro ponto positivo da obra são as atuações. Durante todo o filme, sentimos que há algo engasgado na garganta do protagonista, mas é próximo da cena final, na ocasião em que se vê obrigado a confrontar a si mesmo, que Lewis MacDougall surpreende o espectador ao revelar a vulnerabilidade emocional de seu personagem. Merece destaque, ainda, a performance de Felicity, que, através de um olhar sincero e emotivo, demonstra o que se passa na cabeça da mãe de Connor, dado que a quantidade mínima de falas é coerente com a situação vivida por ela.

Ainda que os efeitos especiais deixem a desejar nas cenas do pesadelo, são elogiáveis ao moldar a figura ameaçadora e, ainda assim, cuidadosa do monstro e, ao ilustrar suas histórias através de uma aquarela, a qual, aqui, apresenta um tom simbólico devido à sua composição à base de água que dificulta o controle do pigmento. 

Para além das questões familiares, Sete Minutos Depois da Meia-Noite é um longa sobre o processo de crescimento pessoal exigido em diferentes cenários da vida. O fato do protagonista ser uma criança e a utilização da fantasia para ilustrar o contexto dramático conferem um tom semelhante ao de O Labirinto do Fauno, sem, entretanto, torná-lo genérico ou banal. 

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