Crítica | O Poço: A mensagem é você quem cria

 

Com inúmeras interpretações (algumas de cunho cristão, outras com ponto de vista mais político, social e até espiritual/transcendental), O Poço chega à Netflix causando muita discussão na internet (e até Anitta entrou nessa) principalmente por causa de seu final. O ponto de embate foi o atrito entre o realismo e surrealismo. Será que era tudo uma metáfora pra algo bem maior? Os personagens,  na verdade, estavam no purgatório passando por uma série de provações até encontrarem a redenção? Ou então, cada fator ali representava um elemento religioso e por isso, o protagonista é comparado a um Messias, são 333 celas (número da perfeição divina) e 666 prisioneiros (seria 666 condenados ao inferno?). 

Não importa. O filme não terminou sem um final exato à toa. Se essa foi a escolha dos roteiristas David Desola e Pedro Rivero, talvez seja porque o fim não seja o mais necessário para o espectador, mas sim, a jornada que cada um traçou até chegar ali. Às vezes a mensagem se sobrepõe a conclusões explicadinhas e, mesmo que se debruçar em teorias, conspirações e alegorias nunca seja inútil (pelo contrário. Só acrescenta valor à obra), nem sempre precisamos ter todos os pormenores dissecados para compreender o mais importante. O que é de real valor.

E no caso de O Poço, dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, o crucial é mais do que entender, mas se chocar com a dinâmica que é mostrada ali. Se todos que assistirem O Poço passarem a ter uma postura mais empática e solidária (de forma espontânea e não forçada) depois do filme, o objetivo foi alcançado com sucesso e pelo menos já vai ser um início. 

Mas, afinal, do que se trata esse Poço que todo mundo está falando?

 

O Poço, filme espanhol, com título original “El Hoyo”, distribuído pela Netflix e premiado no Festival de Cinema de Toronto, além de ter vencido na categoria de melhor efeito especial nos prêmios Goya e  Gaudí Award e eleito melhor filme no festival de sitges, apresenta uma prisão intitulada de O Poço ou A Plataforma (na tradução do inglês), na qual o objetivo é conseguir comer e sobreviver. 

Com 333 níveis e 2 prisioneiros por cela, um banquete é preparado todos os dias por uma equipe de cozinheiros e é descido por uma plataforma do primeiro nível até o último. Quem está em cima se esbanja com seus privilégios e quem fica nos níveis mais baixos não consegue se alimentar e por isso, tem que aderir ao canibalismo como forma de se manter vivo. Só existe duas escolhas: matar e se alimentar da carne do outro ou morrer de fome/ser assassinado e acabar sendo devorado por outro ser humano. 

Teria como ter comida suficiente pra todo mundo? Sim, teria. Ainda mais se uma das teorias do filme estiver certa.

Antes de entrar no poço, as pessoas são entrevistadas por alguém da administração, como se fosse uma entrevista de emprego, e lá são questionados sobre sua comida favorita com a justificativa de que esta pode ser incluída no cardápio. O que leva a acreditarmos (pelo menos segundo essa teoria) que talvez, todo dia seja feito o prato preferido de cada integrante do poço e que se cada um comesse apenas o seu prato, teria comida pra todos. Isso, claro, se essa teoria realmente se aplica. 

Contudo, de qualquer modo, se cada indivíduo comesse só o necessário pra se alimentar e pensasse nos outros, ninguém precisaria morrer e muito menos chegar ao ponto de se tornar um canibal.  

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O mais triste no poço é que ao invés de quem está embaixo ao trocar de nível e ficar em cima, se sensibilizar com quem está embaixo por já ter estado nessa mesma posição, quando ocorre essa “ascensão social” dentro daquele universo, o oprimido se transforma rapidamente na figura do opressor e até defende o esquema que foi traçado ali, mesmo que continue o criticando. 

É o que ocorre com Trimagasi (Zorion Eguileor), companheiro de cela de Goreng (Iván Massagué), protagonista do filme.  Ele explica para o outro que não se deve ousar falar com os de cima, pois eles não darão ouvidos a quem se encontra numa posição de inferioridade em relação a eles, e também não deve se sujeitar a quem está por baixo. Para reforçar ainda mais seu discurso, Trimagasi chega a mijar e cuspir na comida depois que ela desce, numa alusão clara de que depois que ele já fez uso dela, não interessa mais a qualidade desta. Afinal, por que pensar que outras pessoas ainda vão precisar comer? 

A justificativa de Trimagasi é de que no lugar dele, quem está embaixo faria exatamente o mesmo. Ou seja, também não pensariam em ninguém ali de si mesmo. E por pior que isso possa parecer, nesse caso, como vamos percebendo ao longo do filme, o velho estava com razão. Essa questão pode ser entendida, também, como um meio de vingança dos que outrora eram mais fracos contra aqueles que eram mais fortes, depois que há a inversão de posições dentro do sistema. 

E podemos chegar a conclusão de que o individualismo plantado ali é um ciclo sem fim, já que todos, ao subir de nível, vão seguir essa mesma lógica. Além do fato de que por passarem muito tempo passando fome, se alimentando de restos de comida ou de carne humana nos níveis inferiores, quando conseguem subir de nível querem tirar todo o atraso e compensarem essa fase deplorável, acreditando serem merecedores, após passarem por tantas desgraças, de um banquete só pra si. É uma forma do poço recompensá-los.

Afinal, quando eles estavam embaixo, alguém de cima sequer cogitou a possibilidade de poupar a comida para que chegue até eles? Então, por que pensar neles agora? Esse é o pensamento dos personagens de O Poço

Miharu: a personagem mais enigmática do poço

 

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No meio desse antro de desigualdade social, ainda temos a figura de Miharu (Alexandra Masangkay). Uma mulher que desce todos os dias por todos os níveis da plataforma, em busca de sua filha. Segundo Trimagasi, ela mata todos que estão no poço (com exceção de Goreng, por quem ela cria uma afeição) com a intenção de conseguir dividir a cela com a filha e assim, protegê-la. Tem uma outra interpretação, que diz que ela queria garantir que a comida chegasse até a criança e que ninguém a descobrisse, por isso mantinha ela escondida. Seja qual for a verdade, essa personagem é a representação da maternidade e como a figura da mãe, mesmo em meio ao caos, não deixa de se preocupar com suas crias, colocando-as acima até de si mesma. 

Diante de tanta desigualdade, dá pra esperar solidariedade espontânea?

 

No filme, uma funcionária daquele sistema, ao descobrir que está com câncer, resolve participar daquele experimento social e ainda leva seu cachorro junto com ela (a prova de que ela não fazia ideia do que a esperava). Ela tenta convencer os que estão embaixo de comerem apenas uma pequena porção, suficiente pra matar a fome, e separar uma porção para quem está no nível abaixo. O objetivo é racionar a comida para que todos possam comer. 

É o que ela chama de solidariedade espontânea. Entretanto, num ambiente dominado pelo egoísmo, é óbvio que ninguém lhe dá ouvidos. Acreditar que as pessoas pudessem colaborar por livre e espontânea verdade seria muita utopia? 

Por outro lado, é importante lembrar que Goreng foi para lá por vontade própria. Ninguém o obrigou. Ele só queria parar de fumar e ler Dom Quixote.

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Ou seja, ele tomou a decisão de parar de fumar (o que é bem difícil para um fumante) e se colocou naquela situação por iniciativa dele mesmo. E ainda que a gente não saiba o que há por trás dessa escolha de largar o vício e, se foi motivada por outra pessoa, de qualquer forma, a escolha final foi dele. Ele optou por mudar.

E se a mudança pode ser espontânea, quem sabe a solidariedade também não pode ser ou passar a ser? O primeiro passo pra se tornar solidário numa sociedade corrompida não é justamente estar aberto a mudanças?  

Não é à toa que Goreng vira um símbolo da revolução ali dentro. A partir dele, o sistema pode começar a se modificar. E mesmo que a transformação não seja completa, já é o primeiro passo. 

 

Ok, mas qual a mensagem disso tudo?

 

Quem assistiu o filme ficou cheio de dúvidas no final. A criança existe de fato ou Imoguiri (Antonia San Juan) estava certa ao dizer que Miharu foi sozinha para o poço? Goreng, na verdade, morreu antes de chegar literalmente no fundo do poço e imaginou a presença da menina ali? A mensagem era a criança ou a panna cotta? 

Na minha interpretação, a criança era a mensagem e Goreng e Baharat (Emilio Buale) até conseguiram chegar no nível 333, mas não sobreviveram pra saber se a mensagem chegou mesmo na administração e se a entenderam. Mas independente de ser o doce ou a criança o elemento que representa a mensagem, de qualquer maneira, o objetivo era o mesmo; mostrar pros administradores daquele sistema que ainda restava humanidade entre eles mesmo após tantas atrocidades. 

Afinal, se pouparam a criança (pra quem acredita que ela existe) ou deixaram de comer o doce para que chegue até os níveis inferiores (pra quem acredita que a menina é uma ilusão), então, significa que ainda existe um pouco de empatia dentro deles e, se aquilo tudo realmente for parte de algum experimento social, essa atitude provaria que eles passaram no teste. Ou seja, a crueldade do sistema não conseguiu destruir por completo o que havia de bom neles (pelo menos foi o que entendi). 

 

A administração sabia o que acontecia ali dentro?

Quando alguém morria lá dentro e o companheiro de nível continuava vivo, o que continuava vivo ganhava um novo parceiro de nível, pois a regra dizia que sempre tinha que ter dois por nível. O que nos leva a entender que os funcionários do poço sabiam o que acontecia ali, já que eles que faziam essa troca. E se sabiam quando alguém precisava ganhar um novo “companheiro”, é porque também sabiam quando alguém morria. Além de também ser eles que trocavam os participantes de nível a cada novo mês. (Fez sentido?)

E, também tem a questão que os funcionários do nível zero com certeza escutavam barulhos suspeitos vindo lá de baixo (como gritos, facadas, tiros talvez, pulos suicidas, etc) e até podiam ver algo, talvez. 

Mas pode ser também, que só os funcionários sabiam, mas a administração não. E que os funcionários não contavam para os superiores o que eles sabiam. Enfim, muitas possibilidades. 

Por outro lado,  tem uma cena que mostra o chefe de cozinha brigando com os cozinheiros, porque encontrou um cabelo num doce (era a panna cotta?). Isso demonstra que acharam que a sobremesa foi rejeitada por causa disso e não por um gesto de solidariedade. E se pensaram isso é porque não faziam ideia mesmo do que acontecia no poço (pelo menos o pessoal da cozinha), mostrando a falta de consciência de classe do pessoal que trabalhava ali. Como se fossem tão alienados a ponto de achar que aquelas pessoas estavam em condição de recusar comida.

O que é um fio de cabelo comparado com comer restos mastigados, com mijo, cuspe e fezes às vezes e, nos níveis mais baixos, passar fome e ser obrigado a comer carne humana. Não é verdade? O cabelo seria a menor das preocupações. 

Entretanto, umas das interpretações é justamente essa. A mensagem era de fato o doce e ele chegou até lá em cima. Só que entenderam a mensagem de forma totalmente equivocada, como expliquei acima. Assim, o sacrifício de Goreng e Baharat foi em vão. 

Triste, não? mas faz sentido. É uma interpretação válida. 

Talvez a administração nem tenha essa carga de vilania que a gente pensa que tem. Pode ser que apenas sejam iguais a mãe da família rica em Parasita; pessoas que por estarem inseridas num contexto privilegiado, vivem numa bolha social e não fazem a mínima ideia do que acontece fora da bolha, em realidades diferentes das suas. Vai saber…

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De uma coisa podemos ter certeza; O Poço é um filme que ainda vai suscitar muitas discussões mundo afora. 

E você? Já assistiu o filme? Qual foi SUA interpretação? Compartilha com a gente! Estamos ansiosos pra saber.

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