Crítica | Killing Eve: a obsessão tem nome neste suspense com toques de comédia

Não fale comigo assim, Eve. Eu gosto de você, mas não tanto assim. Não se esqueça: você só é interessante graças a mim”, diz Villanelle a Eve.

Superando a tão frequente perseguição policial, Killing Eve estabelece uma dinâmica entre suas duas protagonistas – Eve Polastri (Sandra Oh), uma policial do serviço de inteligência britânico, e Villanelle (Jodie Comer), impiedosa assassina em série – que se assemelha à relação de Hannibal Lecter e Will Graham, em Hannibal.

Baseada na série de livros de Luke Jennings, Codenome Vilanelle, a história explora a fascinação que uma desperta à outra numa dinâmica doentia e, ao mesmo tempo, cativante, num thriller psicológico composto por mulheres.

Com uma carreira em declínio, apesar de sua impecável intuição e fixação por crimes brutais, Eve é encarregada de identificar e prender a responsável por inúmeras mortes ao redor do mundo – todas relacionadas a questões diplomáticas.

O que a policial não esperava é que Vilanelle é uma figura única, capaz de variar do horror ao humor e ao charme em segundos (cabe elogios ao roteiro por saber dosar essa transição), além da obstinação em criar situações estressantes e ameaçadoras simplesmente para observar a reação dos demais. Desse modo, a captura da criminosa torna-se algo pessoal, que preenche a vida de Eve e a faz sentir-se confiante e desejada ao passo que seu entusiasmo é correspondido.

Conforme o desenvolvimento da trama, portanto, os contornos entre heroína e vilã se tornam cada vez mais tênues; é com compaixão que o espectador assiste ao desmoronar do casamento de Eve e o que isso desperta na policial, revelando sua abalada sanidade.

Ainda que Oh entregue uma performance louvável, quem se distingue é a intérprete da serial killer. Totalmente confortável na pele de Villanelle, dificilmente alguém não se apaixonaria por Jodie Comer.

A atriz nos presenteia com uma atuação quase hipnótica, tornando-nos íntimos da personagem; paradoxalmente, uma sensação de culpa nos consome com freqüência por tentarmos justificar as ações de uma assassina psicopata (sabe aquela cena que você assiste e pensa “não, ela não vai matar essa personagem”? A Villanelle mata). Destaca-se que as duas atrizes foram premiadas pelos seus respectivos papéis; Sandra foi consagrada com um Globo de Ouro e um SAG Awards em 2018, e Jodie, com um Emmy em 2019.

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Aqui, encontra-se justamente um dos pontos mais altos da série: desenvolver personagens femininas fortes sem cair em clichês. Para além de toda a complexidade já comentada, as personagens, de forma alguma, são sexualizadas em Killing Eve – como é comum na grande maioria das produções do tipo. Muito pelo contrário, a sexualidade de ambas é abordada de forma natural, não havendo diálogos que, desnecessariamente, reiterem o fato delas se relacionarem com pessoas do mesmo gênero ou cenas de sexo exageradas.

Do mesmo modo, a série questiona o estereótipo de feminilidade à medida que inclui mulheres em postos que normalmente são ocupados por homens e converte objetos relacionados à beleza feminina em armas mortais.

É preciso lembrar, em vista disso, que Killing Eve não é uma série de perseguição policial. O foco é a influência que Eve tem sobre Villanelle e vice-versa, o que pode frustrar àqueles que desejam cenas de perseguição e de luta num ritmo mais intenso.

Vale ressaltar, ainda, que os demais personagens que compõem a narrativa são igualmente envolventes, com características pontuais, ainda que em participações pequenas. O elenco conta também com Fiona Shaw, Kim Bodnia e Owen McDonnell.

Killing Eve possui duas temporadas disponíveis no Globoplay, cada uma contendo 8 episódios de 42 minutos. A terceira temporada teve sua estreia dia 12 deste mês nos EUA, e, ainda que não haja previsão de estreia no Brasil, sabe-se que será ambientada seis meses após os acontecimentos anteriores e colocará uma das protagonistas em uma jornada de auto-descoberta.

Abaixo, seguem os trailers em ordem cronológica.

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