Crítica | The Sinner – 3ª temporada: seguindo o fluxo da anterior, nova temporada não se iguala à primeira e tem interpretação de Matt Bomer como maior destaque

A Netflix lançou na última sexta-feira (19) a terceira temporada de The Sinner. Nesta nova parte, conhecemos James Burns (Matt Bomer), típico galã de Hollywood cujas atitudes seriam facilmente justificadas pela sua aparência, exceto que James (ou Jamie para os íntimos) realmente é um cara legal, um bom professor, e um bom marido – pelo menos, quando está estável. 

As coisas começam a ficar curiosas quando ele e sua esposa grávida Leela (Parisa Fitz-Henley) recebem a visita de um conhecido da época da faculdade do protagonista. A figura atende pelo nome de Nick Haas (Chris Messina) e parece fazer perguntas e insinuações íntimas demais para quem estava sumido durante algum tempo. 

Ainda que Leela se esforce para manter um clima amigável, o desconforto de Jamie é completamente explícito, o que nos deixa intrigados quando os dois ex-amigos sofrem um acidente de carro e somente o professor sobrevive. O encarregado do caso é ninguém mais, ninguém menos que Harry Ambrose (Bill Pullman), que logo suspeita que a morte de Nick não tenha sido apenas trivial e, como não poderia deixar de ser, mergulha de cabeça na investigação, arriscando a própria sanidade mental e a própria vida. 

Há muitos fatores a serem discutidos sobre essa temporada, mas o que merece maior destaque é o papel que assumem a filosofia e a psicologia, tornando-a notadamente mais mística que as anteriores. 

Durante a primeira metade, somos apresentados a um suspense interessante que demonstra o poder de influência e de manipulação que Nick tinha sobre Jamie. Baseando-se no Super-Homem de Nietzsche, aquele que ultrapassa as convenções e cria a sua própria moralidade, Nick Haas pressiona o parceiro a ir além dos seus próprios limites, destruindo, aos poucos, sua já escassa lucidez e sua relação com Leela e o filho. 

A questão do excesso de ambição desta temporada é justamente um tiro no pé: o roteiro não consegue acompanhar a premissa, restando apenas uma junção de fatos desconexos. 

A partir do quarto episódio, o mistério começa a ficar maçante, pois Jamie teoriza incessantemente sobre a hipocrisia que rodeia a vida de todos nós e a inevitabilidade da morte, porém parece não ter um objetivo, apenas devaneios; da mesma forma, o trabalho da polícia é incrivelmente negligente, ainda que todas as suspeitas estejam sobre ele. Esses dois elementos somente estendem desnecessariamente algo que poderia ser feito em apenas 6 episódios, podendo causar desinteresse no espectador. 

Parte deste tempo poderia ser substituído por um desenvolvimento adequado dos personagens, uma vez que é evidente para o público a omissão do passado de James Burns. Em uma conversa com Harry, Leela revela que, mesmo após uma infância disfuncional e uma traição dela há dois anos, Jamie não sente raiva, apenas se culpa. Além disso, é mencionado um momento específico e crucial na relação entre Jamie e Nick, em que o primeiro se dá conta da toxicidade e da ameaça que o outro representa e, por isso, resolve se afastar. Entretanto, não temos nenhuma representação gráfica desses acontecimentos, os quais, inevitavelmente, acabam se tornando apenas menções – quando, na verdade, são cruciais para entender quem Jamie é e, consequentemente, a dinâmica da história.

Outro fato que torna a narrativa árdua de se acompanhar é a ínfima justificativa sobre o envolvimento pessoal de Harry nos casos. Ao longo das duas primeiras temporadas, percebemos que ele carrega traumas da infância que afetam seus relacionamentos e comportamentos atuais, mas não sabemos, de fato, o que houve com ele. Nesta, temos uma breve mostra de sua relação com a mãe, a qual, no entanto, não é suficiente para dissipar a imagem de um detetive solitário e misterioso sem um motivo convincente para determinadas atitudes

Contudo, algo interessante de se acompanhar sobre Harry – e, talvez, até reconfortante, visto que o público próximo acompanhou seu conturbado processo de divórcio – foi o desdobramento de sua amizade com Sonya (Jessica Hecht, atriz que interpreta a Susan em Friends), dona da propriedade em que o acidente ocorreu. No mais, a participação da moradora no resto da narrativa é insignificante.

Para além de outros tópicos questionáveis, como a falta de verossimilhança em diversas cenas, a terceira temporada de The Sinner tem pontos positivos. Dentre eles, a atuação de Matt Bomer, que chega a desestabilizar quem assiste devido à dramatização do aspecto mental do personagem. Tem-se, ainda, a discussão de alguns temas importantes de forma mais concisa, como o racismo, o sistema educacional e a complexidade de se firmar qualquer relação, visto que seus componentes têm bagagens e percepções diferentes.

O que redime minimamente esta temporada é, sem dúvida, a cena final de Jamie; feita com tamanha delicadeza, é um alívio ver o personagem finalmente retornar para si, após semanas – e, como descobrimos ao longo da temporada, anos – de stress e inquietação.  

Por fim, The Sinner vem apresentando um decaimento observável  na qualidade de suas temporadas, e esta última pode ser uma grande decepção para aqueles que, assim como eu, apaixonaram-se pela primeira. Todavia, por mais que nenhum motivo pareça ser persuasivo o suficiente, a série consegue prender o espectador até o final pela compaixão que Matt Bomer exala na pele de Jamie e, no caso exclusivo dos fãs, pela afeição à produção.  

A quarta temporada foi confirmada há dias atrás e deve estrear em algum momento de 2021. Torçamos para que a provável má recepção da terceira pelos fãs faça com que os roteiristas e diretores repensem o que tem sido feito nos últimos anos e nos dêem uma história tão cativante quanto a de Cora Tannetti.

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