O legado de 3%

A quarta e última temporada da série brasileira, 3%, chegou no catálogo da Netflix dia 14 de Agosto deste ano e já está deixando saudade por todo seu legado que foi se formando durante as temporadas. Esses são apenas alguns deles, porque ainda tem muitos outros. Vem conferir!

Desigualdade social, meritocracia e polarização em pauta

A trama da série se passa num futuro distópico onde a população é dividida em “superiores/merecedores”, que são aqueles que habitam o Maralto, e os “inferiores/sem mérito” que vivem uma vida miserável no continente. Enquanto a população do Maralto mora num local totalmente tecnológico, com todo conforto possível, os moradores do continente precisam lutar todo dia para sobreviver.

Para ser aceito na elite, ou seja, no Maralto, é obrigatório ser aprovado no processo.Nele, jovens de 20 anos passam por uma série de provas que determinam os 3% aptos a ascender socialmente. Já deu pra entender que os 97% restantes são condenados à eterna pobreza, né? Não é muito diferente da realidade brasileira, na qual muitos têm pouco e apenas poucos têm muito.

Logo no primeiro episódio, o personagem Ezequiel, comandante do processo, diz aos candidatos em seu discurso de abertura do processo daquele ano: “Você é merecedor de seu próprio mérito. Aconteça o que acontecer, você mereceu.”, funcionando como uma crítica da série à meritocracia. Isto é, aquela ideia de que todos os indivíduos podem prosperar por conta própria, graças a sua capacidade de perseverança. Quem defende a meritocracia acredita que basta se esforçar pra alcançar seus objetivos.

Contudo, sabemos que as coisas não são tão simples assim, pois para todos poderem ser tratados como iguais e competirem de forma REALMENTE justa é imprescindível que todos possuam de fato as mesmas condições tanto econômicas quanto sociais e psicológicas. Só assim ninguém vai estar em desvantagem em relação aos outros.

Na série, todos os participantes do processo são cidadãos do continente e aparentemente isso poderia colaborar com a ideia de que nesse cenário a meritocracia realmente se aplica. Afinal, estão competindo entre iguais. Porém, tem dois fatores que destroem esse pensamento;

1.Até mesmo no continente existe hierarquia, como vimos através da família do Marco. Os Álvarez, por terem certo poder aquisitivo, têm mais chance de passar no processo. Ao contrário do restante, que vivem em abrigos decadentes e se alimentam do que encontram, eles moram numa casa grande, possuem empregada, não passam fome e, são treinados desde criança para concorrer a uma vaga no Maralto.

E mais importante,

2.O processo não é justo. Além dos critérios de avaliação não serem claros, beneficiando ou prejudicando candidatos de acordo com as preferências de quem comanda o processo, as provas são muitas vezes cruéis e desumanas. Pessoas morrem durante as etapas do processo e ninguém faz nada a respeito.

Polarização é quando há uma divisão extrema entre dois pólos divergentes, sem que haja um meio termo. Vimos isso em 3% por meio do continente x Maralto e da causa x processo. Quem defende os ideais da causa deseja destruir o Maralto e quem faz parte do Maralto ou acredita no processo, como o pessoal da igreja liderado pelo pai do Fernando, enxerga a causa como um bando de invejosos que querem se vingar por não terem sido aprovados no processo. Os dois lados não conseguem entrar em consenso, abrindo espaço para a violência.

Qualquer semelhança com a polarização política entre esquerda e direita e conservador e progressista, com certeza não é mera coincidência.

Primeira produção nacional da Netflix e umas das primeiras séries de ficção científica daqui

Criada por Pedro Aguilera, 3% abriu as portas para produções nacionais na Netflix. Depois dela, surgiram outras como Coisa Mais Linda, Reality Z, Boca a Boca, Onisciente, O Escolhido, O Mecanismo, Sintonia, dentre outras. Formada por uma equipe totalmente brasileira, a série  serve de inspiração para artistas nacionais que também sonham em dirigir, roteirizar e atuar na Netflix. Ver o reconhecimento de outros brasileiros numa plataforma de streaming de grande alcance como a Netflix, enche nosso coração de esperança de estar no mesmo lugar um dia.

A exploração de novos gêneros não é tão comum aqui no Brasil, pelo menos não em obras mais conhecidas. Por isso, é muito comum ouvirmos que as produções nacionais fazem mais do mesmo, sem muita variedade de tramas e universos. E é justamente esse mais um fator pra 3% ter conquistado tanto prestígio aqui no Brasil como também lá fora. Histórias distópicas que abordam a ficção científica é algo ainda original em territórios brasileiros, o que fez 3% instigar a curiosidade do público em querer saber como seria um enredo com esse gênero com produção, elenco, direção e roteiro nacional. Além da ótima recepção da crítica e espectadores ser um estimulante para surgirem novas obras que experimentem gêneros menos convencionais em produções daqui.

Fica a reflexão: Vale tudo por um ideal?

(Aqui tem spoilers da quarta temporada!)

O casal fundador, formado por Laís e Elano, manda a própria filha pro continente como forma de dar o exemplo para os outros habitantes do Maralto. Mais tarde, mais velhos e com Elano muito doente, o casal se arrepende das escolhas que fez e Laís vai buscar sua filha no continente. Com a morte do casal, o conselho do Maralto decide mentir para a população sobre o assassinato de Laís e seu arrependimento em relação à filha. Dizem que ela ficou doente e veio falecer um pouco depois do marido.

A preocupação em  não deixar que as pessoas percam a fé no Maralto e no processo faz com que além de enganarem todo mundo, ainda apaguem todas as imagens do casal fundador que havia nos registros, deixando apenas duas estátuas os representando. Afinal, se soubessem que até mesmo os fundadores do Maralto se arrependeram de terem abandonado a filha no passado, todos iriam repensar seus ideais e iam acabar voltando atrás em suas decisões também, já que o casal era um símbolo de inspiração no Maralto. Provavelmente não concordariam em deixar seus filhos no continente até completarem 20 anos e só poder os reencontrarem caso eles passem no processo, criando assim uma revolução. O medo do luxo do Maralto não compensar no futuro quando a velhice e a doença baterem na porta, assim como aconteceu com o casal, sem dúvida seria outra questão que atormentaria o lado de lá.

Diante disso, fica a reflexão e grande moral da história de 3%: Vale tudo por um ideal? E isso serve para ambos os lados, pois tanto a causa quanto os defensores do processo fazem coisas abomináveis só por amor às suas ideologias. Os princípios são diferentes, mas os dois são fiéis a uma causa maior. Vale a pena manipular, iludir e agir de violência contra pessoas apenas por um ideal?

Primeira série brasileira da Netflix, '3%' virou um baita sucesso ...

E você, o que achou? Tem algum outro legado que você acha que 3% deixou? O que você vai sentir mais falta na série? Conta pra gente!

Aproveita e assiste o vídeo que fiz para o canal do Tentáculo sobre 3%!

Um comentário sobre “O legado de 3%

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