Ricardo Cruz, o brasileiro que conquistou os anime songs

Acho que o desejo de todos nós é poder viver dos nossos sonhos. Seja viver ao lado da pessoa que a gente ama, morar ou pelo menos visitar os lugares que idealizamos, conhecer os ídolos que admiramos ou trabalhar com aquilo que amamos. E quando alguém consegue esse feito, mesmo quando ele parece ser quase impossível, ele nos serve de inspiração. E é justamente esse o caso do músico Ricardo Cruz, cantor brasileiro de anime songs e membro da banda JAM Project.

Ricardo Cruz

Ricardo nasceu em São Paulo, e como todo otaku, é extremamente fã de cultura japonesa e tudo o que ela tem a oferecer. Seu gênero favorito são os filmes e séries tokusatsu, que são basicamente produções live action japonesas com efeitos especiais.

Nesses casos, geralmente tokusatsu é associado a filmes e séries baseados em super heróis. Aqui no Brasil vieram várias produções do gênero que ficaram extremamente famosas, como Jaspion, Changeman, Flashman, Nacional Kid, Ultraman, Jiraiya, e por aí vai. Até mesmo Power Rangers, mesmo sendo uma produção norte americana, é considerado Tokusatsu, pois ela nada mais é do que uma adaptação ocidental de uma franquia japonesa chamada Super Sentai, a qual, inclusive, os já citados Changeman e Flashman fazem parte.

Enfim, Ricardo era fascinado por esse universo super heroico nipônico, além dos diversos animes, e vivia no chamado Bairro da Liberdade (região de São Paulo onde a cultura japonesa é bem forte) consumindo essas produções ao lado de amigos. Ele já chegou a relatar que visitou casas de japoneses vivendo na cidade paulista buscando por fitas VHS de séries japonesas, tamanho era o fascínio dele por essa cultura. Ele também começou a estudar a língua japonesa nesse período, de forma autodidata. E claro, Ricardo também ouvia muito anime songs. Segundo ele, esse era o único tipo de música que ouvia em sua juventude.

Anime songs, pra quem não conhece, é como nós chamamos músicas que são tocadas em animes, as famosas animações japonesas. Não é um gênero específico de música, como é o caso de J-Pop e J-Rock, por exemplo. Na verdade, anime songs engloba praticamente todos os gêneros musicais, que são escolhidos ou produzidos pelos produtores, compositores e músicos dependendo do anime.

Para citar alguns exemplos famosos de anime songs, temos Cha-La Head-Cha-La¸ famosa abertura de Dragon Ball Z, cuja versão japonesa é cantada por Hironobu Kageyama, e a versão brasileira é cantada por Rodrigo Firmo. Tem também Smile Bomb¸ música de abertura de Yu Yu Hakusho cantada pela cantora Matsuko Mawatari, cuja versão brasileira se chama Sorriso Contagiante e é cantada por Luís Henrique. Por último, temos Pegasus Fantasy, famosa abertura de Cavaleiros do Zodíaco, tocada no Japão por Nobuo Yamada e no Brasil pela banda Angra.

Cha-La Head-Cha-La (versão brasileira)

Sorriso Contagiante

Pegasus Fantasy (versão do Angra)

Voltando ao Ricardo, a vida dele mudou completamente depois que ele teve a oportunidade de fazer um intercâmbio no Japão. Lá, ele estudou, conheceu a cultura que ele tanto admira em primeira mão, se tornou fluente na língua japonesa, e até mesmo visitou a famosa PEDREIRA DA TOEI, local que serviu de cenário para inúmeras cenas de produções tokusatsu. Foi nessa época também que ele começou a ter contato com a música, cantando ao lado de amigos em Karaokês. Em determinado momento, ele conseguiu ir em shows de cantores que ele admirava desde a infância, como o já citado Hironobu Kageyama, e Akira Kushida (famoso por músicas temas de séries como Sharivan, Jaspion e Jiraiya). Como fã, isso foi um dos momentos mais emocionantes de sua vida, e mal sabia ele que esse momento foi crucial para o seu futuro.

Ricardo Cruz em sua primeira visita à Pedreira da Toei, durante seu intercâmbio, em 1999.

Ao voltar para o Brasil, Ricardo começou a trabalhar como tradutor de mangás (quadrinhos japoneses). Nesse período ele atuou como colunista da Revista Herói pela Editora Conrad, e também traduziu, pela editora JBC, mangás como B’t X, de Masami Kurumada, o mesmo criador de Cavaleiros do Zodíaco. Em 2003 ele participou da produção do primeiríssimo Anime Friends, hoje em dia considerado o maior evento de cultura pop japonesa da América Latina. Se baseando em sua própria experiência no Japão, Ricardo foi quem trouxe a ideia de trazer artistas japoneses para o Brasil, pois ele acreditava que, se presenciar os shows ao vivo deles o emocionou, com certeza iria emocionar toda uma geração de fãs que não tinham condições de ir para o lado oriental do mundo. Graças a isso, eles conseguiram levar para a primeira edição do Anime Friends Hironobu Kageyama, Akira Kushida e o ator Hiroshi Watari (conhecido por interpretar os heróis Sharivan e Spielban). Esse foi o primeiro contato de Ricardo com seus ídolos.

Hiroshi Watari, Hironobu Kageyama e Akira Kushida na 1ª edição do Anime Friends, em 2003.

No ano seguinte, durante sua segunda edição do Anime Friends, Kageyama retornou ao lado de outros cantores: Masami Okui (conhecida por trabalhos em animes como Slayers e Yu-Gi-Oh!), Masaaki Endoh (cantor de obras para Tokusatsu como Abaranger e animes como Cybuster) e Eizo Sakamoto (membro da banda Animetal, famosa por fazer covers de anime songs em forma de Metal). Esses 4 artistas tinham uma coisa em comum: todos eram membros da banda JAM Project, grupo de cantores veteranos de anime songs que existe desde 2000. Durante o ensaio para o show do Anime Friends, Okui estava gripada e desejava preservar sua voz para a apresentação. Ricardo, então, até mesmo como uma forma de se “mostrar” para os ídolos, se ofereceu para cantar as partes de Okui no ensaio. Essa decisão foi o divisor de águas.

Sua voz e habilidade de canto, mesmo amadora, chamou a atenção dos cantores, e eles lhe pediram para gravar uma demo e mandar para o grupo, lá no Japão. Isso porque estava acontecendo um concurso para selecionar um novo membro para o JAM Project. A banda é formada por veteranos na música, então a busca era por cantores novos, para que tivesse uma interação entre a nova e a antiga geração dentro do grupo. Ricardo obviamente aproveitou essa oportunidade única, e gravou as demos. Aparentemente a banda gostou da ideia de ter um brasileiro, fanático por cultura japonesa e que fala japonês, entre eles. Isso fora que as habilidades de canto dele já lhes chamaram a atenção. Resultado: em 2005, Ricardo Cruz voltou ao Japão, não apenas como um fã ou apaixonado por aquela cultura, mas também como o MAIS NOVO MEMBRO DA BANDA JAM PROJECT.

Ricardo Cruz como membro do JAM Project.

Desde então, Ricardo cresceu dentro da música, e se tornou famoso entre os cantores de anime songs. Afinal, agora ele era membro de uma das bandas mais conhecidas do gênero, e o único estrangeiro a fazer parte dela. Seu primeiro trabalho como membro do grupo foi na música Neppu! Shippu! Cybuster, para o anime Cybuster, seguido de Stormbringer para o anime Kotetsushin Jeeg. Diversas outras músicas com participação de Ricardo vieram depois disso, fortalecendo ainda mais o nome dele dentro da indústria.

Neppu! Shippu! Cybuster!

Stormbringer

Com o tempo, ele se tornou compositor e participou da composição de músicas como Waga na Wa Garo, feita para a franquia tokusatsu Garo. E damos destaque para a música Sempre Sonhando ~Yume Oibito~, que foi feita em homenagem ao próprio Ricardo e sua jornada, de fã a ídolo.

Waga na Wa Garo

Sempre Sonhando ~Yume Oibito~

Mais tarde, Ricardo retornou ao Brasil, onde continuou sua carreira musical de forma solo, enquanto permanece como parte do JAM Project, atuando como membro honorário. Nesse lado do mundo, ele trabalhou em versões brasileiras de músicas de anime, como a música Ohayo de Hunter x Hunter e Megami no Senshi ~Pegasus Forever~ de Cavaleiros do Zodíaco. Ele também se formou o Danger3, um novo grupo de animesongs brasileiro, formado por ele, Larissa Tassi e Rodrigo Rossi. Pelo Danger3 ele compôs e cantou músicas para obras como Cavaleiros do Zodíaco e o mangá Akira.

Grupo Danger3, formado por Rodrigo Rossi, Larissa Tassi e Ricardo Cruz.

Ohayo

Megami no Senshi ~Pegasus Forever~

Danger3 – Neo Tokyo

Seu destaque maior, porém, talvez seja a música On the Rock, sua primeira produção 100% autoral, que presta homenagem às obras tokusatsu, com direito a um clipe que simula um episódio típico das séries do gênero. O videoclipe contou, inclusive, com Hiroshi Watari interpretando o herói, e o youtuber Cauê Moura encarnando o vilão. A música chamou tanta atenção, que Ricardo chegou a ir para o programa da Fátima Bernardes falar um pouco de seu trabalho.

On the Rock

Ricardo Cruz no Encontro com Fátima Bernardes

Além de seu trabalho na música, Ricardo também decidiu partir para a educação. Se baseando em sua própria experiência de vida, aprendendo japonês ao longo dos anos, ele desenvolveu seu próprio método de ensino da língua japonesa, e criou o curso chamado de NihonGo, cuja versão básica está disponível gratuitamente no site e no canal do YouTube, enquanto a versão Premium, que é paga, é disponibilizada de tempos em tempos.

Hoje em dia, Ricardo Cruz continua atuando na música e no curso NihonGo. Além de seus trabalhos solo, na JAM Project e no Danger3, ele também faz participações esporádicas em músicas de outros artistas, fora seu projeto Anison Lab, onde ele produz vídeos cantando covers de músicas oficiais de anime e tokusatsu, ao lado do músico e compositor Lucas Araújo. Dentre seus trabalhos mais recentes, ele foi compositor da música Seijaku no Apostle, a qual ele cantou ao lado da JAM Project para a segunda temporada de One-Punch Man. Por aqui, recentemente ele gravou a a versão brasileira do tema de abertura de Kamen Rider Black.

Jam Project em sua formação atual, incluindo Ricardo Cruz.

Seijaku no Apostle

Canal oficial do Ricardo Cruz

Particularmente falando, conhecer a história de Ricardo Cruz me serviu de inspiração para ir atrás de meus próprios sonhos e nunca desistir deles. Meu objetivo de vida, e acredito que deveria ser de todos, é conseguir conquistar algo no mesmo patamar das conquistas de Ricardo Cruz, dentro de minhas próprias ambições e sonhos. Você pode conferir minha admiração no vídeo a seguir, de quando eu consegui entrevistá-lo em nome do canal Tentáculo, durante o evento Rio Matsuri 2018.

Tentáculo: Entrevista com Ricardo Cruz

Para quem é fã de cultura japonesa, Ricardo Cruz é uma grande fonte de inspiração e admiração. Sua trajetória é digna de filme, e com certeza ele fez seu nome dentro do mundo da música.


ARTIGO DE VINI MIRANDA

Produtor de conteúdo, co-criador dos canais Tentáculo e Z Games, nerd fissurado.

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