Crítica | Ratched: o passado da vilã de Um Estranho no ninho sob o olhar excêntrico de Ryan Murphy

Ryan Murphy não para. O criador de Glee, American Horror Story, American Crime Story, Hollywood, dentre outras séries que deram muito o que falar, trouxe ao público mais uma série bem ao seu estilo; com personagens excêntricos e complexos, cenas tão chocantes que chegam a ser um pouco trashs, tramas bizarras, e uma estética impecável. Essa é Ratched, a mais nova série da Netflix, baseada no filme (1976) e livro (1962) Um Estranho no Ninho

A série tem como objetivo mostrar as origens da vilã, a enfermeira-chefe Mildred Ratched, que tratava os pacientes psiquiátricos com crueldade e frieza. Sendo que no livro (não li, mas dei uma pesquisa), sua maldade é bem mais explícita do que no filme. No longa, seu caráter maldoso ficou mais subentendido em nuances, olhares e pequenas falas e atitudes da personagem. Tanto é que no livro, a “terapia” em grupo comandada por ela era na verdade uma sessão na qual ela humilhava os internos do hospital, enquanto no filme, era uma terapia de fato (ainda que a personagem também se mostrasse tirana, como na cena em que o protagonista vivido por Jack Nicholson insiste para ela deixá-lo assistir o campeonato esportivo que passaria na tv). 

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Mildred Ratched de Um Estranho no Ninho/Mildred Ratched da série da Netflix

Protagonizada por Sarah Paulson (que já trabalhou com Murphy em American Horror Story e American Crime Story), Ratched mostra o que aconteceu na vida dessa mulher que desencadeou nos acontecimentos do filme. Vemos que ela teve um passado bem trágico, envolvendo o afastamento da mãe que era alcoólatra, sua passagem por orfanatos no qual ela sofreu diversos tipos de abuso físico e psicológico, até ser adotada por um casal que aparentemente parecia ser bons pais. Só que só aparentemente. Lá, ela e o irmão adotivo Edmund Tolleson (Finn Wittrock) são obrigados pelo casal a participar de um teatro de fantoches com “bonecos humanos”, que no caso era a própria Mildred e o Edmund. Eles tinham que ter relações íntimas forçadamente entre eles, com uma plateia de adultos os assistindo e ainda pagando pelo “show”. 

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Sarah Paulson e Ryan Murphy

Cansado dos maus-tratos, Edmund toma uma atitude. Numa noite, pega uma tesoura afiada e mata o casal, furando seus olhos. Mildred, assustada ao ver a cena, foge de lá após o próprio irmão pedir que ela faça isso. Passam anos e anos sem notícia de Edmund, até que ela fica sabendo que ele foi levado para um hospital psiquiátrico após assassinar um grupo de padres. Querendo impedir a possível execução do rapaz e se sentindo culpada por ter o abandonado, ela age de manipulação pra conseguir um emprego como enfermeira na instituição e, assim, ficar perto do irmão. 

Assim como Ratched, Edmund também teve um passado conturbado. Sua mãe era freira e foi estuprada por um padre, gerando sua gravidez. Edmund é fruto de um estupro, justificando assim seu ódio aos padres. No dia do massacre, seu pai foi um dos padres assassinados por ele. Além do estupro, ele também culpa o pai pelo que aconteceu com sua mãe depois. Ela foi parar num bordel, onde uma prostituta a ajudou a se matar com injeção de drogas, causando uma overdose. Devido a isso, Edmund foi mandado para diversos orfanatos até chegar naquele onde conheceu Mildred, que não era sua irmã biológica, mas foi registrada como tal. Isso porque uma assistente social que se compadeceu dos dois, falsificou os documentos para que eles passassem a ser irmãos perante a lei e nunca fossem separados. Então, ambos sempre eram enviados para o mesmo lar adotivo. 

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Mildred Ratched e Edmund Tolleson

Debate sobre homofobia e doenças mentais

Dois assuntos discutidos na série é o relacionamento homoafetivo/homofobia (tema que quase sempre é discutido nas produções do Ryan Murphy. Pra quem não sabe, ele adora colocar personagens homossexuais em suas histórias, até porque, ele também é gay e, portanto, a representatividade é algo muito importante para ele.) e a temática da saúde mental. 

A série se passa no final dos anos 40, período no qual a medicina e principalmente o tratamento das doenças mentais ainda era muito retrógrado. Era comum tratamentos super agressivos e desumanos como a lobotomia (retirada de uma parte do cérebro) e a antiga hidroterapia (prática terapêutica que consistia em colocar o paciente dentro de uma banheira com alta temperatura para depois colocá-lo numa banheira cheia de gelo, causando um choque térmico). Existia muita ignorância em relação à saúde mental e por isso, muitas doenças recebiam um tratamento inadequado às suas necessidades. A lobotomia, por exemplo, era utilizada em pacientes com depressão, sonambulismo, transtornos de ansiedade e até mesmo em casos de homossexualidade. 

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Prática de hidroterapia mostrada na série

Sem contar que ainda não havia um diagnóstico eficaz para vários sintomas, então, acabava por colocar todo mundo no mesmo buraco, faltando uma análise mais aprofundada das especificidades de cada doença mental. Como é o caso de um paciente ainda criança, mostrado na série, que dizia “sonhar acordado”, ter dificuldade de concentração e insônia. Hoje em dia, ele provavelmente seria diagnosticado com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou algum transtorno de ansiedade generalizada (TAG). Porém, naquele período a psiquiatria precisava avançar muito para compreender tais doenças. 

O preconceito e a ignorância eram tão grandes, que pessoas que sentiam interesse pelo mesmo sexo eram tidas como doentes mentais, como se a orientação sexual delas fosse causada por algum distúrbio no cérebro. É o que acontece com duas personagens lésbicas da série que conseguem fugir do hospital com a ajuda da Ratched. Elas passam pela cruel hidroterapia com o objetivo de serem curadas da homossexualidade. Essa, Inclusive, é uma das cenas mais pesadas da produção, pois mostra a mulher sendo praticamente queimada numa banheira com água fervendo. Visualmente é bem chocante. 

Um fato interessante é que a própria Ratched se revela lésbica ao longo dos episódios, formando um casal com a assessora do governador (Cynthia Nixon, a Miranda de Sex and The City) que está determinado a levar Edmund pra pena de morte afim de agradar os eleitores. 

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Gwendolyn e Ratched

Foi uma ótima escolha escalar justamente duas atrizes homossexuais para interpretar essas personagens e  talvez por isso que a atuação delas soou tão natural. 

Trama “confusa” e detalhista, bem ao estilo Ryan Murphy

Como já é de praxe em produções do Ryan Murphy, a trama de Ratched pode parecer um pouco confusa para aqueles mais dispersos. É uma série que mistura algumas histórias paralelas que vão se conectando ao longo da narrativa e muitos detalhes. Ou seja, se não prestar atenção se perde mesmo. 

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Não que o que é contado seja difícil de entender. Não é isso. Na verdade, como já foi dito, é bem detalhado e explicado. Só que a velocidade de informações que são dadas a cada episódio requer bastante concentração e foco do espectador. Não é uma série pra maratonar, o mais recomendável é assisti-la aos pouquinhos, um episódio por dia (são apenas 8 no total, com uma hora de duração cada), saboreando devagar o desenvolvimento de cada personagem, roteiro, direção, figurino e, toda sua produção impecável. 

E falando em produção, é preciso bater palmas para a ambientação da série. Principalmente os cenários e iluminação. Todos os detalhes estão de acordo com a proposta da trama e servem para nos causar as emoções que cada cena deseja passar. O uso de luzes coloridas (ver imagens abaixo!) pra expressar os sentimentos dos personagens e aquilo que está por vir é algo que chama muita atenção em Ratched, tornando-a visualmente bonita de se ver. 

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Personagens complexos

Acima da parte estética, o que enche mais os olhos na nova produção de Ryan Murphy são seus personagens. Murphy adora criar personagens excêntricos, complexos, que cometem atos chocantes ao longo do caminho. E com Ratched não podia ser diferente, começando pela própria protagonista. 

Além de Mildred, outros personagens mereciam uma série só pra eles, com destaque pra personagem da Sophie Okonedo, Charlotte Wells, uma mulher que depois de sofrer um trauma envolvendo sequestro e diversos abusos físicos e psicológicos, desenvolve transtorno dissociativo de personalidade. 

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Charlotte Wells e Dr. Hanover

Outro personagem interessante é a enfermeira-chefe Betsy Bucket (Judy Davis) e sua relação com a Mildred. As duas começam como inimigas e terminam a temporada sendo amigas. No início, existe uma competição entre elas, com Mildred confrontando a outra e pondo à prova sua autoridade no hospital. Porém, com o passar do tempo, elas se unem para derrubar o médico responsável pela clínica, Dr. Hanover (Jon Jon Briones), e cria-se uma aliança e cooperação entre elas. 

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Mildred e Betsy

Aliás, uma das cenas mais bonitas da série é quando após Betsy ser humilhada na frente de todos por Dr. Hanover, Mildred e Gwendolyn secam as lágrimas dela e ajudam ela a se recompor. Mildred levanta a autoestima de Betsy ao dizer-lhe palavras empoderadoras. O interessante é que no começo da série, Betsy, a mando de seu chefe, submete duas mulheres homossexuais a um tratamento super agressivo e, no final, ela se torna amiga de um casal de lésbicas. 

Mas, claro, que a personagem tinha pensamentos homofóbicos por ser uma vítima da época. Ela não tinha consciência de seu próprio preconceito, assim como Dr. Hanover também não tinha. Nos anos 40 ainda não havia clareza sobre questões de orientação sexual como há hoje em dia. Tudo que não era compreendido era taxado como doença. Por isso foi legal acompanhar a evolução da Betsy do início pro fim da temporada. 

Outro ator que arrasou, apesar de ter aparecido em poucas cenas, foi o Brandon Flyyn (o Justin de 13 Reasons Why), na pele de um garoto mimado e perturbado. Como sua mãe, temos a presença de Sharon Stone interpretando uma milionária que deseja vingar-se de Dr. Hanover pelo que ele supostamente fez com seu filho. É muita gente talentosa num único elenco! 

Click on Twitter: "A Netflix divulgou as primeiras imagens oficiais de  “Ratched”, nova série de Ryan Murphy! Estrelada por Sarah Paulson, veremos  no elenco também Finn Wittrock, Judy Davis, Charlie Carver e
Sharon Stone e Brandon Flyyn em cena de Ratched

Sequência

Ryan Murphy revelou que está planejando quatro temporadas de Ratched. Na última haverá conexão com o filme, trazendo McMurphy (o protagonista de Um Estranho no Ninho, vivido por Jack Nicholson) para a vida da enfermeira e dando início a todos os conflitos vistos no longa. 

Agora só nos resta esperar pra ver como serão os próximos passos da transformação da Mildred Ratched da série na famosa vilã do cinema. 

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