Resenha | “Júlia – As aventuras de uma criminóloga”, de Giancarlo Berardi

Pense nos detetives mais marcantes da cultura pop; pensou? Achou difícil se lembrar de algum? Vou ajudar: Sherlock Holmes, que ganha vida nas páginas e nas palavras de Sir Arthur Conan Doyle; Hercule Poirot, o detetive belga que é a estrela dos contos e romances de Agatha Christie; inspetor Maigret, o detetive de Georges Simenon; Auguste Dupin, o exibido, embora preciso, detetive dos contos de Edgar Allan Poe, dos quais se destaca “Os assassinatos da Rua Morgue”; Sam Spade, o detetive particular de Dashiell Hamett em O falcão maltês, grande clássico da literatura policial.

Ficamos apenas na literatura; se fôssemos abarcar os grandes detetives das telonas, certamente a lista não teria fim. Os quadrinhos também abrem espaço para boas histórias policiais envolvendo detetives; uma das mais notáveis personagens do gênero é Júlia Kendall, a criminóloga criada pelo italiano Giancarlo Berardi. Neste post, comentarei as três primeiras edições lançadas no Brasil pela editora Mythos: Os olhos do abismo, Objeto de amor e Na mente do monstro, que juntas compilam um único arco envolvendo as atrocidades de Myrna Harrod, a serial killer do enredo.

A criminóloga Júlia Kendall, cujo visual é inspirado na atriz Audrey Hepburn.

Júlia Kendall é uma criminóloga e professora universitária que leciona na Universidade de Garden City, cidade em que vive e atua. Além do magistério, Kendall presta serviços para a polícia local, auxiliando na resolução de crimes a partir da análise comportamental que faz dos suspeitos procurados. Seus principais parceiros da polícia são Ben Irving e o tenente Alan Webb, com quem mantém uma relação muito complicada de compreensão e raiva, tudo em questão de minutos ou poucas situações que despertam rusgas entre os dois. Este, aliás, é um dos fatores mais interessantes e mesmo divertidos da trilogia.

A história se inicia na primeira edição (Os olhos do abismo), com misteriosas mortes de mulheres jovens que, aparentemente, não têm nada em comum. É bom frisar que a narrativa não poupa cenas de violência explícita e nudez, de modo que a trilogia é recomendada para maiores de 18 anos. Já nas primeiras páginas da edição em questão, mostra-se uma refém amarrada que é brutalmente assassinada a golpes de bisturi. Nessa cena, é possível notar a paixão de Berardi pelo cinema, tendo em vista que a narrativa é bastante inspirada em filmes de suspense e terror, como os de Alfred Hitchcock; a sequência em que é mostrado o assassinato, inclusive, é bem visceral, e termina com o sangue cobrindo todo o espaço dos quadros.

Capa da primeira edição – Os olhos do abismo.

Um aspecto interessante das histórias de Júlia é o fato de elas terem sido concebidas em preto e branco; isso potencializa ainda mais o caráter noir de obras detetivescas, dando à narrativa um tom mais soturno e misterioso, sem que ela fique tão confusa para quem está acostumado a apenas ler gibis coloridos, mesmo que a qualidade das artes caia consideravelmente nas edições 2 e 3 (Objeto de amor e Na mente do monstro, respectivamente).

Como a polícia de Garden City parece estar em uma sinuca de bico no que diz respeito à resolução do primeiro assassinato mencionado, o tenente Webb contata Júlia Kendall para que ela possa ajudar a investigação com suas análises comportamentais bastante minuciosas, que em muitos momentos serve para implantar falsas pistas, com o objetivo de surpreender o leitor. Em um dos interrogatórios conduzidos pela criminóloga, deixa-se entender que o criminoso era um rapaz racista que não tinha receio de expor seu posicionamento preconceituoso. Como se sabe, essa hipótese é descartada ao longo do enredo, literalmente nas últimas páginas da edição 1.

Esta página exemplifica a relação entre quadrinhos e cinema tão valorizada por Giancarlo Berardi; observe como parece haver um movimento de câmera partindo dos olhos da refém e se afastando deles, para mostrar um contexto mais amplo.

O apurado trabalho de análise feito por Júlia Kendall é o que conduz a narrativa a um plot twist interessante; o leitor convencional ou menos atento poderia crer que o assassino é um homem, tendo em vista que a maioria das histórias policiais tem esse papel representado por pessoas do sexo masculino. Nas últimas três páginas da história, Kendall alerta aos policiais, já na cena em que se passaria a prisão do criminoso, que eles estavam seguindo o suspeito errado, avisando que a assassina era Myrna Harrod, uma jovem que trabalhava ajudando o pai na zeladoria de uma escola. Ela já havia aparecido ao longo do gibi, mas sem levantar suspeitas de suas ações, o que evidencia a destreza de Berardi na condução da narrativa.

Nas edições 2 e 3, já se conhece o criminoso, então ambas abordam a busca desenfreada por Myrna. Em Objeto de amor, há uma acentuação do caráter homoerótico da história; Myrna Harrod é homossexual, e existem diversas cenas sensuais dela com outras mulheres, o que representaria uma quebra forte de tabu, pois a trilogia de Júlia Kendall foi publicada pela primeira vez no Brasil nos anos 1990, quando não havia tanta abertura quanto hoje no que tange a essa temática.

Fica aqui, também, o alerta de gatilho! Nas edições 2 e 3, são mais evidentes cenas violentas e até mesmo de suicídio, algo não muito explorado e comentado pela sociedade da época.

Capa de Objeto de amor.

Um fator bastante interessante e intrigante é o fato de Júlia Kendall ter um diário no qual expõe anseios, medos e tensões, e o leitor tem acesso a isso. Esse recurso ajuda a delinear a personalidade da criminóloga, que parece nunca estar em paz e segura com sua ocupação. Alguns incidentes não ficam claros ao longo da narrativa, mas se sabe que algo aconteceu com Júlia que a atormenta quase diariamente. Nas duas últimas edições, já sabendo quem a persegue, Myrna Harrod promete fazer Júlia pagar por sua intromissão em seus planos maléficos e criminosos. O encontro das duas ocorre finalmente ao final da edição 2, mas não passa disso; ao tentar matar a mãe em razão de traumas da infância, Myrna é impedida pelos policiais, que, com ajuda de Kendall, intervêm de modo certeiro para interromper o matricídio.

Capa de Na mente do monstro.

Na edição 3, há o desfecho da história. A polícia de Garden City ainda continua na cola de Myrna, que muda de identidade para despistar os investigadores. É, talvez, o clímax do quadrinho, porque é nessa edição que Júlia é finalmente capturada pela criminosa. É nessa edição, também, que Kendall finalmente se encontra com sua irmã Norma, que é modelo e tem sérios problemas com o uso de drogas. A relação entre as duas era mostrada de modo apenas pontual nas edições anteriores, por meio de conversas telefônicas pouco amigáveis.

Como dito anteriormente, a qualidade da arte veio caindo ao longo das três edições, e é na edição 3 em que ela está pior. Os desenhos são pouco técnicos. Apesar disso, o roteiro não é prejudicado por essa queda; a história se mantém interessante e cativante.

Júlia Kendall tem uma publicação longeva no Brasil, chegando próximo do número 160. São muitas histórias e reviravoltas, mas o arco de Myrna Harrod se completa na referida trilogia, não sendo necessário adquirir edições além das três primeiras para compreendê-lo totalmente.

Vale lembrar, ainda, que a editora Mythos é responsável por outras publicações igualmente interessantes e divertidas, como Tex, um ranger texano que protagoniza histórias de faroeste, Dylan Dog e Zagor. Quem sabe eu não volto para fazer outras recomendações da editora? Espero que curta; boa leitura… e cuidado com Myrna.

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