Resenha | “A teia da Viúva-Negra: conto de espiões”

Costumo dizer que uma boa história de espionagem sempre deixa dúvidas: O protagonista é herói ou vilão no enredo? Existem, de fato, heróis e vilões? Quais são os objetivos principais do espião ou de quem o comanda? Acredito que cada espectador/leitor tenha os próprios questionamentos ao deparar com narrativas com essa temática. Não é diferente com A teia da Viúva-Negra: conto de espiões, uma das mais recentes publicações da Marvel Comics no Brasil.

Conto de espiões se trata de um história em quadrinhos publicada pela editora Panini, composta de cinco edições do gibi Web of Black Widow. O legal dessa HQ é o fato dela iniciar e encerrar em um mesmo encadernado, o que pode deixar o leitor curioso mais tranquilo, já que ele não precisará correr atrás de continuações ou de algo que tenha sido lançado antes; quer dizer… mais ou menos. Mas daqui a pouco eu falo disso.

Capa de A teia da Viúva-Negra: conto de espiões.

O gibi foi idealizado por uma equipe criativa relativamente nova dentro da Marvel; com roteiros de Jody Houser, arte de Stephen Mooney e colorização de Triona Tree Farrell, Conto de espiões é uma história mais “pé no chão”, que foca backgrounds de Natasha Romanoff e os associa muito pontualmente ao envolvimento da personagem com os Vingadores. De maneira geral, o leitor é apresentado a flashes do passado da Viúva-Negra, a letal assassina que rouba a cena em diversas HQs.

A propósito, esses flashbacks são um aspecto bastante positivo da narrativa, pois eles ajudam a entender o passado da personagem, como ela se tornou uma assassina leal à Sala Vermelha e quais são os tormentos dos quais Natasha deseja se livrar. Além disso, as memórias que integram o enredo não são colocadas de forma pedante ou lenta, de forma que o plot avança sem atravancamentos ou pausas desnecessárias.

Já no início da história, entendemos um pouco os objetivos da Viúva-Negra: ela deseja eliminar todos os resquícios de seu passado sombrio, o que implica assassinar ou prejudicar herdeiros de antigos clientes da Sala Vermelha, em que “cliente” pode ser entendido como “alvo”. Ao longo das cinco edições, Romanoff age na surdina para dar cabo desses herdeiros, mas sempre é interrompida por uma espécie de contraparte sua, que, a princípio, torna a história bastante confusa.

Nesta página, descreve-se uma das recordações da Viúva-Negra.

A tal contraparte sempre está vigiando a Viúva-Negra “original”, pronta a interromper todas as ações dela. No decorrer do gibi, o roteiro explica, por meio de diálogos e descobertas, que a contraparte era, na verdade, a russa Anya, uma das mulheres treinadas na Sala Vermelha, assim como Natasha Romanoff. Antes de descobrirmos a identidade, ficamos nos perguntando quem é a pessoa disfarçada de Natasha e por que ela está fazendo isso. Nesse sentido, Houser faz um ótimo trabalho nos roteiros, instigando no leitor a curiosidade, que só é desfeita nas últimas duas edições.

Aqui entra um fator que pode desagradar leitores mais ocasionais de quadrinhos; anteriormente eu havia dito que Conto de espiões não está tão livre assim da cronologia da Marvel; vamos às explicações. Por sorte, o quadrinho faz referências a apenas dois outros gibis da editora: a saga Império Secreto, que causou certa polêmica por trazer o Capitão América como um agente da Hydra, organização que levou a vida combatendo; e Contos de suspense: Gavião Arqueiro e Soldado Invernal, outra HQ com uma pegada bem interessante de espionagem.

Durante os eventos de Império Secreto, a Viúva-Negra foi morta pela versão maligna do Capitão América. Contudo, como nada nos quadrinhos é definitivo, Natasha Romanoff volta à vida em Contos de suspense, o que deixa Clint Barton e Bucky Barnes muito intrigados; se Steve Rogers matou a Viúva-Negra, como ela pode estar agindo bem embaixo do nariz de dois dos mais competentes agentes da Marvel? A resposta está neste mesmo gibi: existe uma nova versão da Sala Vemelha, organização russa que prepara agentes letais para trabalhos pouco amigáveis, como assassinatos, roubo de dados, sequestros, entre outros. E essa nova versão sempre se certifica de “repor” suas melhores agentes caso elas morram em serviço. “Como?”, você pergunta; eu respondo.

Capa de Contos de suspense: Gavião Arqueiro e Soldado Invernal

Para ter estoque de boas agentes, a Sala Vermelha se vale de técnicas de clonagem e compartilhamento de memórias das Viúvas-Negras que morreram, o que pode ser bom ou ruim, a depender de que memórias a organização reimplanta no clone. No caso de Natasha Romanoff, ela foi auxiliada por Ípsilon Vermelho, um cientista que aparece em um estado quase vegetativo depois de ter posto duas das melhores Viúvas-Negras de volta à ativa: Natasha Romanoff e Yelena Belova.

No caso da primeira, Ípsilon Vermelho implantou todas as memórias da Natasha que já havia falecido em Império Secreto, então, ainda que ela tenha voltado a atuar por ordem da Sala Vermelha, ela consegue se lembrar do que aconteceu até aquele momento. Assim, para evitar esse abuso de autoridade e fazer com que essas ações de clonagem não mais ocorressem, Natasha é auxiliada por antigos colegas a matar membros da organização e a destruir todo o local em que a Sala Vermelha se localizava. Dessa forma, em tese, Natasha daria cabo de boa parte de seu passado, além de evitar que o vilipêndio aos agentes mortos em combate se perpetuasse.

Viúva-Negra de posse do braço metálico do Soldado Invernal e do arco do Gavião Arqueiro.

Bem, acho que já deu de contar histórias; o fato é que tudo isso se reflete em Conto de espiões. Destruir a Sala Vermelha não parece ter sido suficiente para que Natasha Romanoff pudesse finalmente dormir em paz; era necessário retomar antigos desafetos para que isso, de fato, nunca mais a perturbasse. Mas existe Anya; e Anya se manteve fiel à Sala Vermelha.

Na última edição, Anya diz à Romanoff que estava representando um novo modelo de negócio em relação à Sala Vermelha, que seria criar uma nova organização, com os mesmos princípios, para se proteger da antiga. Vale lembrar que lealdade à Sala Vermelha é um princípio basicamente inviolável, o que justifica as tentativas de Anya de parar Natasha o quanto antes.

Cena de luta entra Natasha e Anya (disfarçada de Natasha); destaque para o ótimo trabalho narrativo de Stephen Mooney.

Já ao final da história, quando tudo parecia frustrado para a Viúva-Negra, os Vingadores surgem para ajudá-la a se livrar. Na verdade, essa aparição já estava arquitetada desde o início, de maneira bem sutil e imperceptível, o que demonstra, mais uma vez, a habilidade de Jody Houser na condução do roteiro. Os Vingadores pareciam, na verdade, contrários às ações de Romanoff, o que teria levado o Gavião Arqueiro a dar uma flechada na perna de sua colega e outrora amante; mas mesmo isso fazia parte do plano, conforme se verá no desfecho do arco.

Este, aliás, é um ótimo momento para acompanhar a Viúva-Negra nos quadrinhos. Além de Conto de espiões, está saindo nas bancas Viúva-Negra: prelúdio, uma edição curtinha em capa cartonada e com 40 páginas que se propõe a ser uma espécie de introdução ao que vai se desenrolar no filme da personagem, que está previsto para 2021.

Capa de Viúva-Negra: prelúdio, história recentemente lançada pela Panini Comics.

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