Resenha | “O espetacular Homem-Aranha: Até as estrelas esfriarem”

Com o perdão da péssima piada, 2020 tem se mostrado um ano “espetacular” para leitores e fãs do Homem-Aranha. O Cabeça-de-Teia vem chamando a atenção não só por novidades há pouco reveladas, a exemplo da quentíssima informação segundo a qual o Dr. Estranho será o mentor do jovem herói no terceiro filme de Tom Holland, mas também em razão das diversas publicações de quadrinhos protagonizadas pelo alter ego de Peter Parker.

Tem Homem-Aranha pra todos os gostos; desde publicações que buscam retomar as origens urbanas do personagem, como Homem-Aranha: História de vida, de Chip Zdarsky e Mark Bagley, e Amigão da vizinhança, de Tom Taylor, passando por histórias de Miles Morales, Homem-Aranha criado por Brian Michael Bendis para o universo Ultimate da Marvel, até coleções inteiras dedicadas ao personagem, a exemplo de Marvel Saga, cujo início se deu em julho deste ano com a publicação do clássico gibi O espetacular Homem-Aranha: De volta ao lar. Isso tudo sem considerar as edições mensais que saem nas bancas e os games para PlayStation e XBox.

A segunda edição da mencionada coleção Marvel Saga do Homem-Aranha é O espetacular Homem-Aranha: Até as estrelas esfriarem e compila as histórias The Amazing Spider-Man 36, 39, 40, 41, 42, 43, 44 e 45, de John Michael Straczynski (roteiro) e John Romita Jr. (desenhos). Trata-se de uma edição marcante, pois o número 36 de The Amazing Spider-Man é uma das primeiras respostas de toda a cultura pop para o fatídico atentado terrorista às Torres Gêmeas e ao Pentágono, nos EUA, em 11 de setembro de 2001.

Capa de The Amazing Spider-Man #36, HQ em homenagem aos heróis que buscaram resgatar os feridos em decorrência do atentado terrorista às Torres Gêmeas, isto é, bombeiros, soldados, policiais, etc.

The Amazing Spider-Man 36 recebeu uma capa preta, diferente do que costuma ocorrer no mercado de quadrinhos ao redor do mundo, representando o luto pelas vidas ceifadas em razão do atentado.

Em relação ao enredo, o corpo editorial da Marvel Comics decidiu desenvolver histórias silenciosas, sem diálogos, mostrando apenas a ação de resgate de bombeiros e super-heróis diante de milhares de escombros. Para ser justo, existem apenas duas falas bem no início da HQ, que são de civis buscando fugir da coluna de fumaça e fuligem advinda da queda das torres. Eles perguntam, incrédulos, ao Homem-Aranha:

Onde você estava!? Como deixou isso acontecer!?

O Cabeça-de Teia, como é de se esperar, não tem resposta para tão dura e incisiva pergunta. E não deveria ter; ao longo da história fica claro que o trágico evento não foi previsto nem mesmo pelos mais preparados e inteligentes Vingadores, que estiveram ao lado do corpo de resgate para salvar o máximo de acidentados possível.

O trabalho sem diálogos ressalta a qualidade do roteiro e da narrativa gráfica proposta por John Romita Jr. (conhecido como JRJR ou “Romitinha”, já que é filho do grande desenhista John Romita Sr., que também se notabilizou em histórias do Homem-Aranha no fim dos anos 1960). Em nenhum momento o leitor se sente cansado ou perdido no gibi, o que também indica a qualidade da equipe criativa, ainda que haja alguns problemas pontuais na anatomia dos personagens que se repetem nas edições posteriores.

O Homem-Aranha observa os profissionais de resgate na retirada de escombros após a queda das Torres Gêmeas; o herói, a princípio, parece atordoado, sem saber como começar a ajudar. Veja que, além dos profissionais, Capitão América, Thor, Coisa e Demolidor também auxiliam no resgate de vítimas.

Apesar do tom de tristeza, os questionamentos feitos pelo Aranha ao longo da curta história, por meio dos recordatórios, indicam alguma nesga de esperança, respeito e paz, algo do qual ele deseja fazer parte a fim de tornar o mundo um lugar mais humano e com mais amor. A última página de The Amazing Spider-Man 36 traz soldados, médicos, bombeiros e alguns super-heróis reunidos; há, também, uma frase simples: “Levante a cabeça”.

Logo depois de The Amazing Spider-Man 36, têm início as edições de 39 a 45, que são uma continuação direta da HQ O espetacular Homem-Aranha: De volta ao lar. Ao final desta, May, a amada tia de Peter Parker, descobre que seu sobrinho é, na verdade, o Homem-Aranha, ao encontrá-lo deitado na cama com seu uniforme e cheio de ataduras e feridas no corpo. May se mostra bastante surpreendida com a descoberta, como se vê na imagem a seguir.

Tia May segura restos do uniforme de seu querido sobrinho Peter.

A edição 39 mantém o clima da história que se passa após os eventos de 11 de setembro; não há diálogos na HQ, de forma que o enredo avança com a impecável narrativa gráfica, que se vale de recursos como mudança de horários no relógio para indicar passagem de tempo, além de sequência de quadros para indicar ações sucessivas. Novamente, tudo sem ficar tedioso e chato e tudo bem explicado e compreensível. Nesta primeira parte, vê-se a tia May tentando assimilar o fato de seu sobrinho ser o Homem-Aranha, bem como o fato de ela nunca ter sabido disso por meio de Peter ou mesmo de Mary Jane, a amada do rapaz na fase Straczynski/Romita Jr.

Além disso, nessa primeira edição, vemos Mary Jane tentando avançar em sua carreira como modelo e atriz; a personagem aparece posando para fotos e comparecendo a première de filmes. Há, ainda, outros quadros nos quais o Homem-Aranha vê imagens de Mary Jane em telões espalhados por Nova York.

O verdadeiro conflito do herói se inicia na edição 40, em que alguns garotos jovens que tentam se livrar das drogas desaparecem misteriosamente. Uma das alunas de Peter Parker, que se tornou professor de Ciências na escola em que estudou quando garoto, o procura para ajudar a solucionar esse mistério. Para dar prosseguimento às buscas, o Homem-Aranha faz contato com um tenente da polícia local, que o leva a um prisioneiro com informações importantes.

O que começa como um “simples” problema urbano termina como algo além da alçada do Cabeça-de-Teia: o Homem-Aranha descobre que, na verdade, o desaparecimento dos garotos faz parte de um plano de um malfeitor chamado Sombra, cujos poderes são ficar intangível e fugir para outras dimensões. O prisioneiro ao qual o Homem-Aranha foi levado revela dados importantes: Sombra tentou adquirir um poder místico, mas houve uma falha no ritual em que o vilão recebeu esse poder. A falha faz com que ele viva em uma espécie de limbo entre a dimensão real e uma outra dimensão, e, para que isso seja sanado, ele precisa dos garotos como uma espécie de troca. Essa situação é mais bem explicada pelo Dr. Estranho, o mestre das artes místicas, a quem o Homem-Aranha pede ajuda para resolver o problema:

Deve haver um equilíbrio para todas as coisas. Pode ser que, para voltar à Terra por algum período de tempo, ele tenha de restabelecer esse equilíbrio levando alguém daqui para o plano astral, conseguindo, assim, agir em nossa realidade.

O Homem-Aranha consegue resolver essa situação e mandar os garotos para a sua dimensão real, mas isso o leva a uma outra questão, dessa vez pessoal: por estar agindo em prol da garotada, Peter não conseguiu encontrar Mary Jane no aeroporto de Nova York em viagem que fez de Los Angeles. Parker havia prometido a sua amada que a encontraria no local, e sua “pisada na bola” fortaleceu ainda mais a insegurança de MJ, que se cansou de ficar em segundo lugar na vida do herói.

Vale dizer, também, que a questão mística relacionada ao universo do Aranha já havia sido abordada em De volta ao lar; como uma estratégia de renovar as histórias do personagem, mas sem perder de vista os aspectos clássicos deste, Straczynski e Romita Jr. associam a origem do Cabeça-de-Teia ao totemismo, uma relação ancestral com o símbolo da aranha. Essa abordagem nunca havia sido feita na cronologia do aracnídeo, o que demonstra a coragem da equipe criativa em De volta ao lar.

Como se não bastassem os problemas pessoais, o Homem-Aranha ainda deveria lidar com outras questões tão ou mais graves: desta vez, não havia apenas um Doutor Octopus de volta à ativa, mas dois.

O Aranha e os “dois Octopus”.

Antes desse confronto, Otto Octavius foi convidado por um cientista de índole duvidosa chamado Carlyle para, em tese, vender patentes e informações relacionadas aos tentáculos que usa como arma. “Em tese” porque, em seguida, tudo se revelou um plano do cientista para se apropriar e aperfeiçoar a tecnologia do Dr. Octopus.

Ao longo das histórias do Aranha, vemos que poderes trazem responsabilidades, mas também ambições cegas. É o que define Carlyle; ao aprimorar o mecanismo de Octavius, o cientista usa sua versão dos tentáculos para cometer roubos e se autoafirmar como um bom cientista no mercado. Contudo, ele não esperava que Octavius, que havia sido aprisionado por Carlyle, voltaria para combatê-lo.

A luta entre os “dois octopus” ocorre em um hotel, o que põe em risco a vida de dezenas de hóspedes. O Homem-Aranha é alertado por seu sentido aranha e vai até o hotel para entender o que está acontecendo, deparando-se com um cenário de completa destruição. Sua preocupação imediata é salvar os inocentes, ação para a qual pede a ajuda do Dr. Octopus (o verdadeiro). O cientista corresponde, mas, assim que os hóspedes conseguem fugir, ele deixa todo o prédio desmoronar sobre Peter Parker.

Assim, o Homem-Aranha se vê entre a vida e a morte, algo que retoma sagas clássicas nas quais os heróis dependem unicamente da própria força para sobreviver. Parker busca recobrar a consciência e o ar que lhe faltava, em uma sequência de quadros e páginas de “tirar o fôlego” (mais uma vez com o perdão da piada). Novamente o trabalho de Romitinha se mostra ótimo, dando à cena da fuga do Homem-Aranha uma tensão própria que deixa o leitor aflito.

O desejo de retorno ao clássico é evidente em outras particularidades de Até as estrelas esfriarem; o uniforme do Homem-Aranha, por exemplo, se remete aos desenhos de Steve Ditko, criador do Aranha em parceria de Stan Lee, de John Romita Sr., especialmente em relação às teias embaixo das axilas do personagem. O Dr. Octopus também é desenhado segundo os moldes dos anos 1960 e 1970, com a roupa verde que lhe era peculiar nesse período.

Capa de Até as estrelas esfriarem.

O Homem-Aranha consegue combater, com a ajuda de Otto Octavius, o impostor; Otto diz para Peter que havia uma fenda na parte de trás dos tentáculos do vilão e que os ataques deviam se concentrar ali. Parker ouve a orientação e ataca as costas de Carlyle, que cai e perde a batalha. Dessa vez, não há truques: Octavius ajuda Peter e apenas foge, sem trapaceá-lo uma segunda vez, o que denota uma surpresa por parte dos roteiros.

Depois da fase clássica de Stan Lee e Steve Ditko, ou de Stan Lee e Romita Sr. (responsáveis pelo clássico A morte de Gwen Stacy), a run de John Straczynski e Romita Jr. é uma das melhores do Homem-Aranha, por retomar conceitos da fundação do personagem e por inovar de modo natural, sem “forçar a barra”. Vamos esperar pelos próximos números da coleção Marvel Saga para ver que surpresas aguardam o aracnídeo da Casa das Ideias.

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