Crítica | Mulan – A lenda sob nova roupagem

A cultura asiática atualmente tem muita influência no mundo do entretenimento. A China principalmente. A versão live action da Mulan da Disney é um exemplo do quanto um estúdio está disposto a agradar um mercado, mesmo que isso signifique sacrificar a identidade de seu próprio projeto. Baseada na animação lançada em 1998, que por sua vez é uma adaptação da famosa lenda de Mulan escrita entre os séculos II e IV d.C., será que essa nova história dirigida por Niki Caro é digna da original?

No filme, nós acompanhamos a trajetória de Hua Mulan (interpretada por Yifei Liu), uma jovem que não segue as tradições de sua cultura, que dizem que as mulheres devem se dedicar unicamente ao lar e ao seu marido, enquanto os homens fazem o serviço pesado, incluindo lutar em guerras. Não seguir essas tradições significa não trazer honra à sua família, e isso é algo que os chineses daquela época valorizavam bastante.

Porém, quando seu pai, o veterano de guerra Hua Zhou (Tzi Ma) é convocado para servir novamente ao exército, Mulan decidiu arriscar tudo para salvar a vida de seu pai. Zhou é um homem debilitado devido à última guerra que batalhou, e sua morte seria certa se ele lutasse novamente. Sendo assim, Mulan se disfarçou de homem, roubou a armadura e a espada de seu pai, e foi em seu lugar para lutar pelo seu país, mesmo sob o risco de receber pena de morte caso seja descoberta.

E assim, seguimos acompanhando as aventuras de Mulan nessa empreitada, onde ela comprova para todos (dentro e fora das telas) que “a flor que desabrocha na diversidade é a mais rara e bela de todas”.

Feminismo desnecessário?

De uns tempos pra cá, a indústria do entretenimento tem recebido cada vez mais títulos que abordam o feminismo. Alguns de maneiras mais diretas e outros mais nas entrelinhas. Franquias que antigamente não davam espaço para personagens femininas também estão começando a mudar. No caso de Mulan, a mensagem feminista já faz parte do cerne de sua história. Afinal, estamos falando de uma trama onde uma mulher chinesa, vivendo uma época onde mulheres não têm direito à quase nada, PEGA UMA ESPADA E VAI PRA GUERRA. E no final ainda conquista o respeito de todos, desde os homens com quem lutou lado a lado, os inimigos que enfrentou, os familiares que não acreditavam no seu potencial, e até mesmo do próprio Imperador (que, vale mencionar, nesse filme foi interpretado pelo grande Jet Li). Foi assim na animação de 1998, foi assim em outras adaptações da mesma história fora da Disney, e foi assim também nessa nova versão lançada em 2020. Então se você não espera ver uma mensagem feminista nessa história, certamente você não conhece ou não entendeu a lenda de Mulan.

Enaltecendo a cultura chinesa

Apesar de todos (ou pelo menos a maioria) adorarem o filme animado feito nos anos 90, ele não foi lá muito preciso em relação à cultura chinesa, e por conta disso foi altamente criticado no lado asiático do mundo. Elementos históricos e mitológicos não foram retratados da maneira mais precisa de todas, o que resultou em reclamações por parte dos chineses e aqueles que idolatram a cultura. E devido a isso, a Disney se preocupou em ser bem fiel aos costumes chineses, tanto na parte cultural como até mesmo, na estética de filme chinês. Percebemos esse enaltecimento ao vermos a importância que a narrativa dá ao chi, que seria a força vital existente em todos os seres vivos e até não-vivos.

O chi em Mulan é retratado como algo basicamente sobrenatural, como se fosse uma espécie de fonte mágica dentro do corpo das pessoas. A fim de comparação, talvez um pouco injusta dependendo do ponto de vista, não é muito diferente do que vemos em alguns animes japoneses, como o ki da franquia Dragon Ball ou o chakra na franquia Naruto. Esse filme mostra o chi como a principal razão do diferencial de Mulan para com as outras mulheres. Aparentemente essa energia residente dentro da protagonista era muito grande, e graças a isso ela desenvolveu suas habilidades quase que sobrenaturais, como os altos pulos e os reflexos praticamente sobrehumanos.

Sim, algo que dá pra notar nesse longa é uma grande presença de elementos místicos. Não que a animação também não tivesse, mas o foco aqui é bem maior. Isso permitiu a história tomar rumos um pouco diferentes, como as aparições da Fênix em momentos determinantes da narrativa. A Fênix chinesa, também chamada de Fenghuang, simboliza a virtude, o dever, a adequação, a fé e a clemência, além de recomeço e equilíbrio. Sua presença na história é sempre para guiar Mulan ou para mostrar que ela está no caminho certo. É uma forma mais mística e até “divina” de conduzir a personagem, do que foi o cômico e adorado Mushu na animação de 98.

Outro caso interessante é a presença da feiticeira Xianniang (Li Gong), que é literalmente uma bruxa capaz de feitos como assumir formas de pessoas e animais, gerar ondas de energia, e por aí vai. O termo “bruxa” é bastante usado aqui. Aparentemente mulheres com grande quantidade de chi são consideradas bruxas nessa história. Isso pode ser considerado uma alusão ao fato dos direitos das mulheres serem extremamente limitados naquela época, e qualquer mulher que tentasse ser mais do que lhe era permitido era vista com maus olhos pela sociedade. Xianniang serve como uma opositora à Mulan, e a retratação do que a protagonista se tornaria se ela fosse rejeitada pelas demais pessoas.

A presença do chi, de elementos sobrenaturais, lutas com piruetas e outros movimentos exagerados, entre outras coisas, pode ser considerada uma alusão ao estilo típico de filmes épicos chineses. Outros títulos clássicos como O Tigre e o Dragão (2001), Herói (2002), O Clã das Adagas Voadoras (2004) e O Reino Proibido (2008) são fortes exemplos de possíveis inspirações para o estilo narrativo de Mulan. Sendo assim, não tem como negar que esse novo longa-metragem, mesmo sendo feito por mãos ocidentais, tem a alma (ou seria o chi?) de uma produção oriental.

Trailer de O Tigre e o Dragão:

Trailer de Herói:

Trailer de O Clã das Adagas Voadoras:

Trailer de O Reino Proibido:

Por que está tão diferente?

Se compararmos com outras produções recentes da Disney, como A Bela e a Fera (2017) e Aladdin (2019), Mulan não se preocupa em ser 100% fiel à animação a qual ela se baseia. Existem sim elementos semelhantes entre as duas obras, mas o “recheio” é outro. Essa nova adaptação é tratada como “uma nova forma de se contar a lenda”, tal como é afirmado pelo próprio narrador no início da história, que diz que “vai contar do jeito dele”. Ou seja, assim como as histórias, lendas e mitos são recontadas em várias versões, vários pontos de vista, ao longo das eras, essa nova narrativa apresentada no filme é tratada como apenas mais uma versão entre várias que já foram e ainda serão contadas.

Mesmo assim, ainda é uma produção da Disney baseada em uma animação clássica da Casa do Mickey Mouse, então nós conseguimos identificar algumas semelhanças. Por exemplo, temos a presença do trio Yao (Chen Tang), Ling (Jimmy Wong) e Po (Doua Moua), assim como o Conselheiro Imperial (Nelson Lee), porém os papéis dos 4 personagens foram altamente reduzidos em comparação à animação. Outro personagem alterado foi o Capitão Lee Shang, que existe no longa animado, mas que foi cortado do live action.

Shang, na verdade, foi convertido em dois personagens diferentes: o Comandante Tung (Donnie Yen) e o soldado Honghui (Yoson An). Assim como Shang, Tung nutri um grande respeito por Mulan enquanto disfarçado de homem (na animação ela adotou o nome Ping, enquanto no filme ela se denomina Jun), e apesar das ressalvas após descobrir seu segredo, o respeito permaneceu no final, mesmo não tendo indícios de interesse amoroso entre eles.

A parte do romance ficou com Honghui, que demonstra respeito e rivalidade para com Mulan quando pensava que ela era homem, e esses sentimentos foram se convertendo em afeto e atração mais perto do final da trama, assim como foi com Shang na obra de 98. Há quem interprete os sentimentos de Shang/Honghui por Mulan enquanto disfarçada de Ping/Jun como homossexual, já que ele aparentemente começa a sentir atração por ela antes mesmo de saber que ela é mulher. Isso nunca ficou 100% claro, mas não seria lá muito surpreendente se fosse realmente o caso, já que amantes homossexuais não eram incomuns naquela época, historicamente falando.

Outra figura ausente na trama é o Mushu, muito graças às já citadas críticas negativas que a animação sofreu em relação à fidelidade com a cultura chinesa. Mushu foi considerado um personagem muito americanizado e cômico, e isso pode ser considerado ofensivo quando levantamos o fato de que o Dragão Chinês é extremamente idolatrado na China. Portanto, a fim de respeitar a cultura, o pequeno dragão vermelho foi substituído pela Fênix, que até que foi bem encaixada na trama.

Outras presenças menores, como o Grilo da Sorte e os ancestrais também estão ausentes (apesar dos ancestrais serem citados várias vezes, eles não aparecem de fato), e figuras como a avó de Mulan e o líder dos hunos Shan Yu foram substituídos pela irmã mais nova de Mulan, Xiu (Xana Tang) e o líder dos mongóis Böri Khan (Jason Scott Lee), respectivamente. Aliás, outra mudança interessante é a substituição dos vilões, trocando os hunos pelos mongóis, o que alterou a estética e métodos de batalha dos mesmos, mas sem nada muito relevante.

Vale ressaltar também que o filme não é um musical, diferente da animação. Porém, as músicas continuam presentes em formas de trilha sonora, e o tema principal da obra, Reflection, foi regravado pela cantora Christina Aguilera, que também cantou a versão original dos anos 90. Ao lado da nova versão da música, uma canção inédita chamada Loyal Brave True foi produzida, também sendo cantada por Aguilera. Isso mostra que, apesar de diferente, essa nova produção respeita e busca homenagear a obra original. E isso é deixado bem claro no filme quando vemos Ming-Na Wen numa cena surpresa. Wen é a atriz que dublou a Mulan no filme de 98, e ela está presente na nova versão, em uma cena breve, porém bonita e simbólica.

Reflection (versão original):

Reflection (nova versão):

Loyal Brave True:

É um bom filme?

Acredito que, para amantes de cultura asiática, Mulan vai agradar. O filme não deixa a desejar no seu desenvolvimento nem no estilo narrativo e estético que adotou. Porém, para quem buscava algo fiel à animação dos anos 90, provavelmente será decepcionante. O filme toma muitos caminhos próprios, com elementos que não existem ou não são abordados da mesma maneira no longa animado. Infelizmente alguns personagens secundários não foram devidamente desenvolvidos, o que nos impede de sentir apresso a eles. Foi o caso do trio Yao, Ling e Po, e também do próprio Honghui, cujo breve romance com Mulan foi bem razo. O vilão também não foi lá muito explorado, perdendo espaço para Xianniang e sua rivalidade com a protagonista. Aliás, Mulan e Xianniang praticamente dominaram essa história, e isso provavelmente foi proposital, para atiçar a mensagem feminista da obra.

Particularmente eu me diverti assistindo, apesar de não considerar superior ao filme de 98. É compreensível a necessidade de enaltecer a cultura chinesa, principalmente porque a China é um país muito importante, mercadologicamente falando, para a indústria cinematográfica. Então dá pra entender essa “puxação de saco”. Mas, em contrapartida, achei um pouco esquisito o fato de no filme, que se passa na China antiga e é composto por um elenco apenas de asiáticos ou descendentes, os personagens falarem inglês. Deve existir o argumento de que desse jeito o filme atinge uma maior quantidade de pessoas. Porém é contraditório ser uma produção que teoricamente dá tanta importância à cultura chinesa, mas seus personagens não falarem chinês. Não é algo que me tirou do filme, mas achei estranho.

Mulan é uma boa opção para quem busca um filme de temática asiática que entretém. É frustrante para quem assiste buscando algo igual ao que viu na infância, mas como uma adaptação, cumpre seu papel. É um título atrativo para amantes de cultura asiática, principalmente se você conhece e gosta o gênero, e consequentemente aceita suas qualidades e defeitos. Se você gosta de filmes como os já citados O Tigre e o Dragão e Herói, provavelmente pode gostar de Mulan, apesar de eu particularmente não considerar a nova obra da Disney tão boa quanto esses clássicos. Enfim, foi uma boa revisitada à lenda da mulher que combateu os costumes para defender a honra de seu pai em batalha.

ARTIGO DE VINI MIRANDA

Produtor de conteúdo, co-criador dos canais Tentáculo e Z Games, nerd fissurado.

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