Resenha | Psicodelia e introspecção em “Surfista Prateado: Escuridão”

O roteirista Donny Cates vem se notabilizando na Marvel Comics na atualidade, especialmente por sagas como Venom, Motoqueiro Fantasma: Cósmico e Carnificina Absoluta, HQs que geraram diversos debates em comunidades de leitores. Agora na companhia do artista Tradd Moore, Cates volta mais inspirado do que nunca com sua versão do Surfista Prateado, no encadernado Escuridão, lançado em setembro deste ano pela Panini Comics.

Surfista Prateado: Escuridão tem 120 páginas que reúnem as edições de 1 a 5 de Silver Surfer: Black, publicadas ao longo de 2019 nos Estados Unidos. Já adianto para o leitor curioso que Donny Cates honra e muito o personagem criado por Stan Lee e Jack Kirby, ao dar a ele diversas camadas de introspecção, reflexão e pensamento; há quem diga que o Surfista é, na verdade, o alter ego de Stan Lee, o personagem por meio do qual Lee punha para fora seus questionamentos mais íntimos e conflituosos.

Capa de Escuridão, por Tradd Moore.

Donny Cates é conhecido por dar algumas “chacoalhadas” nos backgrounds de determinados personagens; exemplo disso é o já mencionado arco Venom, no qual o simbionte de Eddie Brock tem uma origem associada a um deus simbionte da escuridão, de nome Knull; essa abordagem não havia sido desenvolvida antes nas histórias do Venom, do Carnificina ou do Homem-Aranha, o que demonstra o instinto inovador do roteirista nas histórias para as quais é designado.

Em Surfista Prateado: Escuridão não é diferente; há diversas situações inéditas vivenciadas pelo Sentinela do Espaço, sem perder de vista as suas peculiaridades clássicas que Stan Lee e outros autores trabalharam tão bem ao longo dos anos.

Um dos detalhes que já me ganharam antes mesmo de eu ler a revista foi o visual alienígena concebido por Tradd Moore para o Surfista; é um rompimento com a tradição do personagem, na medida em que ele, a despeito de sua cor brilhante, sempre teve um semblante bastante humanizado, no máximo aproximado ao de um humanoide. É bom deixar claro: eu adoro a versão humanizada do Surfista, inclusive é um de meus personagens favoritos da Marvel; mas achei igualmente interessante e criativo o fato de Moore ter atribuído a ele uma cara mais esquisita, muito semelhante às figuras dos aliens verdinhos que já dominaram o imaginário popular.

Surfista Prateado desenhado por Jack Kirby, cocriador do personagem.

O enredo de Escuridão é denso, embora simples. O encadernado se inicia com uma rápida explicação sobre quem é o Surfista e como ele se tornou essa figura, o que ajuda a localizar mesmo aquele leitor que não teve tanto contato com o personagem. Além disso, essa origem é contada de maneira bastante hábil ao longo das edições, sem perder muito tempo e muitas páginas com explicações mais detalhadas de origens e transformações. A edição 3, por exemplo, abre mostrando uma cena delicada e amorosa de Norrin Radd, o nome de batismo do Surfista Prateado, ao lado de sua amada Shalla Bal, antes da chegada de Galactus, o devorador de mundos. Galactus chegou ao planeta Zenn-La para lhe sugar a energia vital; contudo, Radd se oferece como moeda de barganha, a fim de que seu planeta continuasse vivo e não fosse afetado pelas ações do devorador. Assim, Norrin Radd é transformado em Surfista Prateado e passa a ser seu arauto.

Toda a questão envolvendo Galactus, inclusive, é a que mais parece causar dor ao Surfista no decorrer de Escuridão. Ao longo da história, ele se martiriza e sente dor pelas milhares de vidas que sucumbiram diante do imenso poder de Galactus através do espaço-tempo.

O maior conflito interno do Surfista Prateado: ter aberto caminho para Galactus consumir a energia vital de milhares de planetas e civilizações e, por muito tempo, não ter feito nada para impedir.

A imagem acima é bastante simbólica em relação àquilo que incomoda o Surfista: os tons de vermelho ilustram o sangue de milhões de vidas inocentes que pereceram como consequência das investidas de Galactus, e o fato de ele estar coberto de sangue evidencia a culpa sentida pelo personagem.

Ao longo do quadrinho, o Surfista Prateado tenta reparar tamanha brutalidade, ainda que as vidas ceifadas não retornem. Um de seus conflitos mais difíceis é contra a já mencionada entidade Knull, o deus da escuridão, que se incomoda com o brilho irradiado pelo Surfista e tenta trazê-lo para as trevas. O Surfista, porém, percebe sua oportunidade de redenção e trava uma longa batalha contra Knull, a personificação da escuridão; luz e trevas em conflito, um clichê que, nas mãos de uma equipe criativa menos hábil, seria apenas mais do mesmo.

Parte do conflito entre Knull e o Surfista Prateado.

Na segunda edição, quando a luta tem início, o Surfista é infectado pelo simbionte, o que o deixa vulnerável diante dos pedidos de Knull. Entretanto, o personagem escuta a voz do planeta vivo Ego e consegue se desvencilhar do simbionte. O Surfista vai em direção a Ego e lá será auxiliado por este. Pelo menos essa seria a ideia inicial.

Todavia, ao encontrar o planeta e ter uma rápida conversa com ele, algo o penetra com tamanha violência que lhe causa dor. O Surfista, em troca de ser ajudado a derrotar Knull, oferece ajuda para retirar o flagelo que adentrou Ego com violência. Nessa passagem, um aspecto que considero supercriativo foi o fato de o Surfista transformar a sua prancha em uma espécie de broca para perfurar as camadas rochosas do planeta e, assim, acessar seu núcleo. Isso não é algo tão comum nas histórias do Surfista Prateado, nem mesmo nos quadrinhos escritos por Stan Lee e desenhados por Jack Kirby. Esse metamorfoseamento da prancha ocorre em outros momentos do gibi.

Ao chegar ao núcleo de Ego, o Surfista depara com a incubadora cósmica de Galactus; foi isso que penetrou Ego com violência. Faz-se, aí, uma analogia curiosa: o Surfista Prateado mergulha em seu “ego” e tem contato com aquele que o criou. A ideia do personagem, a princípio, seria destruir a incubadora; entretanto, o vigia Uatu intervém e trava um diálogo riquíssimo com o Surfista, no qual diz que combater as trevas com morte não é válido. Essa mesma ideia se repete no encontro entre o Surfista e a mente de Galactus, que ainda não havia se transformado no ser cósmico poderoso que conhecemos.

A mente de Galactus sente que o Surfista está ali para dar cabo do devorador, e é aí que mora o outro pulo do gato do quadrinho: Galactus questiona como o Surfista poderia lavar suas mãos e se livrar da culpa se ele faria isso provocando outra morte. Em suma, nada do que foi feito no passado poderia ser mudado; todavia, o presente e o futuro estavam nas mãos do Surfista, que deveria lidar com as consequências de suas ações. Matar Galactus neste momento seria, assim, mais uma ação cujo peso o Surfista carregaria ao longo de sua quase eterna vida.

Então como vencer a escuridão? Como conseguir provar o arrependimento? O Surfista encontra a resposta ao final da edição 4: “queimar”. É o que ele diz ao planeta Ego. Assim, percebendo que vencer as trevas era uma tarefa hercúlea e praticamente impossível, o Surfista Prateado decide dar a sua luz para que a vida volte a florescer em locais distantes do universo.

Não se pode derrotar a escuridão. Mas é possível encontrar a luz dentro de si. Protegê-la. Escudá-la de todo mal. Cuidar dela, pois ela é frágil. E então, quando ela estiver forte, compartilhá-la. Cedê-la.

A HQ se encerra de forma bastante sensível e bonita, esperançosa. Falando em beleza, não posso deixar de citar o primoroso trabalho artístico de Tradd Moore, especialmente no que diz respeito às cores. Todo o gibi parece bem inspirado na vanguarda surrealista, com imagens que evocam o onírico, o imaginário e até algo de abstracionista.

Observe, nesta imagem, o uso intenso das cores por Tradd Moore. Uma verdadeira explosão de psicodelia.

Esse colorido se remete a outras histórias clássicas da Marvel, como as do Doutor Estranho, por Stan Lee e Steve Ditko, refeltindo as cores dos anos 1960, década em que o personagem surgiu e em que se desenvolveram movimentos hippies como o Verão do Amor e o grandioso Festival Woodstock, de 1969. Outra associação possível é com o trabalho artístico feito para o filme The Wall, encabeçado por Roger Waters, ex-baixista do Pink Floyd. O longa exibe diversas animações supercoloridas que se modificam em segundos, todas elas pensadas pelo artista Gerald Scarfe.

Um aspecto que pode ser visto como negativo em Surfista Prateado: Escuridão é a verborragia; é uma HQ com muitos recordatórios em quase todas as páginas. Isso pode cansar um pouco ao longo da leitura, até porque há edições em que esses recordatórios se somam a diálogos extensos como é característico do personagem. Esse detalhe indica um contraponto em relação aos quadrinhos de super-heróis mais contemporâneos, pois estes costumam ser mais velozes e com foco na ação. Soma-se esse aspecto à densidade da arte e então temos um gibi que não é para ser lido em uma única tacada; ele precisa ser saboreado, desfrutado, lido com atenção aos detalhes. Aliás, quaisquer quadrinhos em que o Surfista apareça acabam demandando um pouco mais de atenção à questão introspectiva.

O encadernado traz, ao final, uma série de capas variantes idealizadas para as edições mensais publicadas no exterior. Vendo-as, é possível perceber melhor o contraste entre o Surfista pré-Moore, mais humanizado, e o Surfista de Escuridão, com semblante mais alienígena e estranho.

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