Os 85 anos de Mauricio de Sousa

Em 27 de outubro de 2020, Mauricio de Sousa completou 85 anos de idade. Sua carreira é prolífica, sempre preocupada em evitar a mesmice e repleta de criações fantásticas. Neste post, falarei um pouco da importância do cartunista para a cultura brasileira e do que ele representou e representa para mim e minha formação leitora.

Se um jovem ou adulto, hoje, disser que não leu nada da Turma da Mônica em sua infância, no mínimo ele dirá que ouviu falar disso ou, ainda, que deparou-se com produtos em supermercados e lojas de departamentos que estampavam em seus rótulos os principais personagens dessa turminha. Eu tenho dúvidas de que, em 1963, quando Mônica apareceu pela primeira vez em uma tira de jornal da Folha de S. Paulo, Mauricio imaginasse o sucesso descomunal que seus “filhos” fariam em quase 60 anos ininterruptos de publicações de tirinhas, gibis para crianças e graphic novels para leitores mais maduros.

Mauricio de Sousa foi fundamental para a formação de leitores ao longo dos anos 1980 e 1990, quando boa parte dos personagens se consolidou em revistas regulares vendidas em bancas de jornais. De um menino espoleta de cabelo espetado que troca o “r” pelo “l” em “flases simples” até um garotinho do interior que rouba goiabas nas propriedades do Nhô Lau, praticamente todas as criações do cartunista já dominaram o imaginário popular, de forma que mesmo os leitores ocasionais reconhecem com facilidade o cãozinho Bidu, a comilona Magali e a tão querida Mônica.

Cascão, Mônica, Cebolinha e Magali, protagonistas de histórias divertidas e para lá de engraçadas.

Os gibis da Turma da Mônica serviram de porta de entrada para muitos leitores na infância, mesmo que, na atualidade, boa parte deles tenha deixado de acompanhar as histórias nas bancas ou em livrarias. Aí se encontra o legado; quase sem pretensão, Mauricio de Sousa foi um dos principais incentivadores da leitura no Brasil, por meio da produção desenfreada, mas nem por isso sem qualidade, de centenas de histórias em quadrinhos bastante acessíveis tanto do ponto de vista financeiro quando do ponto de vista do conteúdo.

Turma da Mônica era o contato mais próximo que eu tinha com a literatura infantil. Eu relia meus gibis com o mesmo ânimo em todas as vezes, mesmo sabendo o que aconteceria com cada personagem. No âmbito escolar, especialmente nas aulas de Língua Portuguesa, havia um misto de nostalgia e novidade, já que os alunos resolviam questões da disciplina a partir de tirinhas da Turma da Mônica, entre diversas outras, como Níquel Náusea, de Fernando Gonsales, e Hagar, o horrível, de Dik Browne. Percebe-se, assim, que a Turma da Mônica, para além de simplesmente entreter seu público, também fazia as vezes de recurso educacional.

Mauricio de Sousa desenhando Horácio, um tiranossauro rex carinhoso e reflexivo; segundo Mauricio, Horácio é um de seus alter ego, isto é, personagem por meio do qual expunha seus questionamentos.

Ainda falando da minha infância, um dos personagens com os quais eu me identificava, além do Jeremias, era o Cascão. Isso ocorria porque, em primeiro lugar, assim como eu, Cascão era uma criança apaixonada por futebol; em segundo porque, além de adorar o esporte, torcia para o Corinthians, da mesma forma que o meu pai. A identificação com o Jeremias também tem suas razões; Jeremias foi o primeiro personagem negro criado por Mauricio de Sousa para as histórias da turminha; era um personagem no qual eu me enxergava, que me representava, que era tratado com o respeito que merecia (pelo menos dos anos 1980 em diante, quando o visual blackface que lhe era peculiar foi abandonado para dar lugar às feições que o tornaram conhecido).

No que diz respeito à inclusão, é louvável o trabalho feito pela Mauricio de Sousa Produções, seja nas revistas mensais destinadas ao público infantil, seja nas graphic novels que visam a um público mais adulto. Desde a criação de personagens deficientes até a abordagem do tema nas histórias, Mauricio sempre demonstrou bastante sensibilidade e respeito sobre essa questão. Isso ajudou a desmistificar e a combater certos preconceitos, como a ideia de que pessoas deficientes não podem conviver harmoniosamente com não deficientes em escolas, por exemplo. Além de promover a inclusão dos que estavam de fora, Mauricio auxiliou na compreensão sobre certas condições de saúde (cegueira, surdez, autismo, entre outras).

Da esquerda para a direita, Mônica na companhia de Humberto (surdez), André (autismo), Tati (síndrome de Down), Dorinha (cegueira) e Luca (paralisia).

Apesar de todas as criações e inovações, Mauricio de Sousa não queria que seus personagens ficassem limitados às crianças. Uma das estratégias para expandir o público consumidor de Turma da Mônica foi a criação dos desenhos animados para a TV, transmitidos em horário nobre, de modo que muitos leitores e curiosos passaram a ter contato com histórias inéditas protagonizadas principalmente por Mônica, Cascão, Cebolinha e Magali. Isso ocorreu por volta dos anos 1970 e se mantém firme em canais fechados até os dias de hoje.

Outro caminho para captar novos leitores e reconquistar aqueles que abandonaram os gibis na adolescência foi a criação do selo Turma da Mônica Jovem, que tratava de temas e assuntos comuns a adolescentes e pré-adolescentes, como namoro, beleza, relacionamentos familiares, entre outros.

Capa de uma das edições do selo Turma da Mônica Jovem, em que Cebolinha e Mônica são namorados.

O potencial criativo da Mauricio de Sousa Produções não parou por aí. O editor Sidney Gusman, um dos braços direitos de Mauricio e um dos mais bem-sucedidos editores de quadrinhos do país, sugeriu ao “chefe” que fosse criado um selo mais adulto que resgatasse os leitores das antigas com histórias mais palpáveis e condizentes com sua realidade. Criou-se, assim, o MSP 50, projeto no qual 50 autores foram convidados por Gusman com o objetivo criarem histórias fechadas para os personagens da Turma da Mônica.

O sucesso desse projeto foi tão grande que a MSP decidiu investir no selo Graphic MSP, que abarca HQs fechadas, com início, meio e fim, e temáticas menos lúdicas e infantis. Jeremias: pele, por exemplo, foi muito premiada em 2019, sendo vencedora do Prêmio Jabuti naquele ano (falei de Jeremias: pele neste texto). Agora, em 2020, a graphic Tina: respeito, da escritora e artista Fefê Torquato, foi indicada como concorrente ao Prêmio Jabuti deste ano na categoria Melhor História em Quadrinhos. Vale lembrar que o Prêmio Jabuti é o maior concedido a obras literárias no país.

Tina: respeito, de Fefê Torquato; obra importante que discute machismo e assédio no ambiente corporativo.
O canal Pipoca & Nanquim entrevista o editor Sidney Gusman, que fala da trajetória do selo Graphic MSP.

Não podemos esquecer também que os personagens de Mauricio de Sousa protagonizaram uma obra cinematográfica que foi sucesso de público e crítica: Turma da Mônica: laços, longa-metragem inspirado na HQ de mesmo nome, emocionou crianças, adolescentes, jovens e adultos, com uma história comovente, divertida e que abre margem para outros filmes da Turma da Mônica. O que não falta são temas: as histórias do Astronauta podem servir de base a longas de ficção científica; Chico Bento pode protagonizar filmes sobre a vida interiorana; e por aí vai.

Tudo isso e eu nem comentei outras influências, como a criação do Parque da Mônica, a coleção de miniaturas da franquia, livros de banho para crianças, etc. A lista de derivados é tão extensa que valeria um texto unicamente para mencionar todas essas obras.

Agora, aos 85 anos de idade, Mauricio de Sousa pode ficar em paz, sabendo que suas preciosas criações estarão sempre protagonizando boas histórias, ou pelo menos sendo criadas por equipes criativas competentes. Em uma introdução ao quadrinho Astronauta: Magnetar (2012), feito por Danilo Beyruth, Mauricio comenta o seguinte:

As sementinhas que plantei, décadas atrás, germinaram.

O Astronauta de Danilo Beyruth; o personagem, assim como Horácio, serviu como alter ego de Mauricio de Sousa.

O legado de Mauricio de Sousa se sustenta a cada publicação, a cada novo projeto da MSP, a cada novo leitor que conhece um personagem inédito. Aqui, deixo meu muito obrigado a esse criador incansável, que, inspirado em suas três filhas, permitiu aos leitores que rissem, se emocionassem, ficassem intrigados. Fico feliz porque, a despeito da idade avançada, Mauricio está saudável e lúcido, o que lhe possibilita acompanhar de perto todos os frutos gerados pelas sementinhas plantadas lá nos anos 1960.

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