Crítica | A Convenção das Bruxas: O clássico de Huston e o infantil de Hathaway

A palavra original por etimologia liga-se à ideia de origem. Ser original transpõe ser criativo, isso fala mais sobre o que provém de uma origem, de uma raiz. “A Convenção das Bruxas” com Anne Hathaway é esse original que se perde da sua origem, “A Convenção das Bruxas“, com Anjelica Huston. O novo filme não peca por ser criativo, ele tem uma criação própria e um desfecho diferente. O erro é tentar estabelecer um continuísmo mais moderno que literário, diferente da versão antiga. E sim, estamos cientes que releituras não têm obrigatoriedade de continuidade rígida. Aliás, sobre isso, na versão antiga o filme sequer tem o mesmo final do livro.

A Convenção das Bruxas (versão nova/2020).
A Convenção das Bruxas (versão original/1990)

Enquanto ato criado a releitura ganhou uma originalidade própria, entretanto, se vista pelo prima da continuidade ela se perdeu e não sustenta a primazia da película original.

Enquanto releitura o filme do diretor Robert Zemeckis acerta na estrutura metalinguística da narrativa, no contar de histórias também abordadas no primeiro filme, na desenvoltura de Octavia Spencer como narradora, confirma similitudes nas características da personagem da Bruxa Rainha, acompanha de certo modo as perspectivas da narrativa-origem, contudo, seu deslize, dentre alguns, reside na tentativa de ser moderno. A visão moderna do diretor não fez bem à obra de Roald Dahl. Parece-me que a modernidade não cansa de causar às coisas e aos objetos certo esvaziamento de sentido.

Possivelmente, minha decepção consista na ideia de que “A Convenção das Bruxas” seja um clássico dos anos 90 com uma das narrativas mais requintadas que assisti na infância. A maldade clássica e estilosa de Anjelica Huston que se estendia da mulher à criatura horripilante da Bruxa; o requinte da literatura que circunda o filme; o roteiro fluido; a construção de poder e  de maldade da figura da bruxa; o desenho do medo na cena inesquecível da assembleia das bruxas; bem como, o desfecho da trama, são elementos que a releitura deveria tocar com algum cuidado. Não tocou. Aliás, clássicos deveriam ser intocáveis, intocados.

Angelica Huston na pele da bruxa rainha.

Como isso não aconteceu, o adulto que assistiu ao filme com Anjelica Huston pode se desiludir com a versão do filme estrelado por Anne Hathaway. Hathaway carrega um estigma da boa moça perfeita tão impróprio à Bruxa Rainha, ela possui aquela beleza genuína das moças protagonistas, um encanto peculiar que dificulta ao público adulto vê-la como má, exceto, claro, quando camuflada pelo riso gigante da Bruxa Rainha ao capturar o menino. E essa é outra decepção: a figura medonha da Bruxa de Huston foi diminuída num efeito ligeiramente grotesco e fraco de um riso de dentes afiados. E perdoem-me, mas uma maquiagem artística é o melhor efeito visual que um efeito visual jamais terá. E sim faltou a presença do medo, faltou a beleza do cruel e Huston demonstrou com firmeza que o cruel pode ser atrativo. Em contrapartida, a Bruxa de Hathaway pode ser a Bruxa Rainha do público infantil da nossa era, ela só não consegue dar continuidade ao primor que Huston produziu.

Anne Hathaway na pele da bruxa rainha.

E não, não queríamos uma contraposição dicotômica Huston-Hathaway. É que a Bruxa Rainha e a figura da bruxa são indubitavelmente o elemento mais forte da trama, então, nada melhor que divergir as experiências filmícas a partir do ponto mais forte.  E ambas são constructos performáticos que atendem aos seus públicos. O público da década de 90 fora alimentado por uma mulher forte e sexy, que sob uma beleza notável e distinta guarda uma criatura asquerosa, já o público atual deve aguardar uma bruxa de riso grotesco e oscilante no campo caricato.

POR YASMING PEREIRA

“Formada em Jornalismo, mas o defeito que sustenta todo o meu edifício, indubitavelmente, é a Literatura.”

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