Crítica | “O som ao redor”, de Kleber Mendonça Filho

Kleber Mendonça Filho vem sendo um dos diretores brasileiros mais comentados desde o lançamento de Bacurau, filme lançado em 2019 que alcançou grande projeção em festivais de cinema como o de Gramado e o de Cannes. Na verdade, parece que Bacurau adquiriu peso e importância maiores do que a trajetória do diretor e roteirista, a julgar pela multiplicidade de análises e críticas feitas internet afora. Neste post, falarei um pouco de um dos ótimos filmes de Kleber Mendonça Filho, O som ao redor (2012), e explicarei por que esse diretor merece ainda mais destaque na cinematografia brasileira.

O som ao redor é o primeiro longa-metragem de Mendonça Filho, precedido pelo ótimo curta Recife frio, que está disponível na íntegra no YouTube. A premissa básica do filme é a seguinte: em uma rua de classe média-alta no centro de Pernambuco, um grupo de segurança privada aparece para cobrar dos moradores e condôminos um valor mensal para a manutenção da segurança e do combate a pequenos crimes no local; é o que nós, brasileiros, conhecemos como milícia. E aí já está a primeira subversão de expectativa: Kleber certamente imaginava que muitos cidadãos no país já conheciam esse esquema corrupto de segurança, de forma que ele pôde usar esse conhecimento prévio apenas como um truque que esconde a real trama de O som ao redor.

Trailer de O som ao redor

O primeiro ato do filme é bastante expositivo à moda “mostre, não conte”. E nenhum problema nisso. O passear das lentes das câmeras parte de um âmbito mais genérico, isto é, a rua, as frentes das casas, as crianças brincando em um play de condomínio, e chega ao particular dos apartamentos dos protagonistas João (Gustavo Jahn) e Bia (Maeve Jinkings). A exposição da rotina desses personagens é tão detalhada que o espectador depara, inclusive, com situações que podem gerar constrangimento, como nudez e insinuações sexuais.

Falar em protagonismo, na verdade, talvez não seja o mais adequado em se tratando de O som ao redor. Assim como ocorre em Bacurau, em que a cidade parece ser a real protagonista dependente da importância de cada personagem, a rua em que a maior parte de O som ao redor acontece é o que assume a maioria dessa importância. As ações dos personagens são consequência do estilo de vida possibilitado ali, das situações de conflito entre moradores e condôminos; é como se eles reagissem ao que a rua proporciona a eles.

Bia (Maeve Jinkings) recebendo massagem dos filhos; uma das cenas que evidenciam parte do cotidiano

O trabalho estético de Kleber Mendonça Filho e de Juliano Dornelles, o diretor de arte, ajuda a estabelecer, ainda que pontualmente, qual é o principal aspecto tratado no filme: a especulação imobiliária, tema, aliás, já abordado no mencionado Recife frio. O jogo de câmeras, o uso orgânico do zoom, o efeito panorama, tudo isso são recursos a favor da narrativa, na medida em que eles ajudam a estabelecer, mostrando, a realidade daquela parte de Recife, uma cidade que vem crescendo desordenadamente e à custa de ações duvidosas e pouco éticas.

O segundo ato do filme introduz os milicianos na trama, liderados por Clodoaldo, personagem interpretado por Irandhir Santos, ator que imortalizou o deputado Fraga em Tropa de Elite 2: o inimigo agora é outro. Falei de subversão da expectativa anteriormente; isso continua acontecendo no segundo ato. Pensamos na milícia como um grupo formado por pessoas mal-educadas, criminosas e mal-encaradas; não é isso o que acontece em O som ao redor. Clodoaldo explica com bastante paciência aos moradores da rua qual é sua proposta de trabalho e não arquiteta nenhum ato maligno contra aqueles que se opuserem à presença da segurança privada. Apesar disso, fica claro que os policiais deverão encarar um pequeno conflito para atuarem sem dor de cabeça: a “benção” de Francisco (Waldemar José Solha), um senhor que detém aproximadamente metade dos apartamentos da rua, o que o faz ser muito bem-sucedido financeiramente. Vale dizer que João é neto de Francisco e trabalha com o avô como corretor de imóveis, captando possíveis novos moradores e concluindo contratos de aluguel nos apartamentos de sua posse.

Clodoaldo (Irandhir Santos) explicando o seu trabalho aos moradores

Como Francisco conseguiu se apossar de tanto terreno para construir seus imóveis? Foi algo que me perguntei ao longo do filme, algo que é apenas sugerido em representações simbólicas e metafóricas, uma marca de Kleber Mendonça Filho em suas obras. A riqueza de Francisco é um fator que, assim como a exposição da vida cotidiana e o crescimento desordenado de Recife, se evidencia a partir das escolhas estéticas do diretor. Em cenas que se passam na casa do personagem, a câmera novamente se vale do efeito panorâmico para mostrar a grandeza e a riqueza de detalhes que se encontram ali.

Uma das sugestões simbólicas que mostram de que forma aqueles imóveis foram construídos é o sonho da filha de Bia, já no terceiro ato do filme, no qual dezenas de pessoas invadem a casa da família, assumindo para si aquela porção de terra que, supostamente, teria lhes sido negada ou retirada. Pode-se interpretar isso, de um lado, como as ações de desapropriação promovidas por construtoras e governos, em que os moradores são convidados (de maneira mais ou menos covarde) a se retirar de suas casas, que serão derrubadas ou usadas para erguer outros empreendimentos imobiliários, de mobilidade urbana, entre outros.

Kleber Mendonça Filho já comentou em entrevistas e bate-papos que ele queria conceber a rua de O som ao redor como se fosse um engenho de açúcar, um dos principais produtos do período colonial. Talvez por isso, em uma cena na qual Clodoaldo e a empregada de Francisco se preparam para ter uma relação sexual, a câmera parada registra, em primeiro plano, uma pessoa negra, talvez escravizada, passando de um cômodo para o outro, uma construção de cena que revela a destreza do diretor na miscelânea de gêneros que lhe é tão peculiar. Evidencia-se, nesta passagem, uma tensão característica de filmes de terror/suspense, somada à trilha sonora dissonante que amplia o caráter de estranheza. Este é um recurso que também foi utilizado em Aquarius (2016), penúltimo longa-metragem de Mendonça Filho.

Sofia, Francisco e João: um opulento almoço no engenho

Essa mistura de gêneros se faz presente em outro momento do longa, no qual João, sua namorada Sofia e Francisco estão tendo um momento de descanso em um engenho, agora real, que pertence a Francisco. Lá, eles passeiam pelos jardins e tomam banho em uma cachoeira, momento em que há a cena mais chocante de todo O som ao redor: durante alguns segundos, os personagens são filmados se refrescando na cachoeira; depois disso, a câmera fica em close no rosto de João e toda a água que jorra de cima das pedras se transforma em sangue, um vermelho forte, incômodo, até meio plástico; talvez o vermelho do sangue dos escravizados que morreram naquele engenho, daqueles que foram mortos tentando fugir.

Outro momento de suspense se passa quando João e Sofia visitaram a antiga casa desta, que seria usada por Francisco para a construção de um outro empreendimento imobiliário. Ao visitarem os cômodos, ouvem-se passos no forro, de pessoas que não estão lá; o barulho dos passos é extradiegético, isto é, não é ouvido pelos personagens, ainda que a cena pareça sugerir isso. A tensão é criada, novamente, para o espectador, com o auxílio de uma trilha sonora incômoda.

Um elemento polêmico que gerou muita insatisfação dos espectadores/crítica é o fato de o filme não ter um final óbvio. Ele termina em suspensão, gerando a pergunta “Peraí, o que aconteceu?”. Escolha estética? Erro? Furo de roteiro? Vale dizer que nada em O som ao redor é totalmente óbvio; Kleber Mendonça Filho aposta em uma atitude ativa de quem assiste, de modo que a narrativa é construída de forma conjunta, possibilitada por um esforço do espectador. Para quem está acostumado com Hollywood e seus desenlaces redondinhos, O som ao redor, assim como Bacurau e Aquarius, é um filme inacabado e, por isso mesmo, ruim.

Do meu ponto de vista, a ausência de final não é um problema, não em um filme de Kleber Mendonça Filho, cuja chave do enredo se encontra justamente em seus conflitos reais e simbólicos. Seus filmes devem ser reassistidos, pois cada pequeno easter-egg fornece pistas daquilo que se está querendo dizer.

Tá, mas e a milícia?

Não, não me esqueci dela; Clodoaldo e seu irmão, que também faz parte da segurança privada, aparecem com maior destaque já ao “final” da trama, pois eles são filhos de um homem que foi prejudicado por Francisco, o dono dos “engenhos”. Não se sabe ao certo o que os dois rapazes fizeram com Francisco; o que se sabe, e o que é importante, é que este personagem é o pivô de diversas injustiças sugeridas ao longo da trama por meio dos símbolos, o que é bastante curioso, já que Francisco é um senhor simpático e educado, acima de quaisquer suspeitas em primeiro momento.

Algumas tramas podem parecer desconexas ou desnecessárias, como o núcleo de Bia e sua família, que parece ser apenas mais um dentre os diversos apresentados durante o primeiro ato. Contudo, como foi dito mais acima, este núcleo tem papel relevante na compreensão da temática de O som ao redor, então deve ser analisado com bastante atenção.

Kleber Mendonça Filho é um dos diretores mais criativos, corajosos e dinâmicos do atual cinema nacional. Nota-se que foi bastante influenciado pelo Cinema Novo, movimento cultural ocorrido no Brasil ao longo dos anos 1960, cujo maior expoente é Glauber Rocha (diretor de Deus e o diabo na terra do sol, Barravento e Terra em transe); essa influência é percebida com relação aos temas abordados, a exemplo das discrepâncias sociais no Nordeste, e no que diz respeito à estética, isto é, os usos das câmeras, das trilhas sonoras, entre outros recursos.

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