Crítica | Mulher-Maravilha 1984

O novo “Mulher Maravilha-1984”, estrelado por Gal Gadot como a personagem título, começa com duas cenas de ação que não deixam dúvidas sobre o público alvo do filme: crianças, mais especificamente meninas. Como a última representante da trindade de heróis da DC Comics a ganhar um longa metragem solo, e uma continuação, a Amazona continua sua maturação como personagem buscando um lugar narrativo em contraponto a Batman e Superman, que possuem diversos filmes, versões, remakes e séries explorando a infância, adolescência, traumas, dúvidas e todo e qualquer ingrediente a se colocar nos roteiros. Talvez por isso a princesa de Themyscira ainda passe a impressão de estar na primeira infância dramática, correndo poucos riscos.

Em tempos que a internet ferve com trintões e quarentões reclamando de versões que estão “destruindo a infância” deles (superem, por favor), a sequência das aventuras de Diana Prince se mostra uma divertida matinê, com doses de comédia e ação, e umas pitadas de filosofia e questionamentos existenciais, mas não muito, pois, afinal, é um blockbuster de um grande estúdio, e espaços para experimentar não são muito bem vindos neste tipo de produto.

Porém, a decisão de não mudar em “time que está ganhando” (o primeiro filme fez um sucesso estrondoso), e o Zeitgeist implorando por filmes que o bem vença o mal no fim (não me diga que é spoiler, você esperava algo diferente?) faz com que o trabalho da diretora Patty Jenkins se encaixe perfeitamente para quem o for ver neste fim de ano caótico em todo mundo, pelos motivos que todos já sabem.

Portanto, dentro do que se propõe, MM-1984 é o equivalente atual dos primeiros filmes do Superman: solares, otimistas, com toques de humor “camp”, e redondos, como sugeria o filme e desdizendo o subtítulo, que para muitos lembra o livro distópico de George Orwell. Até algumas situações amorosas e questionamentos são similares ao segundo filme dos anos 80 do Homem de Aço. O interesse amoroso da heroína retorna de uma forma até natural pelo roteiro simples,  mas nunca simplório, com críticas sociais e existenciais sempre expostas, só que nunca muito aprofundadas, pois é um filme pipoca. Steve Trevor (Chris Pine) retorna dos mortos, e nunca é um acessório para a personagem principal, com seus próprios talentos para solucionar problemas, ao mesmo tempo um personagem que tem química com Gadot e talvez uma cutucada para as donzelas em perigo dos filmes com protagonistas masculinos de antigamente.

Já os vilões têm motivações saídas direto de dramas adolescentes dos homenageados anos 80: serem mais respeitados pelos bullies, mais confiança no dia a dia, e no fim recebem a lição de que a resposta sempre esteve dentro de nós. A dupla formada por Maxwell Lord (Pedro Pascal) e Barbara Minerva/Mulher Leopardo (Kristen Wiig) demora a se unir na trama, mas cada um confere uma atuação segura dentro do possível e movem o roteiro com seus núcleos de drama e comédia, ou os dois quando se juntam na tela. Enquanto o primeiro é o arquétipo do homem de negócios malvado, com um filho enfiado no meio do roteiro para dar um toque de humanidade, a vilã é semelhante até demais com a Selina Kyle de Michelle Pfeiffer. 

Porém, como dito antes, este filme não é (apenas) para nerds enciclopédicos que conhecem o contrarregra do episódio 3 da segunda temporada do seriado televisivo com a Lynda Carter ou como morreu Maxwell Lord nos quadrinhos. Ele é para crianças, pequenas e pré-adolescentes, se divertirem, torcerem por uma heroína com a qual se identificam, um romance idílico por alguns momentos, perdas, heroísmo, lutar pelo certo e pipoca. Em tempos comuns, recomendaria como um programa normal para levar os pequenos com muito doce e refrigerante, já em tempos de pandemia, o conselho talvez não seja bem recebido por muitos, e nem muito sensato, então cabe a cada um saber os riscos dessa empreitada e comparecer aos cinemas por conta própria. Talvez seja melhor esperar o lançamento nos serviços de streaming, que nos EUA acontecerá simultaneamente com a estreia nas salas de cinemas, e não apenas para este longa, e sim para qualquer outro enquanto estivermos na atual situação de pandemia.

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