Análise de álbum | “Sorceress”, de Opeth

Há quem diga que existe algo muito misterioso nas águas da Suécia (e de diversos outros países escandinavos). A hipótese, que parece um tanto absurda do ponto de vista lógico, se sustenta na medida em que o país exporta arte de qualidade em variados ramos: música, literatura, cinema, pintura. A Collector’s Room matou a charada: segundo o portal, os países escandinavos, desde os anos 1960, recebem maciço apoio governamental na área da cultura, o que permite a muitos artistas o desenvolvimento de seus projetos. Uma das bandas que surgiu na Suécia e corrobora tal visão é o Opeth, quinteto liderado por Mikael Akerfeldt, vocalista, guitarrista e principal compositor do grupo.

O Opeth lançou seu primeiro álbum em 1995, Orchid, no qual se encontram os principais elementos estéticos que caracterizaram o grupo até a primeira década dos anos 2000: sonoridade alinhada ao death metal, guturais e harmonias complexas. Em 2016, tendo passado por uma reformulação de membros e de estética, a banda lançou Sorceress, um dos marcos na renovação no som do Opeth.

Vale dizer que essa renovação se consolidou no disco Heritage, de 2011, no qual já estão bem evidentes uma sonoridade mais voltada ao rock progressivo e ao hard rock e o consequente abandono dos elementos guturais e de death metal que acompanharam o Opeth até Waterwashed, de 2008. Sorceress, assim como muitos outros álbuns, é reflexo de uma banda madura, sem medo de ousar e livre para criar da maneira que lhe convier. Tudo isso capitaneado por Akerfeldt, que é o compositor de todas as letras, músicas, bem como o responsável por parte da produção e da concepção artística da capa do álbum.

Capa de Sorceress: concepção artística de Mikael Akerfeldt e criação por Travis Smith

O disco se inicia com “Persephone“, uma espécie de peça musical para violão clássico, em que o Opeth deixa de lado, ainda que momentaneamente, o som eletrificado. O cuidado do grupo é tão evidente que os violões usados na música têm cordas de náilon, e não de aço, como é comum para músicos que tocam rock. No decorrer de “Persephone“, outros instrumentos adicionam leves toques de ambiência, deixando a sonoridade encorpada e bastante etérea; há algumas passagens de harpa e mellotron, o que evidencia o experimentalismo do Opeth, algo que marcará Sorceress na íntegra.

A segunda canção do disco é a faixa-título: “Sorceress“, e nela o Opeth mostra a que veio. Trata-se de uma música complexa, com convenções conduzidas pelo teclado de Joakim Svalberg e com polirritmias interessantes na bateria. Esses dois aspectos são um dos fatores que demarcam a sonoridade progressiva do álbum, embora haja muitos outros, conforme se verá.

Sorceress, de modo bastante particular, evoca algumas bandas britânicas de rock progressivo, a exemplo do Jethro Tull. Há muito de Songs from the wood (1977), talvez o disco mais folk do Tull; isso porque, em muitas canções de Sorceress, as guitarras dão lugar a bases harmônicas conduzidas pelo violão, sem que se perca o peso necessário a uma banda de rock. “Will o the wisp” é a música de Sorceress em que a influência folk se faz presente com maior força, tendo, inclusive, linhas melódicas executadas por flauta transversa, instrumento que Ian Anderson, vocalista do Jethro Tull, sempre tocou com bastante maestria e visceralidade.

Para além das influências progressivas, Sorceress mergulha nas tradições musicais folclóricas europeias e de outros locais do mundo. “The seventh sojourn“, a sétima faixa do disco, é construída sobre uma harmonia que permite a execução de melodias criadas a partir de escalas exóticas como a cigana, o que confere à canção características de músicas indianas ou árabes. Some-se a isso a inclusão de instrumentos percussivos e do arranjo de cordas que preenche toda a linha melódica.

Opeth; da esquerda para a direita: Martin Mendez (baixo), Fredrik Akesson (guitarra e vocais de apoio), Mikael Akerfeldt (vocais e guitarra), Marti Axentrot (bateria) e Joakim Svalberg (teclados, Moog, mellotron, hammond e vocais de apoio)

A criatividade do Opeth é tão evidente que os solos de guitarra, que deveriam estar em maior destaque em trechos específicos das canções, disputam a atenção do ouvinte com harmonias e convenções bastante intrigantes, nada óbvias, que demandam ouvido atento. “Chrysalis“, a quinta faixa, é um exemplo em que ocorre essa “disputa”. Os solos de guitarra e órgão feitos por Akerfeldt e Svalberg, respectivamente, repousam sobre uma convenção que subverte o campo harmônico da música por meio de variadas dissonâncias. Além disso, “Chrysalis” é marcada por uma mudança de dinâmica e andamento, muito comum no rock progressivo (perdido quanto ao rock progressivo? Leia este post e veja cinco álbuns pelos quais começar a entender essa vertente).

As influências do Opeth são diversas; “Strange brew“, a oitava faixa do álbum, mescla convenções progressivas e riffs cadenciados, “arrastados”, típicos do stoner metal. Essa mesma música traz mudanças repentinas de compasso, indo de compassos simples a compassos compostos, o que gera surpresa ao ouvinte.

Se existe um gênio por trás do sucesso criativo de Sorceress, esse gênio é Mikael Akerfeldt. Há quem veja a postura do líder controlador como algo negativo para uma banda, mas não é o caso do Opeth. Está claro que Akerfeldt é a principal mente por trás do processo criativo do grupo, embora ele não esteja sozinho. O vocalista sempre tem ideias muito claras daquilo que deseja imprimir em cada novo disco; para o In cauda venenum, último álbum da banda, lançado em 2019, Akerfeltd diz que sempre quis usar um título latino para nomear um disco e nunca teve oportunidade de fazê-lo até In cauda venenum vir ao mundo.

Como curiosidade, Mikael Akerfeldt é tão criativo que foi convidado para compor a trilha sonora de Clark, série da Netflix estrelada por Bill Skarsgard que versa a respeito do criminoso sueco a quem se atribui a síndrome de Estocolmo.

Mikael Akerfeldt durante show

Um outro rompimento de paradigma proposto em Sorceress é a já mencionada arte da capa. No período pré-Heritage, a maioria das capas dos discos do Opeth traziam imagens soturnas, com efeitos low key, que evocam o Expressionismo alemão no cinema. Na segunda década dos anos 2000, os álbuns da banda passaram a receber capas com maior colorização e contraste entre cores, ainda que o efeito de estranheza e suspense tenha se mantido em cada arte de capa.

“Sorceress” live at Red Rocks Amphitheatre

Vale destacar a primorosa produção de Sorceress, por meio da qual é possível ouvir com bastante clareza e equilíbrio todos os instrumentos, sem que um se sobreponha ao outro. Trata-se de um trabalho que valoriza o talento de cada integrante da banda, o que certamente tem o dedo de Mikael Akerfeldt, já que ele assina a co-produção do disco.

Em resumo, Sorceress é um disco inovador, criativo, composto para ser ouvido mais de dez vezes; a cada audição, é possível captar detalhes diferentes, não ouvidos e percebidos em audições anteriores. Uma obra-prima na carreira do Opeth.

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