Crítica | “A voz suprema do blues”

Já ao final de 2020, a Netflix disponibilizou em seu catálogo o longa-metragem A voz suprema do blues, dirigido por George C. Wolfe. E gente de muito peso se envolveu: a produção ficou a cargo de Denzel Washington, e os principais papéis foram assumidos por Viola Davis (Ma Rainey) e Chadwick Boseman (Levee), que faleceu este ano em decorrência de um câncer contra o qual lutava havia um tempo.

A voz suprema do blues é o segundo filme estrelado por Chadwick Boseman lançado este ano pela Netflix; o outro foi Destacamento blood, de Spike Lee. Além disso, o longa é uma adaptação de uma peça teatral de August Wilson, o que, em certa medida, justifica a estrutura narrativa do filme: pouquíssima variação de cenários e foco maior nos diálogos e nas atuações. Neste caso, mérito para o roteiro de Ruben Santiago-Hudson, em que se notam diálogos afiados, surpreendentes e tocantes.

Viola Davis como Ma Rainey; corpo, alma e presença na construção da personagem

Em termos gerais, o filme versa sobre o seguinte: Ma Rainey, considerada a mãe do blues pela comunidade à qual pertencia, tinha o hábito de cantar para negros escravizados que se reuniam às escondidas para fazer perpetuar suas tradições culturais e históricas. Uma herança dessas tradições foi o gênero musical blues, oriundo dos cantos de trabalho realizados pelos escravos africanos nos EUA durante o período escravista no país. Segundo alguns historiadores e cineastas como o carioca Leon Hirszman, os cantos de trabalho tinham como função, além de unir os trabalhadores em uma tarefa comum, torná-la menos pesada e sofrida (veja a Retrospectiva Leon Hirszman no Sesc Digital).

Ma Rainey iria para Chicago gravar um disco com sua banda de apoio: o pianista Toledo (Glynn Turman), o contrabaixista Slow Drag (Michael Potts), o trombonista Cutler (Colman Domingo) e o trompetista Levee (Chadwick Boseman). O estúdio de gravação era capitaneado por Irvin (Jeremy Shamos) e Mel Sturdyvant (Jonny Coyne).

O sorriso malandro de Levee, uma de suas características mais evidentes

O que ninguém esperava, contudo, é que a gravação de poucas faixas daria tanto trabalho para os músicos e para os técnicos do estúdio, e a estrutura cinematográfico-teatral da obra coloca o espectador no meio dessa tempestade.

O aspecto teatral é o que se sobressai de imediato na análise fílmica. Não há tantos filmes que adotam essa abordagem mais minimalista, especialmente no que diz respeito ao enredo e à concepção dos cenários. A voz suprema do blues, à exceção de parte bastante pontual no primeiro ato que se passa em uma espécie de salão, se desenvolve principalmente em dois locais: no estúdio de gravação e em uma sala anexa a este estúdio, utilizada para ensaios das bandas. Quentin Tarantino, em Cães de aluguel e Os oito odiados, também se valeu desse recurso de clausura, mas em trechos específicos dos longas, obtendo, ainda assim, basicamente o mesmo efeito de convivência de A voz suprema do blues.

Como é de se esperar em obras com essa estrutura, a qualidade se sustenta nas excelentes atuações; pode-se pensar, a princípio, que apenas Viola Davis e Chadwick Boseman carregam o filme nas costas, mas não é isso o que acontece. Todos os personagens, ainda que em menor escala, têm atuações bastante interessantes, cômicas, dramáticas. O destaque dos coadjuvantes é Toledo, personagem que serve de contraponto comedido ao jeito impetuoso de Levee. Em algumas situações específicas, Toledo e Levee discutem mais ou menos severamente, ora porque o trompetista não quer seguir as partituras oficiais ao longo do ensaio, ora porque Toledo acha que Levee ainda não sabe nada da própria vida.

A caracterização é outro fator bastante positivo em A voz suprema do blues. A presença de Viola Davis em seus momentos de atuação, em partes, é sentida em razão de seu vestuário marcante, que acentua a sua personalidade forte: cores extravagantes, vestidos com cortes diferentes e pouco convencionais a uma mulher negra na Chicago dos anos 20.

Ma Rainey em destaque por seu figurino

No caso dos rapazes, a caracterização não sai por baixo: os trajes evocam aqueles usados por músicos de blues e jazz em seu períodos áureos: camisas de botão, suspensório, ternos listrados, boinas, chapéus e sapatos luxuosos, especialmente os de Levee, a estrela da big band.

Quanto à ambientação, outro acerto. Ainda que o filme se valha de saturação e contraste bem evidentes na construção de planos e fotografias, recurso típico em produções que retratam o passado, os cenários são bastante condizentes quanto à época em que se passa a história. A palheta de cores abrange tons pasteis, especialmente marrom, bege e cinza. O que rompe essa neutralidade é justamente a presença de Ma Rainey, que usa vestimentas floridas e com bastante cor. Dentro do estúdio de gravação, os materiais usados pelos músicos são bem rústicos, fruto daqueles tempos, o que confere verossimilhança à obra.

Ao contrário do que se pode pensar, a musicalidade de A voz suprema do blues não aparece apenas na trilha sonora ou nas cenas em que a banda toca; há trejeitos nas falas dos personagens que demarcam essa musicalidade, como se mesmo em diálogos simples todos eles estivessem falando de modo cantante e ritmado. As gírias e os jargões falados pelos personagens ajudam a estabelecer o contexto sociocultural do grupo, demonstrando certa “ginga” na forma de falar, que se sobressalta também na maneira de andar e dançar. Levee é a epítome dessa ginga; ele está com a banda ao mesmo tempo que não está, já que dedica o tempo de ensaio a escrever canções de sua autoria para vender ao produtor/dono do estúdio, visando, assim, uma carreira solo.

A hora e meia de A voz suprema do blues parece se arrastar em alguns momentos, especialmente quando as primeiras cenas de ensaio na sala anexa do estúdio se alongam além do que seria considerado normal. Entretanto, isso serve, como dito antes, para introduzir o espectador no universo conturbado de uma banda que custa a se entender e a ter foco no que é necessário. Essa ausência de foco pode ser justificada pelo fato de que a banda já está bem entrosada, mesmo havendo trechos nas canções que são diferentes daquilo a que estavam acostumados a tocar.

O diretor George C. Wolfe se diverte com o elenco

A trama sugere, ainda que em segundo ou terceiro planos, algumas discussões, como a forte cisão entre brancos e negros nos EUA dos anos 20; as péssimas condições de trabalho do povo negro na América, principalmente nas indústrias têxteis; e a fome por lucro de representantes da indústria fonográfica, que usam o talento de Ma Rainey e de Levee apenas como produto capaz de alavancar as vendas de discos e a projeção do estúdio. Sacanagem maior é feita com Levee, cujas composições foram compradas pelo sr. Sturdyvant a cinco dólares cada uma para ser executadas por uma banda formada inteiramente por músicos brancos que tocam sem alma, sem vida, sob a batuta de um regente (o que não é comum em bandas de blues, mas uma característica de orquestras sinfônicas e filarmônicas).

Este momento, aliás, é o único em que a quantidade de personagens brancos em tela supera a de personagens negros; a maioria do elenco de A voz suprema do blues é formada por atores negros, o que permite categorizar o filme como um blaxploitation, na medida em que discute questões sociais e raciais inerentes aos negros e confere total destaque a essa minoria.

A voz suprema do blues vai do humor ao drama, desenvolvendo os personagens de maneira bastante orgânica e nada forçada; essas variações fazem parecer que o espectador está acompanhando o grupo há muito tempo, embora do ponto de vista diegético (isto é, da trama) pouco tempo tenha se passado. Tais mudanças de humor também criam situações tensas, especialmente protagonizadas por Levee, que se envolve em tragédias inesperadas.

Os bastidores de A voz suprema do blues

Vale dizer que, na própria Netflix, há um filme de bastidores de A voz suprema do blues, um recurso interessante e enriquecedor já usado em obras como O irlandês, de Martin Scorsese.

A voz suprema do blues veio para ficar, primeiramente, em razão da despedida de Chadwick Boseman das telonas; o longa ficará para sempre marcado como o último filme do ator, o que pode, inclusive, presenteá-lo com um Oscar póstumo em 2021 (apenas rumores, saliento). Em segundo lugar, pela atuação brilhante de Viola Davis, que mergulha com todo vigor e espírito em sua personagem, atribuindo-lhe particularidades marcantes e que a farão ser lembrada como um dos papéis mais espetaculares na carreira da atriz; se justiça for feita pela Academia, Viola estará, no mínimo, indicada ao Oscar de melhor atriz em 2021. Por fim, porque se trata de uma obra que efetivamente abraça a inclusão de profissionais negros em toda a produção, desde o elenco até profissionais dos bastidores que nem sequer costumam ser lembrados em conversas de corredor e botequim. Não é um processo fácil, mas é muito necessário para dar visibilidade aos negros na indústria do cinema, que é predominantemente branca em sua estrutura e em sua aparência.

Trailer de A voz suprema do blues

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