Análise de álbum | “Operation: Mindcrime”, a obra-prima do Queensrÿche

1988. O rock progressivo havia perdido a sua hegemonia no mercado musical e entre os fãs (embora os fiéis tenham permanecido); um ano antes, o Guns ‘N Roses lançava Appetite for destruction, seu álbum de estreia, considerado por muitos o melhor do grupo; o heavy metal estava se reinventando com a New Wave Of British Heavy Metal, um movimento artístico-musical capitaneado por nomes como Judas Priest, Angel Witch, Tigers of Pan Tang e Iron Maiden que tinha como objetivo trazer o gênero de volta à glória que havia perdido com o advento da música pop e da disco music em meados dos anos 1970. Para o Iron Maiden, 1988 foi um ano importante, pois nele foi lançado Seventh son of a seventh son, disco conceitual e inovador na carreira dos britânicos. Mas o Maiden tinha uma sombra; segundo o vocalista Bruce Dickinson:

Eu acreditava que havíamos lançado um disco conceitual definitivo, até que ouvimos Operation: Mindcrime, do Queensrÿche.

Pois é. Operation: Mindcrime, do Queensrÿche, surgiu para estabelecer um paradigma do que os álbuns conceituais (mais especificamente as óperas-rock) deveriam ser. O disco, lançado em 1988 assim como Seventh son of a seventh son, foi idealizado pelo então vocalista Geoff Tate e por outros membros da banda, especialmente o guitarrista Chris DeGarmo.

Capa de Operation: Mindcrime

Sei que alguns conceitos podem causar confusão e estranheza para quem não está tão familiarizado; álbum conceitual e ópera-rock são alguns deles. Assim, vou procurar esclarecê-los aqui, a fim de que a experiência de audição do álbum em análise seja o mais completa possível.

Álbum conceitual

De maneira bem simples e objetiva, um álbum conceitual é composto de faixas que apontam para um mesmo tema, sem necessariamente formar um enredo linear com essas faixas. Quer dizer, todas as canções abordam um mesmo assunto central, mas não formam uma história com início, meio e fim.

Um exemplo de álbum conceitual é Excalibur, do grupo alemão Grave Digger; Excalibur versa, de modo bastante independente, sobre elementos das novelas de cavalaria arturianas, e cada faixa se encerra em si mesma, independentemente das outras.

Outro exemplo, agora mais próximo da nossa cultura, é Cabeça dinossauro, dos Titãs. Esse álbum não costuma ser analisado sob a ótica de um único conceito, mas olhares e audições atentas apontam para uma questão única abordada em canções diferentes.

“Polícia” fala a respeito da truculência policial desmedida contra o povo; “Igreja” fala de certo mal-estar do eu lírico em relação a essa instituição; “Família” traz questionamentos familiares incômodos; “Porrada” fala de injustiça contra “os caras que não fazem nada” e supõe haver outras injustiças que favorecem os que estão no poder: “medalhinhas para o presidente/ condecorações aos veteranos/ bonificações para os bancários/ congratulações para os banqueiros”. Nota-se, assim, que Cabeça dinossauro ataca as instituições sociais brasileiras que promovem desigualdades e injustiças que afligem o povo do país.

Capa de Cabeça dinossauro

Ópera-rock

Toda ópera-rock é, necessariamente, um álbum conceitual. A diferença em relação a este é que uma ópera-rock traz um enredo, linear ou não, que perpassa todas as canções do disco. Há uma história contada, e cada faixa é uma “cena” da trama.

Tommy, do The Who, costuma ser uma das óperas-rocks mais lembradas na cena do rock and roll. O álbum, de 1969, serviu de influência para diversas outras bandas e está na base, inclusive, do rock progressivo e do metal progressivo.

O conceito “ópera-rock” vem exatamente das óperas clássicas, cuja característica é justamente contar uma história cantada que é acompanhada por orquestras. Exemplos de óperas são O anel do Nibelungo, de Richard Wagner, e A flauta mágica, de W. A. Mozart.

Já entrando no objeto de análise deste post, Operation: Mindcrime, do Queensrÿche, é também uma ópera-rock, na medida em que desenvolve um enredo intrigante, corajoso e inovador para os padrões do heavy metal nos anos 1980.

Operation: Mindcrime: análise

Para a concepção do álbum, sugere-se uma América manchada de corrupção política e religiosa, subornos, influência negativa da mídia, além de outras chagas que, na visão de Dr. X e de Nikki, os personagens centrais da trama, corrompem a população norte-americana.

O disco traz alguns recursos do cinema para compor sua estética; em “I remember now”, a primeira faixa de Operation: Mindcrime, o ouvinte é ambientado no que parece ser um hospital, a julgar pelas vozes nos alto-falantes chamando por médicos. Nikki, que foi preso ao final da história, levanta-se da cama, ao que é interrompido por uma espécie de enfermeira, que o seda para que sejam evitadas fugas ou algo mais grave. Após a injeção do sedativo, Nikki começa a se lembrar da razão de estar em uma clínica:

I remember now

I remember how it started

I can’t remember yesterday

I just remember doing what he told me

Nesta faixa, há dois recursos cinematográficos essenciais: os diálogos entre a enfermeira e Nikki e a narrativa não linear, que se inicia do final para contextualizar o começo de tudo.

Após este prolegômeno, a parte musical do disco efetivamente se inicia, com a faixa instrumental “Anarchy-X”, que evidencia, apesar das harmonias simples, interessantes dobras de guitarras e melodias marcantes que preparam o terreno para “Revolution calling”. É nesta faixa que Nikki, representado pelo vocalista Geoff Tate, percebe que há algo errado acontecendo na sociedade norte-americana e é nela também que o personagem toma conhecimento de Dr. X, a mente fria e ligeiramente perturbada que quer perpetrar uma revolução de dentro para fora, causando mortes e mudanças drásticas na estrutura social dos EUA.

O vocalista Geoff Tate em foto recente e já fora do Queensrÿche

Na segunda faixa, “Operation: Mindcrime”, Nikki recebe uma ligação de Dr. X e é convocado para sua primeira missão. Essa canção, além de mostrar esse acontecimento, define a “Operação Mindcrime”, que é uma revolução underground cujos objetivos são a infiltração no sistema e a morte dele. A primeira morte na conta de Nikki deve ser a do padre William, clérigo que tirou uma menina de 16 anos da prostituição e com a qual Nikki desfrutava poucos momentos de prazer e cuidado.

O disco se encaminha, narrativa e musicalmente, para o seu auge, que é a faixa “Suite sister Mary”, a mais progressiva de Operation: Mindcrime. A canção tem cerca de 10 minutos e uma dinâmica impressionante, mesclando narração em off e efeitos especiais de chuva, raios e sinos de igreja. Nesta faixa, Mary já havia sido resgatada da vida de prostituição e se tornado uma membra fiel da igreja. Também é nela que Nikki enfrenta seu maior conflito, que deixa de ser contra a sociedade corrompida que jurou fazer sangrar: agora, Nikki encara dilemas pessoais, pois Dr. X o orientou a matar Mary assim como foi feito com o padre William.

Videoclipe de “Suite sister Mary”

“Suite sister Mary” acentua o caráter cinematográfico do disco, trazendo uma cantora para interpretar a personagem Mary, que contracena com Nikki na canção. Nikki se vê em um dilema porque, para ele, seria dolorido matar a única pessoa que o compreende e que é capaz de sarar sua tristeza e o senso de vazio que o domina. Dr. X, por sua vez, vê a personagem apenas como um objetivo a ser cumprido, esvaziando qualquer possibilidade sentimental no assassinato. A igreja como instituição social corrupta que era, na visão de X, deveria sucumbir às ações do “Anjo da Morte”, epíteto pelo qual Nikki passa a ser conhecido na canção “Speak”, a quinta do álbum.

A faixa “Suite sister Mary”, além da criatividade nas atuações, traz elementos interessantíssimos para a música. O som pesado dos riffs e solos se mesclam a cantos corais de lamento, muito comuns em igrejas católicas e em cantatas. Há grande variação de dinâmica, com alternância entre momentos mais fortes e outros mais fracos.

Sister Mary de fato morre, mas não fica claro, ao longo das músicas, se foi Nikki quem a matou, o que torna evidente o caráter de thriller, mistério e suspense de Operation: Mindcrime. Durante muitos anos uma dúvida pairava: quem matou Mary? Tal pergunta, para além de deixar o ouvinte em parafusos, parece ter desencadeado em Nikki um acesso de loucura: teria ele matado a pessoa mais importante que havia conhecido? Ele não se lembra.

O vocalista Geoff Tate e o guitarrista Chris DeGarmo na capa de uma edição da Kerrang!, revista especializada em rock

Com isso, Nikki acaba preso em um estado de loucura e com acusações de assassinato supostamente cometidos por ele. E aí voltamos ao início, em “I remember now”, que se passa pouco depois das três últimas faixas (“Waiting for 22”, “My empty room” e “Eyes of a stranger”).

Percebe-se, dessa forma, que Operation: Mindcrime parte de um conflito sociocultural externo e vai para outro interno, particular, que evidencia inseguranças e anseios de Nikki.

“Suite sister Mary” e “The needle lies” misturam muito bem aspectos musicais e cinematográficos; no início da primeira, ouve-se um vidro de carro abaixando para dar voz ao manipulador Dr. X, que pede a Nikki que mate Mary; já no início da segunda, Nikki e Dr. X discutem, e X diz que Nikki não poderia desistir do plano, não àquela altura.

Todos esses aspectos e características fazem de Operation: Mindcrime uma obra-prima que merece ser ouvida e reouvida dezenas de vezes. O que é curioso é que boa parte da discografia do Queensrÿche não tem a mesma qualidade do disco em análise, embora os álbuns sejam muito bem produzidos. Além disso, é muito defendido que Operation: Mindcrime seja um pilar do metal progressivo, cujo maior expoente é o Dream Theater; acho esta uma visão equivocada. Há, de fato, elementos que se remetem ao progressivo enquanto estética, mas a maior parte do disco flerta com o hard rock e o heavy metal, ficando o caráter progressivo a cargo de músicas como “Anarchy-X” e “Suite sister Mary”.

Para os padrões da época, em que a simplicidade do grunge e do rock alternativo efervesciam, Operation: Mindcrime ia contra a maré da indústria musical e do rock, de modo mais particular. Um dos fatores que acentuam essa discrepância é a quantidade de faixas, um total de 15, das quais uma tem pouco mais de 10 minutos de duração (“Suite sister Mary”).

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