7 – O Musical: o primeiro espetáculo totalmente inédito de Charles Moeller e Claudio Botelho

Em 2001, o músico, compositor e produtor musical Ed Motta foi assistir ao musical Company, dirigido por Charles Moeller e Claudio Botelho, e ficou encantado com tudo que viu. Dois anos depois ele entrou em contato com a dupla para mostrar suas novas composições. Segundo ele e depois confirmado pelos dois, o que Ed tinha criado é sem dúvida alguma, música de teatro. Moeller e Botelho já conseguiam imaginar cenários, figurinos, personagens, coreografia, e até mesmo maquiagem só de ouvir o som que Ed Motta os apresentava. E como as músicas possuíam uma atmosfera bem sombria, logo os remeteu a um projeto que eles (principalmente Charles, que é estudioso dos contos de fadas) mantinham guardado há um tempo; transformar um conto dos irmãos Grimms em peça de teatro. Afinal, os irmãos alemães são conhecidos justamente por criar narrativas de aspecto obscuro.

Conhecidos por suas grandiosas adaptações da Broadway e Londres, como Hair, A Noviça Rebelde, Rocky Horror Show, As Bruxas de Eastwick, O Despertar da Primavera, dentre outras, a dupla de diretores trouxe aos palcos seu primeiro musical totalmente inédito. Texto, música e letras foram ouvidos e vistos pela primeira vez. Por causa disso, 7 sempre será lembrado como o ponto fora da curva na carreira dos dois. 

Uma releitura da Branca de Neve

O musical conta a história de Amélia (vivida por Alessandra Maestrini), uma moça que se vê em desespero após seu marido a trocar por outra mais jovem e mais bonita e fugir com ela para o subúrbio do Rio de Janeiro. Dominada pelo sentimento de abandono e rejeição, Amélia é orientada por sua madrinha de criação a procurar a cartomante e feiticeira Carmem dos Baralhos (Zezé Motta), que promete trazer seu marido de volta com a condição que ela realize sete tarefas, sendo a última a mais complicada de ser concretizada. A moça precisa arrancar o coração ainda quente, pulsando do peito, de um jovem puro, ingênuo, de preferência que nunca tenha amado ou que pelo menos não possua muitas experiências amorosas, e entregar para Carmem dar procedimento ao feitiço. Caso Amélia não consiga concluir a tarefa, uma terrível maldição recairá sobre ela. 

Paralelamente a trama principal, a plateia acompanha uma segunda trama se desenrolando. Nesta, uma idosa narra a história infantil da Branca de Neve para uma adolescente que a chama de “mãezinha”. Contudo, o público não sabe se a senhora é mãe biológica da menina, se é adotiva, se é madrasta ou nenhuma dessas opções. Apenas no final do espetáculo a verdade é revelada fazendo todo o sentido para o enredo e conflito da peça. 

Essa estratégia do texto e direção de dividir a peça em duas tramas paralelas tem como objetivo permitir que a plateia relacione o drama de Amélia com o conto de fadas, percebendo as referências contidas no primeiro e entendendo o propósito do espetáculo de fazer uma releitura contemporânea do conto dos irmãos Grimms. Afinal, como diz na própria sinopse, “ A história foi levada para um Rio de Janeiro de Contos de fadas, onde fazia frio nas ruas (e nas almas), onde havia mais noite do que dia, onde cartomantes eram bruxas e princesas eram suburbanas.”

Branca de Neve: um tratado sobre a inveja e uma ode à beleza

Charles Moeller se tornou um obcecado estudioso da obra dos irmãos Grimms, colecionou versões e traduções ao longo do tempo e já estava bastante familiarizado com os personagens e enredo. Dentre os contos dos alemães, o que mais lhe interessava era o drama da Branca de Neve, que pra ele é um tratado sobre a inveja. Uma espécie de ode à beleza e à fúria que a busca pela beleza pode desencadear – algo assustadoramente contemporâneo, além de fronteiras.” 

Diferentemente das versões açucaradas da Disney, as versões originais dos contos de fadas são carregadas de violência, sexo, canibalismo, e outros elementos que não são indicados para conter em histórias infantis. E é essa versão mais adulta, com uma crueldade intrínseca, que interessava ao Charles Moeller e Claudio Botelho. 

Como é de conhecimento geral, a história de Branca de Neve mostra até onde a inveja e a obsessão pela beleza podem levar o ser humano. A madrasta da protagonista não aceita perder o posto de “a mais bela de todas” para sua enteada, chegando a ponto de pedir para o caçador arrancar o coração da jovem e entregar-lhe em mãos para que ela pudesse saborear a vitória. E foi a partir disso que surgiu a ideia para 7- O Musical. Charles Moeller se questionava sobre o que fez a madrasta chegar ao extremo de pedir para arrancar o coração de uma pessoa e depois envenená-la. Justamente por isso que a peça coloca a madrasta, através da personagem Amélia, como protagonista, pois a trama se propõe a contar a história de Branca de Neve só que sob o ponto de vista da madrasta, a vilã da narrativa. 

Essa discussão sobre inveja e apreço excessivo pela beleza, infelizmente não fica restrita apenas à ficção. É algo totalmente atemporal, que permanece até os dias de hoje, sendo assustadoramente real. É importante ressaltar que quando se fala em belo e beleza não tem necessariamente ligação com a aparência física, já que a definição de belo é muito mais ampla do que isso, abrangendo traços da personalidade e qualidades psicológicas também. O conceito de belo pode estar associado a alguém inteligente, instruído, bem-sucedido e com poder material, por exemplo. Querer ser a mais bela ou mais belo de todos pode significar adquirir uma dessas características e não apenas ser o mais belo fisicamente. 

O que nos leva a um segundo e terceiro questionamento; o que estamos dispostos a fazer para eliminar a concorrência? Vale a pena fazer tudo que está ao nosso alcance para eliminar quem atravessa nosso caminho em busca da realização de nossos desejos? 

As temáticas abordadas tanto no clássico Branca de Neve quanto no musical 7, são contemporâneas a partir do momento que podemos relacionar com situações e casos divulgados diariamente pela mídia. Diariamente veículos de comunicação transmitem notícias e reportagens sobre homens e mulheres (até mesmo aqueles que já se encaixam no chamado padrão de beleza) que gastam fortunas em cirurgias plásticas e todo tipo de tratamento estético por se sentirem constantemente insatisfeitos consigo mesmos e estarem sempre em busca de uma perfeição que não existe, assim como casos onde candidatos a uma vaga de emprego se digladiam para serem contratados, acontecendo de muitas vezes serem  capazes até mesmo de “sujar” os concorrentes perante os contratantes apenas para conseguir uma vaga. O mesmo ocorre em programas de televisão muito assistidos pelo grande público, como é o caso do Big Brother, onde participantes confinados competem entre eles em prol de um prêmio em dinheiro e o desejo de ser o preferido da audiência. Além, é claro, do quesito fama, sucesso, e as consequentes oportunidades que surgem a partir disso. 

Devido a esses exemplos que Charles Moeller se preocupa com a fúria que a “beleza” pode desencadear nos indivíduos e a partir disso, que 7 se originou. Amélia é na verdade uma vítima de sua própria falta de amor próprio, autoestima e, acima de tudo, do desespero em eliminar a concorrente que acredita ser superior a ela, mesmo que isso seja só impressão dela. Afinal, não é raro pensarmos que o outro é superior e que precisamos derrotar esse outro. Contudo, muitas vezes esse pensamento é apenas reflexo de nosso complexo de inferioridade, que nos faz conseguir enxergar o belo apenas nos outros e nunca em nós mesmos. 

Estreia de Ed Motta na dramaturgia e insatisfação do músico com a falta de reconhecimento

Uma sensação muito esquisita que eu presenciava, era testemunhar que meu público não fazia ideia do musical que eu havia feito, e a audiência da dupla genial, ou não dava muita importância as músicas, ou pensavam que eu era um “trilheiro” contratado. Talvez se a música ou a temática do musical fossem algo ligado à dança, soul/funk o interesse por minha parte seria maior, já que fui carimbado como um gado com “o melhor que você faz é música para dançar” e 7 O Musical é a antítese disso.

Parte da divulgação na época em que a internet começava a ter a mesma importância dos impressos, em alguns casos como a página oficial do musical no Orkut, omitia meu nome. Esse padrão se repete no único registro dessa obra, que está no YouTube, o ser humano que disponibilizou o musical completo omite meu nome completamente.

O justo e correto seria a assinatura “Möeller, Botelho, Motta” tudo foi feito a partir das músicas que já estavam prontas, exceto a abertura instrumental da peça. Mas eu estava tão emocionado e grato em ver minhas composições naquele contexto, que não tive impulso em lutar pelo crédito correto dessa obra. “     

(Texto extraído da página oficial do artista Ed Motta no facebook)

Sete anos se passaram desde que Ed Motta revelou para Charles Moeller e Claudio Botelho sua vontade de compor para teatro. A ideia se concretizou e o resultado dessa inédita parceria foi a estreia do músico no teatro musical. Os temas de Motta ganharam letras de Botelho e um texto inédito de Moeller. Além das composições, Ed Motta também contribuiu na direção musical do espetáculo. 

Mas se num primeiro momento Ed vibrou com a oportunidade, mais tarde viu-se frustrado com a falta de reconhecimento que sua participação em 7 – O Musical teve. Na página oficial da peça no antigo orkut o nome do músico não é citado ao lado de Charles Moeller e Claudio Botelho, assim como também não é na descrição do vídeo no youtube que exibe a peça completa. Os créditos mais uma vez só foram para a dupla de diretores. Porém, como ele estava tão empolgado em ver suas composições naquele contexto, não teve impulso em lutar pelo crédito correto da obra, se arrependendo dessa decisão posteriormente.

Aclamado pela crítica x  fracasso comercial

Embora 7 tenha recebido o reconhecimento da crítica especializada, o resultado financeiro não foi o esperado. Vencedor dos prêmios APTR (Associação dos produtores de teatro do Rio)  e Shell nas categorias de melhor direção, figurino e iluminação, além de ser elogiado pela consagrada crítica de teatro Barbara Heliodora, o musical não rendeu tanta bilheteria.

“Como sempre, as letras de Claudio Botelho são impecáveis para o canto integrado na ação dramática (…) A direção de Charles Möeller conduz bem o elenco numeroso, favorecendo comportamentos de tipo, como requer o texto, e particularmente eficiente nos números de conjunto.”

(opinião da crítica de teatro Barbara Heliodora)

Tanto Charles Moeller e Claudio Botelho quanto Ed Motta explicam isso pelo fato do público brasileiro não se interessar por musicais com histórias e músicas desconhecidas. Seguindo o pensamento deles, a plateia prefere assistir adaptações a peças inéditas, pois gosta de conhecer as letras dos números musicais pra cantar e vibrar junto. Por isso que 7 – O Musical foi a peça de Moeller e Botelho que mais os trouxe reconhecimento artístico e profissional, mas a que menos teve reconhecimento comercial.

“ O brasileiro não gosta muito de ouvir o que não conhece, 7 foi o espetáculo que mais nos deu vitórias artísticas, mas o que menos deu dinheiro.”

(Claudio Botelho em entrevista ao jornal Folha de São Paulo).

Projeto para tv e continuação

Em 2013, foi anunciado que a peça se transformaria numa minissérie musical do canal de tv por assinatura,HBO, contendo 7 episódios. O responsável pela produção seria Estevão Ciavatta. Além disso, 7 ganharia uma continuação teatral intitulada de “Verônica ou 13”, com letras de Charles Moeller e composições de Claudio Botelho. Contudo, por motivos desconhecidos, acabou não rolando nenhuma dessas produções.

Atores e sua capacidade de multiplicarem-se

Na peça a personagem de Alessandra Maestrini vive simultaneamente 3 personagens dos contos de fadas: A rainha má e o caçador da Branca de Neve, além da Cinderela. Amélia era a mais bela da rua antes da moça que conquista seu marido aparecer e por isso deseja destruí-la para ter seu amor de volta, tornando-a semelhante a rainha má, – ainda mais levando em conta o final da peça – precisa arrancar o coração de um jovem assim como o caçador, e em certo momento é humilhada e obrigada a fazer serviços domésticos numa casa de prostituição comandada por uma chefe autoritária e duas meninas invejosas, fazendo menção a madrasta e as duas irmãs más da Cinderela.  Até a feiticeira Carmem dos baralhos, de certa forma, também interpreta mais de um personagem ao encarnar a madrasta da Branca de Neve em dado momento da peça.  

7: Um elenco grandioso que forma um conjunto harmonioso

7 é um musical grandioso, com elenco numeroso, como todos os espetáculos da dupla Charles Moeller e Claudio Botelho. São muitas pessoas no palco e por trás dele pra fazer a peça acontecer. Em vários momentos, a maioria dos atores estão em cena ao mesmo tempo, mas sem que todos estejam contracenando. O palco é dividido em núcleos e em cada um, um acontecimento está sendo desenrolado. Mas mesmo nos números musicais onde há maior interação entre o elenco, o resultado é completamente harmonioso e bem organizado. É bem coreografado para que ninguém se sobreponha ao personagem que está em destaque naquela cena. O conjunto é tão harmonioso que todos colaboram para realçar o enredo da peça e consequentemente, avançar a narrativa que está sendo contada.

A importância do corpo na construção da narrativa em musicais

O corpo é um dos principais instrumentos no âmbito da dramaturgia, mas quando se trata de musicais essa importância se intensifica mais. Afinal, nesse tipo de espetáculo a expressão corporal também vem acompanhada de coreografias que têm como função explicar para a plateia quem é determinado personagem, corroborar com uma cena específica e é claro, dar continuidade a história.

Portanto, não é apenas através do texto que os atores passam a mensagem pretendida, mas também, por meio de toda expressão corporal. Desde pequenos gestos e olhares até movimentos mais bruscos, o corpo inteiro do ator está a serviço da narrativa.

Prêmios

  • Prêmio APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio:

 Melhor Autor para Charles Möeller;

 Melhor Diretor para Charles Möeller e Claudio Botelho;

 Melhor Figurino para Rita Murtinho;

 Melhor Iluminação para Paulo César Medeiros.

  • Prêmio Shell: 

Melhor Direção para Charles Möeller; 

Melhor Figurino para Rita Murtinho;

Melhor Iluminação para Paulo Cesar Medeiros.

Temporadas

  • O espetáculo estreou em 1º de setembro de 2007, no Teatro João Caetano (RJ).
  • Em 27 de Setembro de 2008, “7 – O Musical” reestreou no Rio, desta vez no Teatro Carlos Gomes.
  • Em 17 de Abril de 2009, a peça estreou em São Paulo no teatro Sérgio Cardoso.

A peça pode ser assistida completa através desse link aqui: https://www.youtube.com/watch?v=6d1wsNolRzw&t=3875s

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