Crítica | Godzilla vs Kong: pancadaria em neón

Assim que anunciado, o embate em CGI de dois dos monstros mais conhecidos da história do cinema causou uma enxurrada de memes em fóruns, redes sociais e afins. Semelhante a uma brincadeira de criança com dois bonecos de coleções diferentes, “Godzilla vs Kong” chega às salas brasileiras com quase um mês de diferença de sua estreia mundial e na HBO Max, simultaneamente.

Ambas as estrelas desse longa são personagens criados para serem metáforas da falta de humildade do ser humano perante poderes maiores do que pode controlar. Kong representa a força da natureza e os poucos pontos inexplorados do planeta na década de 30 do século passado. Já Godzilla, seria a energia atômica usada na guerra contra um, até hoje (com razão), traumatizado Japão. Aqui, a dupla aparece como lutadores de telecatch, a luta livre americana, onde a audiência encara os diálogos mais como uma pausa entre uma pancadaria e outra. Porém, mesmo sem muita verbalização por parte dos astros do show, ambos ainda possuem arcos melhores do que todos os humanos do longa, o que não quer dizer muito em termos de narrativa, se é que se pode chamar de arco a progressão de acontecimentos dos outros personagens.

A verdade é que aqueles que compram um ingresso para ver a contenda não querem ver desenvolvimento de personagens, diálogos afiados ou algo do tipo: o público quer PORRADA, e um CGI de qualidade. Desse ponto de vista, os dramas de qualquer pessoa na história servem apenas para mover a briga entre o lagarto japonês e o gorila americano de ponto a ponto no globo terrestre. 

E a porradaria entre a dupla é o máximo que o cinema pipoca pode entregar: eles brigam no mar, na cidade, e o “mocinho” maior, Kong, briga na selva com monstros aleatórios para ir passando de fase e destravando novos cenários, tudo colorido com neón. Impressiona como até um mundo desconhecido e inexplorado tem luzes semelhantes ao neón. 

Então, a dupla vai de trocação em trocação até o embate final com Kong, juntando forças com seu insistente desafiante com o surgimento de um inimigo comum. Esse adversário da dupla talvez seja o mais próximo de uma mensagem que o filme possui, ecoando os originais: não mexam com o que não conhecem, bilionários, ou pelo menos façam alguns testes antes. 

Voltando à metáfora do telecatch, “Godzilla vs Kong” parece mais um episódio de TV caro com dois monstros se batendo no lugar de dois bombados de cueca, onde não há riscos para nenhum personagem mais gostável da história, e os odiados são tirados de cena sem muita cerimônia. 

Numa tentativa de emular a moda de universos compartilhados, já se especula uma continuação do Monsterverse. o que provavelmente renderá em termos financeiros. Do ponto de vista artístico, talvez seja mais justo com o público abraçar de vez a galhofa ao invés de informações pseudo-científicas, tirando os sérios cientistas de cena e colocando uns narradores gritando “O GUINDASTE, USA O GUINDASTE NA CARA DELE”. Com certeza seria mais divertido e honesto que o humor involuntário de certos diálogos “maduros” que tentam passar uma impressão do que no fundo é apenas uma diversão juvenil. 

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