Crítica | Cidade Invisível (1ª Temporada) – Por mais histórias sobre o Folclore Brasileiro

Muita gente é fã de mitologias. A grega, então, é uma das mais populares, e recentemente a nórdica tem ganhado bastante espaço, principalmente por conta de títulos da cultura pop que ganharam o apreço do público, como  God of War, The Last Kingdom e Vikings. Falando agora especificamente do Brasil, obviamente muitos fãs de mitologias existem por aqui também, mas é bem interessante notar que poucos falam sobre a NOSSA mitologia, o NOSSO lore, o NOSSO folclore.

Infelizmente, a maioria dos brasileiros têm um hábito bem errôneo de achar que “tudo que vem de fora é melhor”. Quem nunca ouviu alguém falar coisas como: “filme brasileiro? Deve ser uma mer***”. Quem tem esse tipo de pensamento falha em ver as possibilidades que temos bem na nossa frente, e o que elas têm a oferecer.

Ainda bem que hoje em dia existem pessoas que conhecem, apreciam, e desejam usar o nosso folclore para contar histórias interessantes, de maneira que até então nunca tínhamos visto. E o destaque mais recente é a série Cidade Invisível, da Netflix.

Cidade Invisível (Netflix)

Cidade Invisível conta a história de um detetive do Rio de Janeiro chamado Eric Alves (Marco Pigossi), cuja esposa foi misteriosamente assassinada. Ele ficou obcecado em descobrir a causa da morte de sua mulher, e isso o coloca numa investigação que o leva a descobrir que todas as lendas que conhecemos desde criança, como o Saci (Wesley Guimarães), a Iara (Jessica Córes), o Curupira (Fábio Lago) e a Cuca (Alessandra Negrini) não são só lendas. As criaturas mitológicas do nosso folclore existem, e vivem escondidas entre nós. Os acontecimentos levam a eventos bizarros, e logo uma batalha antiga entre o Curupira e outra entidade maligna está para acontecer novamente.

De cara, realço o tom adulto que a série aborda nosso folclore. Considero isso um elemento importante, pois muitos ainda associam personagens como Saci e Curupira à histórias infantis. Nesse sentido, o destaque vai para a franquia Sítio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato, que é a nossa mais famosa representação do folclore brasileiro para o público geral, e é voltado para as crianças. Cidade Invisível veio para tentar quebrar esse paradigma.

Porém, vale mencionar que Cidade Invisível não é a primeira tentativa de fazer esse tipo de coisa. Títulos menos conhecidos existem na cultura pop brasileira, como é o caso das revistas em quadrinhos Xamã e Causos, de Eberton Ferreira, o game Guerreiros Folclóricos, de Joe Santos e que segue em produção pela Unique E. Digital, entre outros títulos menos conhecidos. Até mesmo a DC Comics recentemente deu um pouco de atenção ao nosso folclore com a criação da Mulher Maravilha brasileira Yara Flor. Apesar disso, a maioria desses títulos são bem nichados, o que torna Cidade Invisível bem especial, já que se trata de uma produção pensando no grande público, o que pode ajudar a fomentar mais essa visão do nosso folclore.

Causos – Revistas em quadrinhos sobre Folclore Brasileiro
Guerreiros Foclóricos – Game em desenvolvimento

A série mistura bem o lado realista da cidade do Rio de Janeiro com a misticidade do nosso folclore. Foram poucos os seres folclóricos que vimos nessa primeira temporada, porém eles foram bem utilizados e bem desenvolvidos. Vemos aqui essas criaturas como seres organizados e unidos, e com personalidade própria. As habilidades de cada um também é bem retratada, e em casos como o de Curupira, parece até história de super heróis.

Isso, por sua vez, é um elemento negativo na opinião de algumas pessoas, sendo interpretado como uma tentativa de colocar o folclore brasileiro dentro do “padrão modinha dos super heróis”. Particularmente não vi problema nessa suposta tentativa, independente se ela for verdadeira ou não. Inclusive, identifiquei algumas características desta série que se assemelham com a franquia Deuses Americanos, principalmente na questão do “choque de realidades” entre o nosso mundo e as mitologias. Não sei dizer se foi proposital, mas as semelhanças são notáveis.

A narrativa tem um ar investigativo interessante, que ao mesmo tempo que mantém o mistério típico de quem é o culpado do caso, também nos apresenta de forma gradativa as criaturas folclóricas presentes na trama. E assim esses dois elementos vão se casando até chegarmos na verdade, que afeta ambos os lados.

Algo que achei muito válido foi a abordagem que deram para as criaturas. Dando uma origem para a maioria deles, e explorando elementos que não são tão conhecidos assim pelo público. Por exemplo, a Cuca ser retratada com a aparência humana, ao invés de sua forma réptil, e abordarem a sua relação com as borboletas, algo relativamente impopular para o público geral. A forma como relacionaram ela com a canção de ninar também foi bem criativa.

Dentre os personagens da série, de longe os que mais chamam atenção são os folclóricos. Como dito, a forma como eles foram retratados aqui foi bem interessante, inédita e crível, e me faz querer saber mais sobre os demais seres não mostrados nessa 1ª temporada. Já os personagens humanos não são lá muito interessantes nem muito carismáticos. Servem basicamente pra levar a trama pra frente.

A forma como misturaram a realidade carioca com os mitos foi bem feita e coerente. Por exemplo, os seres folclóricos se esconderem justamente na Lapa foi uma sacada bem inteligente, por tudo que aquela região simboliza na cidade. É o tipo de coisa que faz jus ao termo “Cidade Invisível”. Eles estão bem diante de nós, mas invisíveis pra quem não quer enxergar. Se bem que eu acharia bem legal se existisse literalmente uma cidade invisível em um outro plano onde os seres foclóricos vivem (rsrsrs).

Cidade Invisível nos apresentou uma adaptação intrigante do lore tupiniquim, com abertura pra mais exploração, tanto é que foi renovada para a segunda temporada. Mas na minha opinião, o mais importante é que essa série abriu um leque de possibilidades para abrir a mente de outras pessoas que estão dispostas a pegar o que temos de mais único e especial no nosso país e explorar isso das mais variadas formas. Afinal, assim como os gregos têm o Zeus, os nórdicos têm o Odin e os japoneses têm Amaterasu, nós temos Tupã, e seria muito bom que todos nós soubéssemos disso.

Se quiser saber mais sobre produções brasileiras envolvendo folclore, recomendo o capítulo do meu podcast Farol, onde falamos sobre como os brasileiros falham em valorizar a própria cultura. Recomendo também o canal do Eberton Ferreira, que aborda como é ser um quadrinista brasileiro independente, trabalhando com produtos 100% nacionais.

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