Crítica | Bela Vingança: uma sátira cruel e debochada do universo da cultura pop

“Mulher que bebe até desmaiar é porque quis dar sorte ao azar! Não sabe se cuidar. Se colocou numa situação de vulnerabilidade por conta própria. Depois não adianta reclamar.”

” Pra quê destruir a vida e carreira de de um homem pra sempre por algo que aconteceu há anos? Ele era só um menino, uma criança…”

É a partir dessas premissas que Bela Vingança, vencedor do Oscar desse ano na categoria de melhor roteiro original (a roteirista e diretora se chama Emerald Fennel. E sim, tinha que ser mulher, é óbvio.) se desenvolve. O filme levanta a bandeira do feminismo do início ao fim de forma consistente, coerente, empática e diria até bem didática. Quem está por fora ou acha a causa mero mimimi vai (espero eu) ao menos cogitar levar a sério. Pelo menos quem não é um sociopata. 

Brincadeiras à parte, (ou nem tanto) a trama traz um acontecimento trágico (que acontece todos os dias, diga-se de passagem) para mostrar as consequências de uma sociedade extremamente machista, com valores patriarcais, que tende na maioria das vezes a culpar a vítima ao invés do criminoso. 

O público acompanha a missão de vingança de Cassie (Carey Mulligan), uma jovem que largou a faculdade de medicina e abriu mão de um futuro brilhante para cuidar de sua amiga Nina, após a moça ser abusada sexualmente durante uma festa da faculdade enquanto os colegas de curso assistiam aos risos. O trauma foi tão grande que Nina não conseguiu voltar pras aulas, acabando por se suicidar. A partir disso, Cassie coloca em prática o plano de vingar a amiga. Quase toda noite ela vai pra uma boate sozinha e finge estar bêbada pra dar uma lição nos homens que tentam levá-la pra casa com o objetivo de se aproveitar de seu estado. 

Bela Vingança representa bem o que se passa na cabeça masculina ao ver uma mulher nessa situação; a falta de culpa e a normalização do ato criminoso é estampada aos nossos olhos. Afinal, o que uma mulher pretende ao sair sozinha, à noite, com o corpo e a mente cheia de álcool? É lógico que ela estava pedindo pra ser estuprada. Quem mandou encher a cara? Depois não adianta querer culpar o homem por ter feito o que ela mesmo estava procurando. Porque se não tivesse, nem estaria ali, desacompanhada, uma hora daquelas. 

Cassie (Carey Mulligan)

Esse pensamento é chocante, mas é o que está ali subentendido na fala dos personagens (em alguns momentos fica explícito mesmo, pra deixar bem claro). É como se atitudes misóginas fossem totalmente justificáveis. 

Chama atenção a cumplicidade que as testemunhas têm pelos criminosos ao presenciar o ato criminoso. Ao invés de defender a vítima, assistem calados e até se divertem com a situação. São telespectadores omissos e coniventes. Logo no início do filme, quando Cassie finge estar alcoolizada e um cara decide ao invés de deixá-la em casa, levá-la pra casa dele, o motorista vê claramente que ela não está  em condição de tomar nenhuma decisão por vontade própria e mesmo assim faz o que o cara pede, permitindo que a mulher fique em risco. 

A personagem Madison retrata a figura da mulher machista, aquela que faz de tudo pra encontrar falhas no comportamento feminino que “justifique” o comportamento masculino, sem conseguir perceber que o contexto que defende está preparado para puni-la quando achar necessário. Segundo ela, a mulher deve ser responsabilizada por ter dado sorte ao azar, se colocando numa situação de risco por vontade própria. Ela achou engraçado quando viu o vídeo do que aconteceu com Nina e precisou sentir na pele o que a garota sentiu, através do plano de Cassie, para conseguir ter empatia e perceber que ela também não está imune de sofrer o mesmo que a outra. 

O mesmo ocorre com a reitora da universidade, que precisa ver a filha numa situação parecida para poder se importar. Ou seja, o objetivo é mostrar que as pessoas só se compadecem por vítimas de abuso quando as vítimas são elas mesmas ou um dos seus. Fora isso, são indiferentes, julgadoras e insensíveis. 

Outra fala triste e polêmica de Madison é sobre a predileção masculina. Ela afirma durante uma conversa com Cassie, que os homens podem até gostar de namorar feministas na faculdade porque nessa fase é visto como “cool” se relacionar com alguém que defenda uma causa. Porém, pra casar preferem “as boas esposas”, de preferência as que não trabalham. Afinal, o homem detesta a independência feminina. 

O que torna Bela Vingança um filme necessário de ser visto e revisto é justamente esse “tapa na cara” reflexivo que causa em quem o assiste. É doloroso, mas crucial para questionarmos e confrontarmos a sociedade na qual estamos inseridos. 

Por outro lado, considerar a trama pesada depende muito de como cada espectador enxerga o termo. Pela sinopse é possível imaginar que a vingança de Cassie ao sair às noites seria matar os homens que tentam abusar dela “alcoolizada”. Está certo que não temos como saber exatamente o que ela faz com eles já que não é mostrado (com exceção de uma cena que não fica claro se aquele é o procedimento habitual dela ou se naquele caso ela resolveu dar uma chance pro cara), mas uma coisa temos certeza: pode ser até que ela os torture, mas eles continuam vivos. Seja qual for o método utilizado por ela, só o fato do roteiro não exibi-lo e deixar a cargo da imaginação de cada um, já traz uma “leveza” pro filme. Mesmo que seja uma leveza bem rasteira, já que embora não tenha carnificina e violência gráfica como é comum nos longas que têm como temática a vingança, existe uma violência implícita rondando toda a narrativa. 

Essa impressão que Bela Vingança se tratará de uma trama envolvendo muito sangue, tortura física e assassinatos acontece por causa da tradição de filmes que temos com esse plot e essa premissa da mulher justiceira. Porém, o diferencial de Bela Vingança está justamente aí. Ele até pode se utilizar de um argumento clichê, mas a forma que o desenvolve fica longe de qualquer clichê do gênero. 

Aliás, uma das maiores qualidades desse filme está em quebrar expectativas que ele mesmo alimenta, o tempo todo. Começando pela própria sinopse, como foi dito, e terminando nas duas reviravoltas que ocorrem; a primeira que acontece no clímax e a segunda pós clímax. A gente começa achando que vai assistir uma determinada trama, depois percebe que não é bem por aí, pra terminar o filme e perceber que estávamos certos desde o início. Ou seja, o filme tenta “trollar” o espectador mais de uma vez pra no fim jogar um balde de água fria, mas no sentido mais positivo da expressão. Você vai levar um soco na cara, mas vai gostar da sensação. Mais do que isso. Você vai se sentir satisfeito por isso. 

Esse filme consegue a proeza de criar expectativas e não correspondê-las, e mesmo assim não decepcionar. O que é o oposto do que sempre acontece em narrativas que não satisfazem a expectativa de quem assiste. Aqui, essa quebra de expectativas, por mais louco que seja, não causa frustração, mas sim, admiração.

Um filme que se apropria da linguagem da cultura pop para criticar essa mesma cultura

Com uma linguagem, trilha sonora e características narrativas próprias da cultura pop, Bela Vingança se diferencia dos filmes habitualmente indicados ao Oscar (ainda mais dos vencedores) e simultaneamente funciona como crítica aos clássicos da comédia romântica americana, que ele mesmo reproduz como uma espécie de paródia cruel e debochada. Ou seja, o filme se utiliza desse universo para discuti-lo, tendo como foco de debate a idealização dos relacionamentos românticos e a solução de todos os conflitos da protagonista feminina através de uma relação afetiva com um homem, como se o encontro de um par romântico ideal (o que também por si só já é fantasioso) fosse o objetivo maior tanto da personagem quanto do público. 

Os traços de comédia romântica estão ali desde o início apesar de envolto numa trama densa, que aborda temáticas de grande importância e gravidade. Até mesmo o fato da personagem principal trabalhar num café, ter uma chefe divertida e engraçada, representando a amiga conselheira e intrometida, faz referência a aspectos comuns de filmes do gênero que quem está habituado com essas produções vai reconhecer na hora. Quando a figura do “cara legal, diferente dos outros homens” entra em cena, fica mais claro ainda a comparação. Ainda mais levando em conta a forma que eles se reencontram na história. 

Laverne Cox em cena de Bela Vingança

Só que apesar dessas semelhanças propositais, Bela Vingança não tem nada de comédia romântica. A proposta é criar identificação para logo depois subvertê-la. Contudo, como desde o princípio percebe-se que a ideia do roteiro é outra, o estranhamento não surge pelo final do filme romper com a narrativa de comédia romântica, isso já era esperado e seria frustrante se fosse diferente. O estranhamento se deve ao momento que a protagonista deixa sua causa um pouco de lado pra viver um romance, tendo como ápice a cena romântica do casal dançando na farmácia ao som de Paris Hilton.

Cassie e Ryan

Aí percebemos que tem algo de errado. A gente pensa “como assim uma história que prometia tanto vai terminar igual tantas por aí, com a mensagem que só um relacionamento pra fazer a mulher esquecer seus ideais e dar uma nova chance à vida e ao amor?” Não que esse tipo de mensagem não tenha seu valor (tomadas as devidas precauções, é claro), pelo contrário, é uma mensagem necessária e que muitas pessoas precisam ouvir pra não endurecer demais, aprender a viver de forma mais leve, ter um pouco mais de confiança no futuro, não pensar que por causa dos percalços têm que se transformar numa pessoa amargurada que não se permite vivenciar as emoções, enfim. Entre outras coisas que podemos absorver de filmes com essa proposta. 

Mas aqui, nesse caso específico, essa mensagem não casa com o objetivo maior do longa, que é denunciar o machismo da nossa sociedade e a consequência mais grave disso que é o feminicídio. Logo, a primeira subversão que espanta, já a segunda traz alívio ao espectador. Não! Ryan (Bo Burnham) não era aquele bom moço que iria salvar a mocinha da história de seus anseios de vingança e fazê-la acreditar nos homens. E ainda bem que não era, pois se não a mensagem do filme teria ido por água abaixo. Graças a deus era só uma pegadinha da roteirista e diretora, que quis “gritar” bem alto no nosso ouvido, pra não deixar nenhum resquício de dúvida em quem ainda insistia em não entender. “EI, ISSO AQUI NÃO É UMA COMÉDIA ROMÂNTICA. ACORDA PRINCESA E PARA DE IDEALIZAR ISSO QUE VOCÊ TÁ VENDO!”

E esta, é a maior lição que Bela Vingança esfrega (sem pudor) na nossa cara. Doa a quem doer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s