Crítica | Viúva Negra: Uma boa, porém morna, despedida

Depois de anos, diversos pedidos de fãs e muitos adiamentos, finalmente o filme solo da Viúva Negra chegou aos cinemas e ao Disney Plus. Será que a história focada em Natasha Romanoff faz jus à personagem?

O longa é o primeiro filme da Fase 4 do Universo Cinematográfico da Marvel, franquia que começou em 2008, e que perdura até hoje com diversos títulos lançados todos os anos. Natasha Romanoff foi introduzida na franquia em Homem de Ferro 2, de 2010, e desde então tem sido trabalhada ao longo dos demais filmes em que apareceu, passando por aventuras ao lado do Capitão América, como membro dos Vingadores e agente da SHIELD. Somente agora, 11 anos depois da sua primeira aparição nas telonas, que a Viúva Negra ganhou uma aventura pra chamar de sua.

Viúva Negra em Homem de Ferro 2

A trama se passa entre os eventos de Capitão América: Guerra Civil, de 2016, e Vingadores: Guerra Infinita, de 2018. Natasha (Scarlett Johansson) agora era uma fugitiva das Nações Unidas por ter violado os chamados Tratados de Sokóvia, que era um acordo que basicamente impedia os Vingadores de atuarem fora da supervisão da ONU.

Em Capitão América: Guerra Civil, divergências provocadas pela criação desse tratado, junto aos eventos acontecendo naquela ocasião, resultaram em um confronto entre duas facções diferentes dos Vingadores. Viúva Negra, a princípio, estava lutando pela facção que apoiava o tratado, liderada pelo Homem de Ferro, mas no final ela decidiu apoiar o Capitão América e os Vingadores renegados, o que a levou a esse momento em sua aventura solo, onde ela está sendo perseguida pelas forças governamentais americanas.

Em meio ao seu exílio, Natasha recebe uma mensagem de sua irmã adotiva Yelena Belova (Florence Pugh), o que a leva a uma jornada que a levará a enfrentar demônios passados, reencontrar antigos rostos e resolver assuntos mal-acabados.

Problemas familiares

Algo que esse título aborda é a importância de família. Logo no início da história, vemos uma criança Natasha (Ever Anderson) vivendo uma vida de mentira, juntamente com uma falsa família formada por espiões russos infiltrados. Logo de início nos é mostrado ela e sua irmã sendo levadas para a famigerada Sala Vermelha, onde passam por anos de condicionamento físico, lavagem cerebral, experimentos e treinamento duro, para se tornarem Viúvas Negras, assassinas e exímias espiãs do governo russo.

Já cortando para o tempo presente, agora temos o reencontro dessa falsa família, que apesar de ter vivido uma aparente mentira, nutriu um verdadeiro apego familiar entre eles, o que os levou a irem juntos na empreitada de acabar de vez com a Sala Vermelha. Claramente o filme tenta passar a mensagem dos valores familiares, demonstrando a forma como família funciona de maneiras nem sempre convencionais, e que elas são formadas inesperadamente, a ponto de uma mentira acabar se tornando verdade.

Funciona como filme isolado?

Como toda obra do Universo Cinematográfico da Marvel (conhecido também pela sigla UCM, ou MCU em inglês), Viúva Negra possui relações estritas aos filmes e até séries de TV anteriores, tanto direta como indiretamente. E a Marvel Studios, que produz todos esses filmes, não se preocupa mais em deixar tudo explicado para os fãs. Atualmente, eles se sentem seguros de que todos os (ou pelo menos a esmagadora a maioria dos) expectadores já estão por dentro do que está acontecendo na saga, tornando menções e referências mais didáticas desnecessárias.

Todas as explicações sobre o Tratado de Sokóvia e os eventos de Capitão América: Guerra Civil que eu mencionei mais acima são um exemplo disso, já que elas foram dadas por minha própria vontade, e nada é devidamente explicado no filme da heroína, o que pode ser ruim para a expectadores de primeira viagem, que não viram as histórias anteriores, e ao mesmo tempo querem saber mais sobre o que está acontecendo de maneira geral.

Ao mesmo tempo, Viúva Negra é um dos títulos que mais conseguem se manter independentes, talvez por aproveitar justamente do fato de que o passado da protagonista nunca foi devidamente explorado em obras anteriores. Fora menções leves e rápidos flashbacks (como a famosa missão em Budapeste mencionada pela primeira vez no filme Vingadores, de 2012) não vimos nada do passado de Natasha Romanoff no MCU… até agora.

E isso foi muito bom, já que nós conseguimos conhecer ainda mais a personagem, descobrir mais da sua história, além de finalmente ver como aconteceram certos eventos que, até então, só ouvimos serem mencionados em conversas. Como muitos já devem saber, Natasha morreu nos eventos de Vingadores: Ultimato, de 2019, que se passa 5 anos depois de Viúva Negra. Então essa poderia ser a última oportunidade de termos essas histórias sendo contadas.

E as caras novas?

Quanto aos demais personagens, eu os achei bem interessantes, cada um a sua maneira. Alexei Shostakov (David Harbour) é o típico soldado aposentado que não aceita que não está mais nos seus dias de glória. Senti falta de ver mais ação com o Guardião Vermelho, mas compreendi ele ser um tipo de alívio cômico. Inclusive, acharia uma boa ideia uma série do Disney Plus estrelando um Guardião Vermelho mais jovem.

Melina Vostokoff (Rachel Weisz) me deixou intrigado com a sua postura, hora parecendo uma mãe amorosa (mesmo que de maneira reclusa), outra demonstrando que pode trair a todos a qualquer momento, e isso me prendeu sempre que havia uma interação com essa personagem.

Porém, quem se destaca realmente aqui é Yelena Belova. A jovem espiã esbanja carisma com seu jeito cínico e ao mesmo tempo meigo, e sua personalidade forte. Florence Pugh com certeza foi uma ótima adição ao MCU.

Infelizmente, o mesmo não pode ser dito dos antagonistas, que são desinteressantes e mal aproveitados, principalmente o Treinador, cujo plot twist envolvendo a sua identidade, apesar de interessante e coerente, foi clichê e (pelo menos aparentemente) matou diversas possibilidades que o personagem disponibilizava caso optassem por mantê-lo mais fiel ao material original dos quadrinhos.

Deslize na narrativa

Algo que me chamou a atenção é como esse título possui uma narrativa relativamente similar a outro filme da Marvel Studios: Capitão América 2: O Soldado Invernal, de 2014. Temos um thriller de espionagem, onde uma organização antes dada como destruída se revela ativa, um protagonista foragido que encontra aliados fiéis, e tendo como principal oponente um assassino implacável e a princípio desconhecido, mas que no final se revela ser alguém ligado ao seu passado doloroso.

Até mesmo o cenário do terceiro ato é parecido (uma base nos céus, que inclusive é destruída no final). É muita semelhança pra ser mera coincidência. Para aqueles que se atentarem a esse detalhe, pode ser um incômodo, pois dá a impressão que estamos assistindo a mesma história, mas com contextos diferentes.

Por ser um filme da Viúva Negra, era de se esperar uma trama mais voltada para a espionagem, com elementos que lembrassem títulos como a franquia 007 ou os livros de Tom Clancy. Existe sim certas influências dessas obras citadas, mas infelizmente, essa aventura acabou se mantendo nos padrões de filmes de ação explosivos da Marvel. Apesar de isso não ser um demérito, já que é uma obra bem feita nesse quesito, particularmente considero uma oportunidade perdida de trazer algo diferente para a franquia.

Vale a pena?

Viúva Negra foi uma boa despedida da personagem ao Universo Cinematográfico da Marvel. Porém, poderia ter sido bem melhor. A trama foi corrida, e não teve elementos de espionagem que seriam atrativos para uma história estrelada pela heroína.

Porém, a trama trouxe elementos importantes para a franquia, como Yelena Belova por exemplo, e fechou algumas lacunas em relação à história de Natasha, além de deixar pontas claras pro futuro (veja a cena pós-créditos). Foi um triste, mas inevitável adeus à Natasha Romanoff, e ao mesmo tempo uma entrada eficiente aos filmes da nova fase da Marvel nos cinemas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s