Crítica| Round 6: mistura de referências gera série movimentada e reflexiva

A dificuldade de criar uma obra original em nossos tempos é gigante – às vezes, parece que todas as músicas que deveriam ser compostas já foram, todos os filmes gravados e todos os livros que importam escritos. Tudo parece a cópia de algo que já foi feito, e quanto mais bagagem se tem, mais difícil não ter a sensação de “já vi isso antes”.

Round 6”, série de sucesso da Netflix, não foge à regra: parece um monte de coisa. A diferença aqui é que Hwang Dong-hyuk, diretor e roteirista, mistura as influências e referências para entregar uma série enxuta, que em nenhum momento parece se alongar para que o espectador gaste mais horas no serviço de streaming que o necessário para ver uma boa história, e ainda deixa ganchos para a continuação.

Hwang Dong-hyuk, diretor e roteirista de Round 6

Entre as influências na mistura coreana, é fácil perceber da franquia de horror porn “Jogos Mortais”, do clássico distópico japonês “Battle Royale” (que inspirou “Jogos Vorazes”), e “O sobrevivente”, filme de ação oitentista de Arnold Schwarzenegger, entre outros.

A história é simples e profunda: pessoas com dívidas impagáveis são convidadas para uma gincana, tendo que participar de 6 brincadeiras infantis cujos perdedores pagam com a vida. Após o primeiro jogo é dada a opção de desistir e aqueles que não querem competir e sobreviveram tem a opção de ir embora. Porém, logo a grande maioria retorna.

O questionamento da produção é simples: arriscar tudo para não ter preocupações financeiras na vida, ou continuar na batalha cotidiana onde as chances são mínimas de vencer após diversas derrotas? A visão à primeira vista é que nenhum dinheiro do mundo vale arriscar tanto, mas uma reflexão rápida lembra que muitos jovens se alistam para ir para guerra por motivos que eles nem entendem direito por muito menos dinheiro que o prêmio de “Round 6”.

A temática da dificuldade de ascensão social já rendeu um Oscar para o país asiático com “Parasita”, mas aqui se mistura com uma narração mais pop, o que justifica o grande sucesso da série. As cenas de gore são rápidas, não se estendem muito e dificilmente tem closes, como no massacre do primeiro jogo, com cabeças explodindo e pilhas de corpos à distância, sugerindo mais que mostrando.

Assim, a direção aposta em mostrar outro tipo de horror: aquele que acaba forçando pessoas normais a se submeterem aos desmandos e jogos daqueles que possuem o poder, e o quanto alguém comum pode ser cruel quando o que está em jogo é um prêmio que supostamente irá resolver todos os seus problemas. Afinal, para quem já está com a corda no pescoço, expor-se a uma situação limite na qual se pode perder a vida é apenas mais um dia comum.

. Round 6: em meio ao caos, não se perder é um ato heroico.

Canal Cultura eZAUtada

Créditos:

Roteiro: Marcelo Fernandes, Vini Miranda, Fabiana Zau.

Narração: Fabiana Zau

Edição: Vini Miranda

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