Crítica | The Batman: O recomeço que o herói precisava

Uma carta de amor e muitas charadas pra desvendar

The Batman, ou apenas Batman aqui no Brasil, é um grande marco na história dos filmes de super heróis. Fruto de vários contratempos, vindo diretamente de um projeto que seria originalmente estrelado e dirigido por Ben Affleck e faria parte do Universo Estendido da DC, The Batman sofreu uma metamorfose completa, se tornando algo completamente independente e com uma identidade própria.

Em The Batman, o herói título (Robert Pattinson) está no seu segundo ano de atividade. Bruce Wayne enxerga o Batman como uma personificação da Vingança. Suas ações já são conhecidas por toda a Gotham, e os criminosos fogem de medo ao ver o Batsinal ligado nos céus. O Batman é uma força a ser temida pelos criminosos, e é tratado com desconfiança pelas autoridades oficiais. Mas tudo muda quando uma série de assassinatos começa a acontecer em Gotham.

Pessoas poderosas estão sendo mortas, o que faz toda a polícia de Gotham e o Homem Morcego se mobilizarem para descobrir quem é o culpado. A única pista que o criminoso deixa são charadas. A partir daí acompanhamos Batman e seus aliados em uma busca para desvendar os mistérios por trás do misterioso Charada, descobrir as suas motivações e impedi-lo de continuar matando. E essas investigações vão levar nosso Cavaleiro das Trevas a descobrir segredos obscuros da cidade.

Algo que vale ser destacado desde o início é a fotografia e a direção. Matt Reeves deu aula. Simples assim. Toda a ambientação de Gotham, o aspecto noir e detetivesco da trama, a distribuição dos personagens centrais e secundários, a iluminação (e a falta dela em alguns momentos). Tudo está lindo e usado com maestria. A trilha sonora também é sensacional. É estrondosa, é impactante, e por vezes é propositalmente incômoda. Boa parte da imersão que temos vendo esse filme é por conta da sua trilha.

O Batman está mais sombrio do que nunca, tanto para os criminosos, como para o seu próprio interior. Pattinson nos entregou um Bruce Wayne recluso, distante, levemente tímido e antissocial. É um Bruce que ainda não sabe diferenciar a sua vida pública com a sua vida de vigilante. Ele ainda é imaturo, mesmo que ainda não saiba disso de início. E até o final da história, vemos ele evoluir como personagem.

O desenvolvimento dos personagens está sensacional. Algo que chama a atenção é o destaque dado à polícia de Gotham. Os policiais não são apenas enfeite. Eles literalmente trabalham junto do Batman. Principalmente James Gordon (Jeffrey Wright), que é quase um parceiro do herói. Com um Gordon desses, um Robin é completamente desnecessário (rsrs). Com certeza, esse destaque é proposital, tendo em vista que a série Gotham P.D. já foi confirmada e virá em breve ao HBO Max. Selina Kyle (Zoe Kravitz) também se destaca, não só como interesse amoroso do herói, mas como uma anti heroína com uma jornada própria, que se entrelaça com a do protagonista de forma orgânica.

Outro personagem que teve um enorme destaque é o Charada (Paul Dano). Deram pro personagem elementos inspirados em franquias de terror, dando uma pegada completamente nova e super bem vinda ao vilão. Outros personagens como o Pinguim (Colin Farrell) e Alfred (Andy Serkiss) também se destacam, apesar de não aparecerem tanto quanto os outros. A trajetória do Pinguim, no entanto, é uma grande introdução ao personagem, que em breve terá a sua própria série solo também no HBO Max. Por fim, Carmine Falcone (John Turturro) foi uma grata surpresa, pelo menos pra mim.

A trama é densa. Nós mergulhamos profundamente no psicológico dos personagens, em especial o Batman e todas as suas questões internas envolvendo a morte dos seus pais e se ele está ou não fazendo a diferença em Gotham. O filme não tem pressa pra desenvolver a sua narrativa e os seus personagens, e isso não é nem de longe um problema. Dá pra se envolver tanto com a história, que as quase 3 horas de duração do filme não serão sentidas.

Para quem espera mais ação, pode se decepcionar. Talvez esse seja o filme do Batman com menos combates, dando mais espaço para o aspecto detetivesco e dramático do herói (algo inédito nos cinemas). Mesmo assim, a ação é presente, porém de uma forma mais pontual e crua. Mesmo que não tenham tantas lutas aqui, talvez estejamos diante do Batman mais violento dos cinemas até o momento. Mesmo assim, a regra de “não matar” é mantida e é muito importante.

É possível enxergar inúmeras inspirações de dentro e fora dos quadrinhos em The Batman. Pra começar, são identificáveis referências a títulos cinematográficos como Taxi Driver de 1976 e a franquia de terror Jogos Mortais. Fora elementos tirados diretamente das páginas de HQs como Batman: Ano Um, Batman: Ano Zero, Gotham P.D. e Batman: Ego.

Além disso, olhos mais atentos irão perceber também aspectos retirados de versões de outras mídias do herói, como as coreografias de luta tiradas diretamente da série de games Batman Arkham, e certos elementos narrativos aparentemente inspirados em títulos anteriores do herói, como Batman: O Cavaleiro das Trevas de 2008, e a série Gotham.

E para aqueles que ainda não entenderam: The Batman NÃO FAZ PARTE do Universo Estendido da DC. Não espere ligações com, por exemplo, Pacificador, Liga da Justiça, nem com as histórias do Batman do Ben Affleck. É uma nova encarnação do herói, ambientada em um universo completamente novo.

The Batman é um filme obrigatório não só para fãs do Batman, mas para os fãs da DC e do gênero de super heróis em geral. Com certeza ditará novas tendências, como Coringa (2019) fez antes dele. Trouxe uma pegada diferente para o Morcegão, e apresentou ao grande público um lado do herói que até então só existia nas páginas dos quadrinhos. Tecnicamente falando, é um filme quase impecável. É longo, porém suas quase 3 horas de duração não foram sentidas por mim, e provavelmente não serão por ninguém que se entregar à imersão da obra, que acredite, é BEM imersiva.

The Batman é, com certeza, algo único, e para muitos, será a experiência dramática definitiva do Cavaleiro das Trevas de Gotham.

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