Crítica | Doutor Estranho no Multiverso da Loucura – Uma exploração imperfeita pelo Multiverso

Mais um capítulo do Universo Cinematográfico da Marvel, continuando a atual fase da franquia, sendo o 28º longa metragem do chamado MCU. Em volto de muitas expectativas por conta da temática de Multiverso e por uma certa influência do seu filme anterior, será que Doutor Estranho no Multiverso da Loucura é um filme que merece a nossa atenção?

Aqui, acompanhamos o Doutor Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), que por conta do Blip (evento provocado pelo vilão Thanos que resultou em metade da vida do universo sumir por 5 anos), tem que lidar com as consequências das suas decisões durante as batalhas anteriores. Fora isso, ele perdeu o posto de Mago Supremo para o seu companheiro Wong (Benedict Wong). Tudo começa a mudar quando Strange e Wong acabam presenciando uma criatura atacar uma jovem desconhecida. Ela seria America Chavez (Xochitl Gomez), uma garota vinda de outra realidade e que tem a habilidade de viajar pelo Multiverso.

Ela está sendo caçada, e para defendê-la dessa possível nova ameaça, Strange decide recorrer à ajuda de Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen). O problema é que a ameaça está mais perto do que Strange imaginava, o que resulta em um conflito que faz Dr. Estranho partir em uma inusitada viagem através de várias realidades paralelas.

É UM FILME ISOLADO?

Algo que vale a pena comentar antes de tudo é que NÃO. Doutor Estranho no Multiverso da Loucura não é um filme isolado. Elementos importantes da narrativa, principalmente envolvendo a Wanda, são quase que totalmente dependentes de títulos anteriores para serem completamente compreendidos. Dito isso, é extremamente recomendável que pelo menos a série WandaVision (2021), disponível no serviço de streaming Disney+, seja assistida antes de ver o filme, pois assim as motivações da personagem serão melhor entendidas. Claro, é necessário também assistir ao primeiro filme do Doutor Estranho (2016), afinal estamos falando de uma sequência. Apesar de não ser tão obrigatório assim, também é interessante assistir a série do Loki (2021) e o filme Homem Aranha: Sem Volta Para Casa (2021), pra ter uma introdução mais completa sobre o conceito de Multiverso.

Considerando que a Marvel já está no seu 28º título, é de se esperar uma certa dependência em relação ao que veio antes para uma total compreensão, mas isso não deixa de ser um ponto negativo, pois torna o filme difícil de ser recomendado para expectadores de primeira viagem.

UM FILME DO DOUTOR ESTRANHO E DA FEITICEIRA ESCARLATE

Apesar do Dr. Estranho estar no título do filme, essa história é tanto dele quanto de Wanda Maximoff. A personagem é extremamente bem desenvolvida aqui. Até melhor que o próprio protagonista, parando para analisar. Elizabeth Olsen nos apresentou o seu melhor trabalho dentro do MCU até o momento. Já o Dr. Estranho não tem muitas diferenças em relação aos títulos anteriores e o seu desenvolvimento é mais tímido, porém existente. O que é muito interessante de se observar é que estamos diante de uma interação inédita, pois os dois personagens não chegaram a se encontrar nas histórias passadas. Sendo assim, foi uma relação de personagens iniciada aqui, mas que é tão orgânica que até esquecemos desse detalhe.

Como dito, a trajetória da Wanda continua de onde parou na série WandaVision, com ela corrompida pelo Darkhold buscando encontrar seus filhos em outras realidade. Isso torna estritamente necessário ter assistido a série para compreender as suas motivações. Considerando que sua última aparição nos cinemas foi em Vingadores: Ultimato (2019), as pessoas que forem direto para esse título sem ter passado por WandaVision sentirão falta de elementos importantes da história de Wanda. Por exemplo: o que ocorreu na cidade de Westview, como a Wanda finalmente se tornou a Feiticeira Escarlate, como ela obteve posse do Darkhold e quem são os seus filhos.

COADJUVANTES NÃO TÃO FORTES

Talvez por conta do grande grau de desenvolvimento de Strange e Wanda, o mesmo não pode ser dito dos demais personagens. Wong, apesar de ser o atual Mago Supremo, não apresenta um arco interessante a ser desenvolvido. A exploração da sua nova posição se limita aos seus conhecimentos (usados como recurso para avançar na trama), sua capacidade de liderança e momentos cômicos. Christine Palmer ganha mais tempo de tela aqui (convenhamos, desnecessariamente), mas basicamente só serve como um alicerce para o desenvolvimento do Dr. Estranho. Já America Chavez é uma boa adição ao universo Marvel, porém teve uma introdução apressada e um desenvolvimento superficial, servindo basicamente como um recurso do roteiro para levar a história pra frente, não muito diferente do Darkhold, por exemplo.

Obviamente existem outros personagens aqui, como os filhos da Wanda, os magos do Kamar-Taj e as variantes de outros universos. Porém esses são, de longe, os mais destacados que tiveram um mínimo de desenvolvimento.

A LOUCURA EXISTE NESSE MULTIVERSO?

Algo que chamou a atenção mesmo antes de ver o filme foi o tempo de duração (2 horas e 6 minutos). Considerando que a proposta seja mostrar o Multiverso de forma mais ampla, fora todo o desenvolvimento da trama em si, eu particularmente considerei esse tempo curto. E isso é refletido no enredo, que é corrido em diversos momentos. Infelizmente, por conta do pouco tempo de tela, soluções rápidas e por vezes superficiais são encontradas para situações extremas, o que desagrada num âmbito geral.

Ao mesmo tempo, o ritmo do filme é frenético. Quando a ameaça surge, não para mais. E isso trás momentos muito bons, porém também pode mascarar certos defeitos narrativos em primeiro momento. Em relação ao Multiverso em si, não há muito o que reclamar. A história distribuiu bem o tempo de tela entre cerca de 4 universos distintos, mostrando bem a diferença entre a maioria deles. Porém, como a promessa era explorar mais o Multiverso, não pude deixar de sair da sala de cinema com um gostinho de “quero mais” no sentido de querer ver mais universos diferentes sendo mostrados e explorados. Mas ao mesmo tempo é compreensível diante das 2 horas de duração do longa.

Sendo assim, a “loucura” está no fato do roteiro ser frenético, e colocar nossos heróis em uma verdadeira corrida para impedir a antagonista de conseguir chegar no seu objetivo, e no meio desse processo, universos paralelos acabam sendo visitados.

SAM RAIMI E OS ELEMENTOS DE TERROR

Uma coisa que nós não esperamos vindo de um título da Marvel Studios, é a identidade do diretor sendo aproveitada. Os filmes do MCU sempre priorizaram a identidade da própria franquia (a famosa “fórmula Marvel”) ao invés de dar espaço para o diretor mostrar a sua assinatura. Isso já se provou um problema em ocasiões passadas, como por exemplo a saída de Edgar Wright da direção do primeiro filme do Homem Formiga, em 2015.

Porém, dessa vez foi diferente. Sam Raimi, conhecido pela trilogia clássica do Homem Aranha estrelada por Tobey Maguire, conseguiu dar a sua cara em um filme da Marvel Studios. Lembrado também por franquias de terror como a trilogia Uma Noite Alucinante (1981, 1987 e 1992), Darkman: Vingança Sem Rosto (1990) e Arraste-me para o Inferno (2009), Raimi consegue fazer algo que muitos poderiam considerar impensável no Universo Cinematográfico da Marvel: incluir elementos de terror na narrativa.

Ao longo de diversos momentos, encontramos características típicas de filmes de terror/horror aqui, além de claras homenagens a franquias como Exterminador do Futuro e O Chamado. Porém, é preciso enfatizar que esse filme NÃO É TERROR. Estamos diante de um título do gênero AÇÃO E AVENTURA com ELEMENTOS de terror. Então, fora um ou outro jumpscare, momentos de tensão e até uma dose moderada de choque visual, essa produção não tem como objetivo te causar medo.

Fora os elementos de terror, quem já conhece o trabalho do diretor vai conseguir identificar outras características do seu trabalho, como jogadas de câmera, easter eggs característicos e o uso das trilhas sonoras. Porém, isso não quer dizer que a “fórmula Marvel” não esteja presente. Temos sim muitos atributos típicos de um título do MCU, como o humor, misturado com a assinatura de Sam Raimi.

COMO UMA ADAPTAÇÃO

Temos aqui uma aventura que trás muitos elementos dos quadrinhos. Talvez seja até mesmo a produção mais “história em quadrinhos” do MCU desde Vingadores: Ultimato. Em uma cena em específico, mostrada em trailers e spots, onde o Dr. Estranho e a America Chavez passam por diversas realidades em questão de segundos, é possível identificar muitos easter eggs interessantes, como o Tribunal Vivo, as Terras Selvagens, um universo animado e um possível Universo Noir.

Fora isso, a trajetória da Wanda é retirada diretamente da sua fase vista em arcos como Vingadores: A Queda e Dinastia M. Elementos do arco Guerras Secretas e das histórias do Dr. Estranho escritas por Jason Aaron, ambas de 2015, também são identificáveis. Dá pra notar também homenagens a títulos de outras mídias da Marvel, como as séries Pré-Disney+ e séries animadas.

E O FAN SERVICE?

Claro, algo bem esperado pelos fãs é o tão aguardado momento fan-service. Homem Aranha: Sem Volta Para Casa elevou o uso desse recurso para outro nível quando se trata de uma história da Marvel envolvendo o Multiverso, ao trazer as versões de Homem Aranha de Tobey Maguire e Andrew Garfield de volta em um crossover histórico com a atual versão do herói aracnídeo interpretada pelo Tom Holland.

E como Doutor Estranho no Multiverso da Loucura veio com a proposta de explorar outros universos da Marvel, foi quase inevitável não pensar que a intenção da Marvel era elevar isso ainda mais. Teorias e mais teorias foram surgindo, ao lado de supostos roteiros vazados com possíveis momentos que fariam esse filme ser comparável ao Vingadores: Ultimato no quesito quantidade de participações de personagens. Para quem acreditava nesses rumores e esperava ver algo extremamente épico, provavelmente vai se decepcionar com a experiência.

Multiverso da Loucura tem SIM participações especiais ótimas, históricas e até inesperadas. No entanto, a proporção e a forma como elas acontecem provavelmente não foi como muitos idealizaram. Foram interessantes, introduziu aspectos importantes para a franquia e proporcionou talvez um dos momentos mais chocantes do filme. No entanto, não foi o “momento épico” que muitos esperavam. Apesar disso, particularmente eu gostei das participações, mas não nego que esperava mais, mesmo tendo assistido com o “hype” moderado.

CONCLUSÃO

Doutor Estranho no Multiverso da Loucura é uma ótima adição ao Universo Cinematográfico da Marvel, porém não é perfeito. Temos aqui um bom desenvolvimento dos seus protagonistas e antagonistas, algo que deixou um pouco a desejar em relação aos coadjuvantes. O roteiro é frenético, mas ao mesmo tempo peca por apresentar soluções práticas e um certo nível de deus ex machina em alguns momentos. Em contrapartida, o diretor dar a “sua cara” na produção é louvável considerando que estamos falando de um filme da Marvel.

Se existe algo que esse filme nos mostra, na verdade reforça, é o quão temos que ter cuidado com as nossas expectativas e com as teorias alimentadas pelos rumores da internet. O hype é bom, é legal e, nas proporções certas, saudável. Mas não pode ser exagerado. Quanto maior for a sua expectativa, maior é o risco de ela não ser saciada. E uma das consequências disso é a sensação de o que você estiver assistindo parecer “um lixo” independente da sua real qualidade.

Porém, não se deve culpar apenas a quebra de expectativa para justificar qualquer tipo de insatisfação em relação a esse filme. Ele não é perfeito, tem problemas e não foi o “filme evento” que muitos esperavam.

Apesar de tudo, aqui temos bons acréscimos ao universo (ou Multiverso) Marvel de maneira geral, e a introdução de elementos que provavelmente serão muito importantes e podem começar a pavimentar a franquia para o seu próximo grande evento. É uma jornada que poderia ter sido mais interessante e proveitosa, mas que com certeza foi louca e inesquecível.

O filme tem duas cenas pós-créditos, porém apenas a primeira é importante. Assista a segunda apenas se fizer muita questão.

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