Crítica | Lightyear – A Pixar tentando ir “Ao Infinito e Além”

Os amantes da franquia Toy Story com certeza conhecem Buzz Lightyear. O famoso boneco que acreditava que era um patrulheiro espacial de verdade e que se tornou o brinquedo favorito de um garotinho. A história do Buzz, ao lado do Woody e outros brinquedos que todos nós amamos, entrou para a história com a (até o momento) quadrilogia Toy Story (franquia, inclusive, que começou a onda de animações feitas com tecnologia 3D).

E agora, a Pixar retornou com uma proposta diferente para essa saga. Um filme contando a história do Buzz Lightyear original. Não o brinquedo, mas sim o real patrulheiro espacial que serviu de base para o boneco.

Mas será que esse filme vale a pena?

O que é Lightyear?

Como dito, Lightyear veio com a proposta de trazer a história original do personagem Buzz Lightyear. Não o brinquedo, mas o real patrulheiro espacial. No filme, Buzz (dublado por Chris Evans nos EUA e por Marcos Mion no Brasil) estava em uma espécie de viagem espacial de colonização juntamente com um grande número de civis e dois outros patrulheiros, o recruta e a sua fiel parceira Alisha Hawthorne (Uzo Aduba nos EUA, Adriana Pissardini no Brasil). Porém, o orgulho de Buzz o fez cometer erros graves que resultou na nave e todos os seus tripulantes ficarem presos naquele planeta. Se sentindo culpado pelo que aconteceu, Buzz se dedica a tentar de tudo para retirar a todos daquele planeta.

No entanto, para que isso seja possível, Buzz acaba fazendo testes de voo para chegar à velocidade da luz. O problema que a cada testes de voo, Buzz pula 4 anos da sua vida devido à distorções espaço temporais do cosmo. E de tantas tentativas realizadas, chega um momento em que a situação para Buzz se torna irreversível.

É uma história de origem e ao mesmo tempo não. O filme não nos apresenta de onde o Buzz e a tripulação vêm, assim como termina de uma forma ambígua, com uma sensação de que a história pode continuar. Isso de certa forma faz sentido, uma vez que o título tenta simular a narrativa de filmes dos anos 90.

A razão disso é que Lightyear é um filme não apenas para nós, mas para os personagens de Toy Story também. A primeira mensagem mostrada na tela é que esse seria o filme o qual o Andy, o dono dos brinquedos da franquia Toy Story, assistiu na infância, e que foi dele que o garoto conheceu o personagem Buzz Lightyear. Esse filme se tornaria o favorito de Andy, o que o levaria a ganhar o boneco de presente no primeiro título da saga. Sendo assim, Lightyear de certa forma é uma metalinguagem, já que estamos vendo um título que também existe no mundo fictício da franquia da Pixar. E como o primeiro Toy Story se passa no ano de 1998, logicamente Lightyear, dentro desse mundo fictício, seria um filme dos anos 90.

Vale lembrar que essa não é a primeira vez que a Pixar usa esse artifício em Toy Story. Isso também aconteceu em 2000, e também com o Buzz. A animação Buzz Lightyear do Comando Estelar foi outro título do Patrulheiro Espacial, dessa vez no formato de desenho animado, contando as aventuras do herói junto da sua equipe para enfrentar vilões interplanetários e defender a galáxia. Para os antigos fãs dessa animação, não esperem qualquer tipo de ligação entre Lightyear e Buzz Lightyer do Comando Estelar. São títulos isolados. No máximo, o filme pode ser considerado um prequel da animação, porém teria que se passar BEM antes dela para fazer sentido.

Abertura de Buzz Lightyear do Comando Estelar

De qualquer forma, a animação também usou desse artifício de ser uma história fictícia dentro do universo de Toy Story, já que lá, nós literalmente vemos os brinquedos pegando a fita VHS do desenho animado e a colocando na TV para assistirem à aventura. Sendo assim, para os fãs mais fervorosos de Toy Story, esse recurso não é novidade.

O título mais adulto da Pixar?

Lightyear, de maneira geral, trás todas as características que permeia em títulos da Pixar. É uma história divertida, com momentos cômicos intercalados com cenas de ação e drama. A mensagem desse filme é bem clara e perceptível. A história é feita para agradar tanto crianças quanto adultos, tendo personagens carismáticos e dinamismo que vai divertir a criançada, enquanto também trás nuances que serão perceptíveis pro público mais maduro.

Porém, temos aqui uma aventura com uma pitada mais dramática e até mesmo parada na sua primeira metade. Até meados do segundo ato, a história avança a passos lentos e dá muito espaço aos dilemas morais e até mesmo psicológicos do personagem. De certa forma, isso mostra maturidade entre os roteiristas da Pixar, mas ao mesmo tempo dá a sensação de uma trama arrastada e sem graça.

A jornada pessoal de Buzz é o principal foco aqui, e traz uma mensagem clara de como a teimosia e a obsessão pode nos custar até mesmo nossas vidas. Não no sentido de morte, mas no sentido de desperdiçarmos o nosso valioso tempo com algo que, no final das contas, não valia tanta a pena assim. Parando para pensar, a trama gira praticamente toda em torno dessa questão.

Isso pode dar a sensação de que esse filme é mais voltado pro público adulto do que para as crianças. De certa forma, pode ser que ele tenha sido pensado assim mesmo, já que hoje em dia, o público que assistiu Toy Story desde o seu lançamento, lá atrás em 1998, é de adultos. Mesmo assim, há quem sinta falta de mais descontração, considerando que estamos falando de algo ligado a, justamente, Toy Story.

Polêmicas?

Lightyear foi palco de discussões por conta de polêmicas discutíveis, já que o filme apresenta entre seus personagens um casal lésbico. Alguns podem considerar isso desnecessário e o título chegou a ser banido em alguns países pelo simples fato de esse casal existir. Inclusive, aparentemente tinha uma cena de beijo gay dessas personagens que foi cortado pela Pixar para evitar mais polêmicas.

Que a Disney está buscando abraçar a diversidade em suas obras, isso já está bem claro há bastante tempo. Os filmes da Marvel Studios, por exemplo, estão deixando isso bem claro. O fato de Lightyear ser uma animação está gerando esse burburinho, pois seria um título voltado para crianças.

No entanto, acredito que já passamos dessa fase. Talvez a cena de beijo pudesse ser um pouco demais para o público infanto-juvenil. Mas isso é discutível e valeria para qualquer tipo de beijo, tanto entre casais heteros como entre casais homoafetivos. Agora, me baseando no que foi mostrado no filme em si, foi algo tão discreto e natural que não está valendo tanta discussão assim, no meu ponto de vista. Já passou da hora de vermos os mais variados tipos de casais da forma mais natural possível, e quanto mais cedo as crianças aprenderem isso, melhor.

Outra polêmica, dessa vez específica do Brasil, vem da nossa dublagem. Principalmente por conta da troca do dublador do Buzz. Enquanto em Toy Story, o personagem é dublado por Guilherme Briggs, aqui o papel foi dado ao ator e apresentador Marcos Mion. Isso gerou certo rebuliço na comunidade de fãs. Primeiro pelo fato de Guilherme Briggs ser um ator muito amado, e a sua voz no personagem ser considerada perfeita pela maioria.

E segundo, talvez por conta de Marcos Mion ser o atual apresentador do programa Caldeirão da TV Globo, muitos compararam a sua escalação com a do Luciano Huck para a animação Enrolados, também da Disney. Porém, essa é uma comparação indevida e injusta, já que ao contrário de Huck, Mion é sim um ator e dublador experiente, tendo inclusive dublado o personagem Fred em Operação Big Hero, outra animação da Disney. Dublagem essa, que foi muito bem executada.

Particularmente, eu gostei do resultado do trabalho de Mion. Briggs é insubstituível, não tem como negar. Mas considerando que o próprio Briggs foi o diretor de dublagem, e que o Mion não é nenhum amador como o Huck era na época de Enrolados, o resultado da dublagem de Lightyear foi satisfatório.

Referências e possíveis ligações

Como dito, a única ligação que Lightyear possui em relação aos demais títulos de Toy Story é que ele é um filme que também existe nesse mundo fictício. Provavelmente, dentro desse universo, essa aventura foi o que começou a franquia do Buzz Lightyear, que resultou na linha de bonecos que vemos em Toy Story e na própria animação Buzz Lightyear do Comando Estelar dos anos 2000.

Qualquer outro tipo de ligação narrativa é inexistente. No entanto, existem referências interessantes que remetem a títulos anteriores da franquia, como as origens dos uniformes, falas icônicas e a identidade do vilão Zurg (James Brolin nos EUA, Carlos Campanile no Brasil).

Além de referências ao próprio Toy Story e outras animações da Disney Pixar, Lightyear também apresenta referências claras a outros títulos icônicos do gênero de ficção científica. Como, por exemplo, Alien, Perdidos no Espaço, Star Trek e Star Wars. Tudo isso mostra a dedicação dos criadores em mostrar as suas inspirações e, de certa forma, manter a vibe anos 90 que supostamente o filme deveria ter.

Vale a pena?

Lightyear é um título que chama a atenção principalmente de fãs antigos de Toy Story. Somente essas pessoas vão saber o real significado de termos um filme solo da versão original do lendário Patrulheiro Espacial. Essas pessoas, seja pelo fator nostalgia ou pela qualidade do próprio filme, podem gostar do que vão assistir.

Agora, o público novato pode gostar também? A resposta é: provavelmente sim. Lightyear traz uma trama isolada, com uma boa quantidade de referências a outros títulos da cultura pop, e não exige nenhum tipo de obrigatoriedade de conhecer Toy Story para assisti-lo. Claro, se você conhecer o que veio antes, o apelo será maior. Mas não é obrigatório.

O fato de esse filme também existir no universo fictício da franquia de brinquedos é interessante, mas traz alguns questionamentos para os mais atentos, como as possíveis tecnologias usadas nesse suposto “live action dos anos 90”, que claramente são mais avançadas do que o que nós realmente vimos em filmes daquela época, na vida real. Porém, isso são detalhes que vão incomodar apenas os mais exigentes.

A trama é consideravelmente parada e arrastada na sua primeira metade, engrenando a partir da metade do segundo ato, e isso pode desestimular aqueles que buscam algo mais dinâmico, principalmente vindo de uma animação da Pixar.

Não espere algo estilo Buzz Lightyear no Comando Estelar. O negócio é um pouco mais devagar aqui. Mas isso não quer dizer necessariamente que é ruim. Pelo menos, não para este que está escrevendo essa crítica.

Espero que esse não seja o fim do “verdadeiro” Buzz Lightyear, e que tenhamos mais dessa franquia e talvez de outros paralelos de Toy Story. O fato de esse filme existir agora, mostra que a Pixar realmente está tentando ir “ao infinito, e além.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s